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Discurso de posse na Academia Brasileira de Filosofia

Os anos fluem vertiginosamente, os cabelos ganham tons de prata ou mesmo embranquecem como as neves. A biografia se abre para o reconhecimento do que cuidam havermos feito ou simplesmente buscamos aconchego no convívio com nossos pares em academias e instituições culturais similares. Antonio Houaiss certa feita me confidenciou que os idosos vivem sós, nós, aqui na Academia, envelhecemos juntos. Isto talvez explique, pelo menos em parte, o enriquecimento do curriculum vitae de quantos se avizinham do crepúsculo da vida. Assim, não me surpreendi com a convocação para partilhar com os meus novos confrades o laivo de vida com que estou sendo aquinhoado.
 
A finitude sempre presente em nossa vida não consegue ocultar, porém, o halo de esperança que nos aponta para a consciência de que forcejamos por cumprir o nosso destino. De resto a esperança se insinua nas dobras da alma, como um pouso existencial invariavelmente disponível.
 
Uma palavra de agradecimento se impõe, não apenas na ritualística das academias, mas na explicitação de um sentimento de que os meus novos pares, num assomo de generosidade, houveram por bem propiciar este encontro marcado com o sinete da fidalguia intelectual manifestada por quantos integram esta Casa de Filosofia, nascida de um pujilo de pensadores ancorados no projeto de aqui, nesta cidade maravilhosa, plantarem as sementes de um novo amanhã para a Filosofia no Brasil.
 
Impende expressar meu sentimento fraterno de agradecimento ao imortal Candido Mendes por me receber nesta noite, ele, expoente de nossa geração. Em sucessivas décadas, Candido vem se constituindo crescentemente em embaixador da cultura brasileira em quase todos os quadrantes do planeta, tomando iniciativas culturais a que acorrem alguns dentre os maiores pensadores da atualidade num reconhecimento explícito do valor intelectual de nosso confrade. Agora, com plena justiça, ele figura na galeria dos 25 intelectuais com maior presença no cenário mundial escolhidos pela prestigiosa revista parisiense Le Nouvel Observateur. Nela o talentoso pensador brasileiro é apresentado como um aristocrata barroco. Eis o seu retrato irretocável: “avant d´être un penseur, Candido Mendes est une figure. À la tête d´une université prestigieuse portant son nom... il a su faire de cette institituion au coeur de Rio l´instrument d´une réflexion originale et de premier plan sur les grandes questions sociales de notre temps”.
 
Ao ingressar nesta Academia Brasileira de Filosofia não posso sopitar minha admiração pelo trabalho de restauração da Casa de Osório, agora sede da instituição, uma vez que assim nasce um novo centro cultural no prédio onde residia o Marechal, o que empresta uma atmosfera cívica à especulação filosófica que aqui há de vicejar como em terra nativa. E o mérito cabe à direção da Academia e a seu presidente, o dinâmico acadêmico João Ricardo Moderno Carneiro.
 
As academias e instituições congêneres surgem com objetivos definidos e, no fluir do tempo, ampliam seu escopo. Academias de Letras, oriundas do intento de abrigar ficcionistas e poetas, acolhem cientistas sociais, cientistas tout court, filósofos e mesmo teólogos. Esta Academia parece seguir o mesmo caminho, ao incorporar intelectuais das letras e das ciências, enriquecendo o seu espectro cultural. Cabendo-me escolher o patrono da cadeira que me cumpre ocupar, entendi poder optar por um escritor não conhecido graças a contribuições diretamente ligadas à filosofia. Minha escolha recaiu no romancista Octavio de Faria, cuja cultura pervadiu os domínios do cinema, da filosofia, da política para, afinal se render à primazia insopitável das letras.
 
Octavio de Faria nasceu nas Laranjeiras, no Rio de Janeiro, em 15 de outubro de 1908. Filho do acadêmico Alberto de Faria, autor de uma famosa biografia de Mauá, e de Maria Teresa de Almeida Faria, filha de Tomaz Coelho e Almeida, Ministro do Império e fundador do Colégio Militar, sua vida transcorria entre o Rio de Janeiro e a cidade imperial de Petrópolis e, mais tarde, também em Teresópolis.  Na cidade imperial viveu em casa tombada pelo patrimônio histórico que pertenceu ao Barão de Mauá, antes de ser adquirida pelo seu pai. O próprio Octavio desenhou o seu mundo: “meus cunhados Afrânio Peixoto e Alceu Amoroso Lima e a grande companheira de leituras e passeios, (minha irmã) Heloísa..., somados ao exemplo e carinho de meus pais e à afabilidade do mundo familiar, representaram o quadro quase completo das relações humanas de minha meninice. Não tive nenhum amigo na infância”. Conta Alceu Amoroso Lima que Octavio, em tenra idade, brincava com formigas e por um telescópio contemplava as estrelas do céu. Introvertido, tímido à outrance, o romancista carioca vivia em seu mundo interior, parecendo concentrar-se para cumprir seu fecundo destino de escritor, um dos mais talentosos ficcionistas de nossa língua. Afrânio Peixoto desposou sua irmã Chiquita em 1914 e, quatro anos mais tarde, Alceu se casará com sua irmã Maria Teresa. A introversão do patrono da nova cadeira era patente. Morava com sua irmã no morro da Viúva. Lá foi entrevistado por Marisa Raja Gabaglia: “Você é casado?”

COELHO  NETO
OU  O  CULTO  À  PALAVRA*
                      
A simples menção a Coelho Neto despertava reações apaixonadas. Seu nome gerava comentários encomiásticos e, às vezes, ferinos. É certo, contudo, que Coelho Neto figurou na galeria dos grandes escritores da literatura pátria. Versou todos os gêneros literários e sua pena prolífica assombrava o mundo das letras mercê da variedade e riqueza de seu estilo. Palavras entregues ao olvido renasceram em seus escritos, a revelar o seu domínio da língua que nos irmana e à qual devemos, e muito, a unidade nacional.

Passados mais de setenta anos de seu desaparecimento, Coelho Neto não tem seu nome relembrado pelas novas gerações. Daí porque cabe inventariar a sua biografia, recordar a sua vasta contribuição à literatura brasileira, sua presença obrigatória nos fatos marcantes da história de meados do século dezenove e das primeiras três décadas do século vinte que serviram de espaço para o seu pleno desabrochar.

Seu nome sofreu o desgaste que acompanha personalidades excepcionais, o que gerou um esquecimento de suas obras, até que, no ano do centenário de seu nascimento, Otávio de Faria, com particular empenho, promoveu a sua reabilitação. Com isso, queria significar que aos leitores caberia a tarefa de proceder a uma avaliação das obras de Coelho Neto, pois os seus detratores se dispensavam do esforço honesto de lê-las. A cortina do silêncio desceu mais uma vez no horizonte de nossas letras, pelo que adequado nos pareceu o momento de proceder à sua, não diria reabilitação, mas apenas ensejo a que revivamos os passos de sua inequívoca presença literária no País, e mesmo fora dele.

Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu em Caxias, no Estado do Maranhão, aos 21 de fevereiro de 1864. Sua biografia o registra como professor, político, jornalista, romancista, contista, crítico, teatrólogo, memorialista e poeta. É o fundador da cadeira número 2 desta Academia, a que tem como patrono Álvares de Azevedo. A curta trajetória deste tinha o selo comum à época de tantos escritores precocemente convocados para o encontro com a morte, como que sedenta de tê-los em seu regaço. Álvares de Azevedo insere-se entre os poetas de breve percurso, nos quais Lygia Fagundes Teles vislumbra jovens talentosos escritores que morrem cedo, como sinal de seu romantismo visceral.

Coelho Neto era filho único de Antonio da Fonseca Coelho, português, e de Ana Silvestre Coelho, índia. Aos seis anos, seus pais se transferiram para o Rio de Janeiro. Ai frequentou o famoso Colégio Pedro II, então Ginásio Nacional, onde recebeu esmerada formação clássica. Lá eram lentes figuras de escola de nossa cultura, podendo afiançar-se que o nível dos estudos se assemelhava ao ministrado em faculdades de ciências e letras. No terceiro grau, principiou seus estudos na área médica, de que logo abriu mão para, a seguir, se matricular na Faculdade Direito de São Paulo, entidade presente em biografias estelares de nossa literatura. Seu temperamento arrebatado levou-o a se transferir para outro centro de excelência, em Recife, onde cursou o primeiro ano da famosa Faculdade de Direito. Nesta ocasião, teve o privilégio de conhecer Tobias Barreto. É quando se dá seu retorno à capital paulista. Em sua segunda estada em São Paulo, abriu-se para Coelho Neto o universo da participação, pelo que o escritor maranhense se deu plenamente às ideias abolicionistas e republicanas. Resolveu interromper seus estudos na famosa faculdade de direito, volvendo à antiga capital federal, o verdadeiro celeiro de talentosos intelectuais, que viam, na Corte, o topo de suas ascensões. Logo integrou luzidio grupo de Olavo Bilac, Luis Murat, Guimarães Passos, Paula Ney.

Tornou-se êmulo de José do Patrocínio, pena e oratória fulgurantes, como expoente da luta contra a escravidão, que tanto retardou nossa afirmação civilizatória e cultural. Até hoje, pagamos o elevado preço nessa sucessão de equívocos que vem freando a nossa afirmação como país efetivamente culto e dono de seu destino. E, além disso, real propulsor de singular civilização tropical.

Coelho Neto veio a se casar com Maria Gabriela Brandão, filha do educador Alberto Olympio Brandão. A união gerou quatorze filhos, sete dos quais cedo falecidos. A família numerosa bem explica a vida laboriosa de um dos mais lidos imortais desta Academia. 
Em seu currículo, vamos vê-lo secretário do Governo do Estado do Rio de Janeiro, Diretor dos Negócios do Estado, professor de História da Arte na Escola Nacional de Belas Artes e de Literatura Dramática na Escola de Arte Dramática e, posteriormente, seu diretor. Foi deputado federal pelo Maranhão em 1909 e, em 1917, reeleito. Seu senso cívico o levou a ocupar a secretaria geral da Liga de Defesa Nacional.

É de realçar-se o fato incomum de sua aprovação como professor de Literatura Brasileira do Colégio Pedro II, sem a exigência de concurso, por parecer assinado por Silvio Romero, João Ribeiro e Capistrano de Abreu. A Congregação do Colégio levou em conta a classificação, em primeiro lugar, de Coelho Neto em concurso extremamente difícil realizado em Campinas, em que concorreu com Batista Pereira e Alberto de Faria. As provas se sucederam com temas desafiadores: elementos estáticos da literatura brasileira, análise literária da Eneida, livro VII, versos 689-703; síntese histórica das literaturas românicas, influência destas sobre a literatura portuguesa e finalmente Bucólica, Égloga, IV v.1 a 26, de Virgílio.

Impende cinzelar brevemente a cultura vigente à época de Coelho Neto para mais bem lhe compreendermos a contribuição enriquecedora à cultura brasileira.

Vencida a batalha da Abolição da escravatura e implantada a republica, os intelectuais perderam o ímpeto por causas maiores. No plano internacional, a 1ª guerra mundial se insere entre os dados complexos a desafiar as inteligências da época. Analisando a atmosfera cultural daquele então, Bosi nos fala de um decadentismo configurado “na água morna de um estilo ornamental, arremedo da belle époque europeia e claro signo de uma decadência que se ignora”. É meio hábil para a emergência de uma forma estética que mal encobre um certo vazio de conteúdo. Daí à literatura como sorriso da sociedade – na expressão de Afrânio Peixoto - foi um passo.

Coelho Neto poderia ser tragado por tal período despossuído de um sentido mais profundo. O que explica as opiniões conflitantes sobre o seu desempenho literário.

Mas afinal: quem foi Coelho Neto? Seus críticos e mesmo detratores ombreiam com quantos lhe apontaram méritos excepcionais. Parece que chegaram a não lhe reconhecer a presença literária à época em que o escritor maranhense palmilhou pertinazmente os múltiplos gêneros literários.

Talvez caiba referir aqui as mais festejadas ou desencorajadoras críticas à opulenta obra de Coelho Neto, principiando com Humberto de Campos: “O Sr. Coelho Neto não é, em verdade, apenas um escritor: é uma literatura”. Ou mencionar, inicialmente, dois juízos críticos de valores conflitantes para que nos acuda ao espírito estarmos trilhando terreno de difícil praticagem. De um extremo a outro, cuidamos que não se poderá idoneamente negar a exuberante presença de Coelho Neto em nossa cultura. Surpreende-nos a distância abissal de dois escritores sobre o romancista maranhense.  Basta recorrer a Lima Barreto e a Otávio de Faria. Escreveu o primeiro: Coelho Neto é “o sujeito mais nefasto que tem aparecido no nosso meio intelectual”. O segundo nomeava o escritor maranhense “o maior romancista brasileiro”.

Na cultura pré-modernista destacam-se três nomes estelares: Ruy, homem público e homem de letras. Euclides, procurador do solo e do homem brasileiros. O terceiro terá sido Coelho Neto pela abrangência de sua obra que percorreu praticamente todos os gêneros literários e o tornou o maior dos prosadores brasileiros no reconhecimento de homens de grande valor, ocorrido em 1928.

Conta Paulo Coelho Neto que, no “estrangeiro, a obra de Coelho Neto tem merecido estudos e apreciações honrosíssimos de um grande: Fialho de número de escritores e críticos literários, tais como – em Portugal Almeida, Maria Amalia Vaz de Carvalho, Manuel de Sousa Pinto, Julio Dantas, João de Barros, Afonso Lopes Vieira, Raul Martins e Henrique Perdigão; - na França: Dr. P. Rovelly, Victor Orban, Phileas Lebesgue, Manoel Gahisto, George Normandy e Jean Duriau; - na Alemanha: Martin Brusot, em três estudos, publicado no Zeigeist – suplemento literário do Berliner Tageblatt, no Litterarische Echo, de Berlim, e no Aus Fremden Zungen, de Berlim, e mais Anthon Krause e Carl A. Nerlich; - na Inglaterra: J.C. Oakenfull e Rudyard Kipling; - na Itália: Giulio de Médici; - na Suécia: Karl August Hagbert; - nos Estados Unidos: Marie Robinson Wright, Isaac Goldberg e Percy Alvin Martin; - na Argentina: Martin Garcia Mérou, Benjamim de Garay, Guillermo Estrella, Manoel Galvez, p. Nuñez Arca e Luiz Onetti de Lima; - no Uruguai: Drs. Victor Perez Petit e Carlos Martinez Vigil; - no Cilhe: Julia Garcia Gamez, e em Angola: Barbosa Rodrigues.

No Brasil, a obra literária de Coelho Neto provocou inúmeras citações e comentários enaltecedores de Rui Barbosa, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Silvio Romero, Antonio Lobo, João do Rio, Medeiros e Albuquerque, João Ribeiro, Luiz Murat, Nestor Victor, Humberto de Campos, Luiz Carlos, Martins Fontes, Ramiz Galvão, Almachio Diniz, Veiga Miranda, Felix Pacheco, Miguel Couto, Augusto de Lima, Oliveira Lima, Pericles de Moraes, João Luso, Fernando de Azevedo, Fernando de Magalhães, Celso Vieira, Alcides Maya, João Neves da Fontoura.

Suas obras ganharam o mundo em onze idiomas – português, francês, inglês, alemão, italiano, espanhol, russo, sueco, sírio, esperanto e japonês. Seus trabalhos foram divulgados em todo o Brasil e na Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, Estados Unidos, Portugal, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Suécia, Rússia, Síria, Japão e África portuguesa.”

Eis diversas opiniões sobre a grandiosa obra de Coelho Neto:
“Um dos mais consagrados representantes da nossa cultura”.
Ruy Barbosa – Excerto de uma carta a Coelho Neto – 16/1/1918.

“Coelho Neto é um grande virtuose da prosa. Não conheço na literatura brasileira outro que lhe seja superior na faculdade da expressão”.
Nestor Victor – A crítica de ontem.

“Se se excetuar Ruy Barbosa, e só falando nos mortos, ninguém foi talvez mais castiço na sua linguagem e, simultaneamente, mais brasileiro no tema das suas obras”.
Henrique Perdigão – Dicionário Universal de Literatura, Portugal.

“Coelho Neto é no Brasil o que Rudyard Kipling é na Inglaterra, o homem que joga com maior número de palavras”.
João do Rio – O momento literário.
Machado de Assis assim se refere a Coelho Neto: “Coelho Neto tem o dom da invenção, da composição, da descrição e da vida, que coroa tudo. É dos nossos primeiros romancistas, e, geralmente falando, dos nossos primeiros escritores”.

E sobre O Sertão igualmente se expressa o grande Machado: “Coelho Neto ama o sertão, como já amou o Oriente, e tem na palheta as cores próprias de cada paisagem. Possui o senso da vida exterior. Dá-nos a floresta, com os seus rumores e silêncios, com os seus bichos e rios, e pinta-nos um caboclo que, por menos que os olhos estejam acostumados a ele, reconhecerão que é um caboclo”

Josué Montello – “Considerando com justiça entre as mais altas figuras de nossas letras, tanto pelos valores formais de seus livros quanto pela extensão de sua bibliografia, Coelho Neto poderia ser apontado, dois anos após a publicação de ‘Turbilhão’, como o primeiro prosador da literatura brasileira, por morte de Machado de Assis”.

Brito Broca – “A hostilidade que Coelho Neto vem encontrando nas gerações novas, de 1922 para cá, resulta, em grande parte, do fato de elas desconhecerem a obra ou conhecerem-na de maneira bastante falha e superficial. A produção demasiado vultosa desse escritor, num ambiente como o nosso, em que se lê tão pouco, não tem permitido, geralmente, aos mais curiosos, percorrer-lhe senão um pequeno número de livros, e sendo essas obras irregulares, havendo nela do bom, do muito bom, do medíocre e do ruim, acontece, muitas vezes, o conhecimento incidir na parcela mais fraca, de onde os juízos levianos e falhos, embora quase sempre dogmáticos. Muitas opiniões sobre Coelho Neto poderiam resumir-se na já famosa boutade de Oswald de Andrade: Não li e não gostei”.

Lucia Miguel Pereira é cáustica em sua avaliação: “talvez se possa sintetizar a personalidade literária de Coelho Neto dizendo que, a despeito da sua inegável vocação intelectual, foi vítima de um terrível engano: tomou o meio pelo fim, confundiu expressão e ideia, instrumento e concepção. Deixou-se dominar pela palavra, em lugar de dominá-la. Fantasia, imaginação, observação, senso poético – tudo isso existia nele, e tudo isso foi posto apenas ao serviço do poder verbal, tudo isso foi reduzido a mero pretexto para frases. E, inconsciente do mal que a si próprio causava, ele se ufanava de haver disciplinado o vocabulário, quando o vocabulário o asfixiava, afogava-lhe a concepção em termos preciosos, em construções onomatopaicas. O que tinha a dizer pareceu-lhe menos importante do que a maneira pela qual o dizia”.

José Veríssimo teceu sobre Coelho Neto juízos contraditórios, ora notável, eminente, extraordinário ou fora do comum, ora afiançando que a obra de Coelho Neto é “complicação toda literária, sem nenhuma complexidade interior”.

Athayde – “... Gastão Penalva lamentava, há dois dias, em comovido artigo, o esquecimento do nome de Coelho Neto. Duzentos livros não o fazem lembrado dos próprios contemporâneos, pois que há apenas alguns anos que se afastou de nós a grande presença daquele trabalhador das letras...” e... “Contudo, não me surpreende que o esqueçam. Neto encheu muito o seu tempo. Dominou os círculos literários com a sua possante personalidade. Era natural que com o seu desaparecimento sucedesse o mesmo que a tantos outros grandes escritores; envolve-os o silêncio passageiro, à espera de novas e definitivas consagrações”.

De Medeiros e Albuquerque lemos: “Coelho Neto e Alberto de Oliveira provam diariamente a justiça que os fez aclamar príncipes dos prosadores e poetas brasileiros, com o furor que anima tantos literatinhos novos a se atirarem contra eles. Prova indireta, mas decisiva. De fato, se eles não tivessem mérito, seria desnecessário atacá-los. Bastaria que esses adversários usassem a mais simples das táticas: que produzissem melhor do que os dois”.

Aires da Mata Machado se situa num justo meio termo: “cedendo ao império da moda literária ou despercebidamente se entregando à proclividade do temperamento, Coelho Neto abusou algumas vezes do seu direito de arreliar o burguês pé de boi, com o emprego exagerado de saborosos plebeísmos, de peregrinismos expressivos, de palavras inusitadas, até de invencionices extravagantes. Tudo isso, porém, representava exceção. A regra era a palavra exata, na frase adequada à expressão, à situação, ao intuito do escritor”.

Manuel Cavalcanti Proença se inclina ante a nomeada do escritor maranhense: “ataques e defesas, e, ainda mais, feitos com o passionismo a que se referiu Brito Broca, constituem sinal de vitalidade. Mais certo para o crítico será ficar no meio do campo onde se travam os torneios. Se, morto há mais de trinta anos (1934), ainda recebe ataques, é porque sua obra continua viva; e, se, ao mesmo tempo, precisa de defesa, é que essa mesma obra não é toda de aço puro. Parece estar aí a verdade”.

Em reportagem a João do Rio, escreve Coelho Neto: “o público não sabe a capacidade do meu trabalho e a crítica ignora porque trabalho tanto. Não sabem eles que, subordinando o estilo à concepção, a pena desliza quase mecanicamente”.

Coelho Neto não dispunha dos vagares para rever os seus escritos, eles fluíam velozmente ao sabor da caudal de sua criatividade hors concours, o que robustece nossa convicção de que não lhe poderíamos exigir rigor especulativo ou mesmo e sempre densidade imaginativa.

Como membro efetivo da ABL, recepcionou Mário de Alencar, Osório Duque Estrada e Paulo Barreto. Foi presidente da Academia Brasileira e um dos imortais mais ligados à instituição, nas sessões de trabalho, como no palco maior da sociedade, com suas intensas participações em outras entidades culturais e ainda pelo seu acendrado patriotismo, que partilhou com Olavo Bilac.

Conta seu filho Paulo que “na fase inicial de sua carreira literária, Coelho Neto adotou pelo menos nove pseudônimos em artigos para jornais e revistas, contos, histórias brejeiras e até romances”. “Álbum de Caliban” e “O arara” foram publicados com o pseudônimo de Caliban. No Filhote, da “Gazeta de Notícias”, ele usou o de Caliban; no “Paiz”, na “Notícia” e na “Gazeta de Notícias” o de Anselmo Ribas; na “Vida Moderna” o de Charles Rouguet; com N, na “Gazeta de Notícias”, fez uma coluna diária. Além desses, Coelho Neto firmou muitos outros trabalhos com os pseudônimos de Ariel, Demonac, Blanco Canabarro, Victor Leal e Henri Lesongeur.”

A letra de Coelho Neto merece um registro especial, pois revela a sua perfeição como objetivo permanente e uma inclinação vigorosa para o belo. Paulo assim narra:“a letra de Coelho Neto era regular, seguida, esmerada, como se houvesse de ir dali a gravura. Tinha traços grossos e delgados, como os podem exigir os mestres mais meticulosos de caligrafia. Os tt elevavam-se à sua altura certa, cortados por um traço curto, reto, bem horizontal, sempre o mesmo; os ll subiam mais um pouco, mas sem nenhum desmando, nenhuma permissão de se inclinar ou passar da linha. Nenhuma confusão possível entre os mm, os nn, ou uu, que toda a gente mais ou menos baralha e que, na escrita de Ruy Barbosa, por exemplo, só pela formação da palavra ou pelo sentido da frase se podiam distinguir. Coelho Neto desenhava, gravava as letras. Até nisso era artista”.

Todo este senso estético numa vida atribulada e atarefada. Sim, porque o escritor, com família numerosa, não poderia adquirir uma casa para morar. Quando indagado a respeito, certa feita respondeu prontamente: “Não! Habito-a há 20 anos, como inquilino. Casa própria tenho no cemitério, a que foi doada a meu filho. Não sou tão pobre assim: tenho, pelo menos, onde cair morto”.

A história registra um duelo na ABL ocorrido entre Graça Aranha e Coelho Neto: na sessão de 19 de junho de 1924, os dois grandes escritores se desavieram. Descreve Eliezer Bezerra o episódio: Poucos dias antes da (anunciada) conferência de Graça Aranha, Coelho Neto, usando de seu sagrado direito de expressão, manifestou-se, por meio de um órgão da imprensa carioca, contra o risco que o movimento modernista oferecia, abrindo facilidades para manifestações literárias artificiais capazes de comprometer a seriedade da literatura brasileira. A predição do grande escritor tornou-se realidade, em parte.

Houve, então, a reunião de 1924, no plenário da Academia Brasileira de Letras, numa demonstração eloquente de que nosso maior cenáculo das letras nunca teve maiores preconceitos com os movimentos literários contrários ao seu reconhecido tradicionalismo.

Graça Aranha, a certa altura, depois de ofender, seriamente, às tradições da Casa de Machado de Assis, de que fora fundador, apesar de não contar, em seu currículo, em 1879, com um livro publicado sequer, gritou: “Abaixo a Grécia! Morram todos os helenos!”, invocação, esta sim, aparentemente sem nexo, porque a velha Grécia e os seus helenos gloriosos só permaneciam, havia muito, na memória dos que lhe herdamos a civilização superior. Então Coelho Neto, que era de gênio arrebatado e de idade avançada, esquecendo-se, momentaneamente, de certo, que, por trás dos excessos naturais do Modernismo nascente, havia o essencial, isto é, o desejo geral de modernização completa de nossa cultura, revidou: “mas, eu serei o último dos helenos e o fogo das paixões não vai destruir a beleza da cultura, porque a inteligência é eterna!”

Coelho Neto não se cingiu a pugnar pela Abolição e pela República. Vemo-lo porfiar pela educação moral e cívica, a educação física, o escotismo, a defesa das florestas, o serviço militar obrigatório, na esteira de Olavo Bilac, a proteção e assistência à infância, ao teatro brasileiro, o intercâmbio cultural entre o Brasil e Portugal.

É amplo e variegado o espectro de sua participação na vida nacional. Jamais se refugiou em uma torre de marfim, perfilado ao abstracionismo. Em sua época era ouvido por muitos que recebiam suas palavras como uma forte sinalização para os valores do humanismo cristão. Coelho Neto confessa: “homem de fé, o livro de minh´alma aqui o tenho: é a Bíblia. Não o encerro na biblioteca entre os de estudo, conservo-o sempre à minha cabeceira, à mão”.
 
É dele que tiro a água para a minha sede de verdades; é dele que tiro o pão para a minha fome de consolo; é dele que tiro a luz nas trevas das minhas dúvidas; é dele que tiro o bálsamo para as dores das minhas agonias”. Sua adesão ao espiritismo é objeto de um singelo documento em que fica patente um certo distanciamento da consistência filosófica que seria de esperar-se de quem sorveu o néctar da árvore do helenismo.

Talvez se possa concluir que o espírito de Coelho Neto o circunscreve aqui e ali a uma relativa curiosidade difusa, de preferência ao genuíno esforço de aprofundamento temático. Na Summa Theologica, Tomás de Aquino discerne os dois conceitos de curiositas e studiositas, apontando a superficialidade do primeiro e resguardando a densidade do segundo. Em Coelho Neto se desprende à primeira vista uma curiosidade e uma sensibilidade que muitos confundem com riqueza de imaginação que ele próprio se atribui. Sua inteligência se distrai com as cenas do cotidiano e não com os desafios existenciais que transbordam do cálice das vivencias humanas. É preciso observar que, à época de Coelho Neto, a especulação filosófica não vicejava entre nós como em terra nativa. O domínio do darwinismo, do positivismo exercia fascínio nas gerações mais voltadas para a especulação. É bem de ver que não se tratava de um evolucionismo sólido, senão que de formas meramente embrionárias de um pretenso sistema completo. O positivismo parecia mais respeitado pelos seus arautos, cujas vidas ofereciam à sociedade o espetáculo da seriedade de palavras e atos, bem mais do que da densidade do pensamento. Tal predomínio do efêmero sobre o duradouro explica magna parte a postura literária de Coelho Neto, que não tinha a socorrê-lo um sistema de ideias bem estruturado ou o recurso surpreendente e oportuno de intuições, que Nicolai Hartmann chama de intelecções.

A ausência de um compromisso com sistemas e correntes de pensamento poderia induzir-nos a concluir que Coelho Neto cedeu aos rogos de um ecletismo esterilizante. Isto em face dos acentos românticos mesclados por tinturas realistas que não encobriram traços do barroco. Talvez mais adequado se compreenderia o soi-disant ecletismo do prolífico escritor como uma maneira de não optar filosoficamente por uma determinada corrente de pensamento, quem sabe mesclando os afluentes de uma causal indefinida?

O ecletismo em nossa cultura promana, de preferência, do vezo de assentir e pugnar por teses na sua individualidade, sem atentar devidamente para a sua adequação a um sistema de ideias metodologicamente estruturado numa inequívoca travação lógica. Razão assiste a Sérgio Buarque de Holanda quando sustenta que, entre nós, a maioria dos homens de grande talento incorre em contradições de que não têm consciência. Não há que se estranhar a sinuosidade da obra de Coelho Neto no relativo à falta de nitescência na opção propriamente literária e à dispersão no campo das ideias.

É imperioso sublinhar que não advogamos uma subordinação da literatura à filosofia ou à teologia. Apenas referimos a presença, muitas imperceptível, de um embasamento especulativo do cultor das letras poder indiretamente interferir em sua criação. Isto porque nos pomos de acordo com Kant que, e sua Critica do Juízo, cuida de evitar os escolhos de uma dependência indesejável da arte a uma finalidade que lhe restrinja o campo de atuação. É o sentir também de Goethe, para quem a propósito da beleza “não podem lábios humanos dizer nada mais sublime do que: existe”.

Coelho Neto poderia ratificar o pensamento de Marcel Proust: “a verdadeira vida, a vida por fim esclarecida e descoberta, a única vida, portanto, plenamente vivida, é a literatura”.

Em suma, tudo sinaliza para um escritor fiel à sua vocação como poucos que, no entanto, mais se assemelha ao beija-flor que colhe em cada flor o que lhe apetece e logo busca outras sem se fixar em nenhuma. Este perpassar em ritmo de leitura dinâmica do real fugidio bem se ajusta como símbolo de um escritor por alguns considerado o maior dentre os nossos artistas da palavra.

À época, os leitores corno que exigiam profissionais da pena capazes de rebuscar os recantos semi-ignotos da nossa língua rica e fecunda, sem nem mesmo perseguir temáticas mais densas e profundas. Pascal já nos advertia a respeito do abismo entre o divertissement e o resguardo necessário à criação cultural. Ate porque, no dizer de Saint Exupéry, o silêncio é o espaço do espírito.

Frequentar os escritos de Coelho Neto é volver a um passado, seja no plano da criação literária, como na expressividade esplendorosa que dimanava de sua pena privilegiada.

É conhecida a ligação de Coelho Neto com o mundo dos desportos, tornando-se patrono dos jogos atléticos entre nós. Estimulou por todas as formas diversas modalidades desportivas. Nos esportes aquáticos frequentava o Guanabara e nos terrestres o seu querido Fluminense.

Coelho Neto adotou o Rio de Janeiro como a cidade de sua vida. Tanto que a ele se deve alcunha de cidade maravilhosa à nossa antiga capital federal. Em 1908, nas páginas do jornal A Notícia Coelho Neto criou o sinônimo e avançou ainda mais em seu entusiasmo, publicando em 1928 sua centésima obra com o título de Cidade Maravilhosa. O que serviu de inspiração ao músico André Filho que, em 1934, lançou para o carnaval a música que se transformaria no hino da cidade maravilhosa. Não poderia deixar de caber ao Príncipe dos Prosadores Brasileiros a feliz ideia que associou para sempre o Rio de Janeiro à expressão com ele foi definido pelo escritor maranhense-carioca.

A paixão da família de Coelho Neto pelo Fluminense é notória. Seu filho, Paulo Coelho Neto, é um autorizado historiador do clube das Laranjeiras e de seu pai, ao qual dedicou numerosos livros. Além de Paulo, Emanuel, João, Violeta e outros mais se inseriam na galeria dos atletas do clube, então elitista.

Coelho Neto rompeu o preconceito de que ser torcedor é tarefa de desocupados. O torcedor Coelho Neto surgiu, de forma ostensiva, em 2 de setembro de 1912, quando de seu ingresso no quadro social do Fluminense, proposto por um dos antecessores dos cronistas desportivos, Honório Netto Machado. Quatro anos mais tarde, em 22 de outubro de 1916, houve um Fla x Flu, empatado em 2 x 2, quando o juiz marcou um pênalti contra o Fluminense. O jogador do Flamengo desperdiçou a penalidade, mas a seguir o juiz marcou um segundo pênalti, defendido por Marcos Carneiro de Mendonça, mas o referee mandou repetir o lance, alegando “falta de um jogador do Flamengo”. Com isso não se conformou Coelho Neto que, em companhia do delegado de polícia Corrêa Dutra, pulou a grade da arquibancada social com bengala em riste. A atitude surpreendente gerou apoio da torcida tricolor e o jogo foi anulado posteriormente. Em campo neutro, no caso o do Botafogo, o Fluminense venceu por 3 X 1.

Coelho Neto, com muitos filhos jogando em diversos níveis o velho esporte bretão, os acompanhava em todos os jogos. Assim, os domingos eram inteiramente dedicados aos diversos esportes praticados por seus filhos. De tal maneira que o prolífico escritor passou a emitir opiniões técnicas com grande ênfase, até que seu filho Paulo certa feita não resistiu ao comentário ferino: “Ora, papai! Você pensa que jogar football é tão fácil como escrever livros?”.  Coelho Neto foi autor do primeiro hino do Fluminense, quando da inauguração da terceira sede do clube. É que o escritor consagrado visualizava na prática desportiva uma forma eficaz de enfrentar os desafios da vida. Em crônica célebre, Coelho Neto contesta tese de um prócer francês e outro espanhol em que ambos condenavam a participação da mulher nos esportes. Recorrendo à sua reconhecida cultura clássica, Coelho Neto sustenta a inconsistência dos desportistas estrangeiros.

Em 1928, Coelho Neto foi eleito Príncipe dos Prosadores Brasileiros (concurso pelo Malho).

Coelho Neto escreveu a peça Bonança, encenada na  inauguração do Teatro Municipal, em 1909.

Coelho Neto escreveu 131 volumes; mas se fosse possível reunir todas as crônicas que publicou em cerca de 70 jornais e revistas do país e do estrangeiro – aproximadamente 8.000 – o total chegaria a 300 volumes. Suas improvisações, mais ou menos 3.000, segundo seus próprios cálculos, dariam matéria para outros 100 livros. Ele deixou cerca de 130 volumes, quando poderia ter acumulado mais de quatrocentos!

A ninguém ocorreria esperar de um escritor de largo espectro como Coelho Neto a excelência em todos os seus numerosíssimos escritos. Há que pinçar algumas obras que mereceriam, como mereceram, os encômios que se seguiram à sua edição. O próprio Agripino Grieco, não afeito a elogios, menciona nove livros como notáveis, a saber: Sertão, Treva, A conquista, Jardim das oliveiras, a Bico de pena, Rei Negro, Inverno em flor, Miragem, O morto. Alceu indica Esfinge como obra de peso e Hermann Lima o mesmo reconhece em Tormenta e Água juventa.

Aos vinte e nove anos, Coelho Neto publica o seu primeiro romance, A Capital Federal, para Brito Broca uma crônica romanceada. O personagem principal, o jovem Anselmo, vive as agruras da mudança brusca do hinterland para a urbs. Na obra se percebe a riqueza de minúcias, o pitoresco inserido no mosaico de descrições, transformando a narrativa num documentário rico da vida carioca.

Manoel Moreyra sustenta sem rebuços que as seguintes três obras figuram entre as obras primas de Coelho Neto: Inverno em flor, Miragem e Rei negro. Inverno em flor desenrola pungente drama de uma velhice pecaminosa servida por um elã especial. A loucura e a erótica dominam o romance que talvez antecipe os albores do freudismo, ideia compartilhada por Péricles Morais. Miragem, que revela um certo parentesco com José de Alencar no sentir de Bosi, retrata a miséria. Dada a semelhança com Alencar o uso dos adjetivos e advérbios reafirma o recurso às descrições que irão perdurar até “o advento da revolução modernista”.

Luiz Murat não se conforma. Dirigindo-se a Coelho Neto, aconselha-o: “você tem talento, mas abusa do adjetivo, e tem mania do Oriente. Você é exuberante e excessivo”, para finalizar: “o ideal do artista é a simplicidade”.
O conselho caiu no vazio.

A conquista cinzela o perfil do ser humano, sinalizando para o fim da escravidão. Em Jardim das Oliveiras, conto dialogado, modalidade nem sempre presença nos fastos literários, desenha vultos a viver seus momentos pungentes. Turbilhão é um romance realista, demarcando o sofrimento de uma pessoa pobre, cuja filha havia desaparecido. Um drama conjugal é o tema de A Tormenta. O conto de Coelho Neto mereceu premiação em Banzo, Terra, Sertão, Água de Juventa.

A poesia não figura como marca frisante de Coelho Neto. Faltava-lhe a dimensão metafísica da poesia, bem distante de Hörderlin e da justa asserção de Régis Jolivet, para quem “a poesia é o mistério do homem que dá uma voz e um sentido ao universo”.

Coelho Neto foi, essencialmente, o mestre da palavra. Palavra – Não se trata de sonus, mas de vox, pois segundo Aristóteles, nenhum ente sem alma tem voz. E Förster nos adverte que a “alma da cultura é a cultura da alma”.

A palavra como verbum expressa a riqueza maior do espírito. Verbum inclui verbum mentis ou verbum cordis. Consubstancia a variedade e fecundidade da palavra que flui das profundas camadas da alma. Mas também exprime o cotidiano que desdobra o dinamismo dos seres. De qualquer forma, locutio est proprium opus rationis, no dizer do Aquinate.

Convém recordar que a palavra que emerge da reflexão profunda, está conectada com o silêncio que a precede, pois o silêncio é  condição de possibilidade da vigência da palavra que renasce quando a circunstancidade o permitir.

Como mestre inconteste da palavra, Coelho Neto pode exibir o seu vocabulário além de vinte mil palavras. Martins Fontes escreveu: “num sarau em casa de Neto conversávamos com Euclides da Cunha sobre verbos luminosos e ardentes da nossa língua. E Coelho Neto, com o conhecimento inexaurível do nosso vocabulário, começou a amontoar pilhas de verbos. Tomei de um bloco de papel e acumulei no momento duzentas e dezoito moedas”. Segue-se o elenco dos verbos anotados naquela noite: “abrilhantar, aureolar, acender, aclarar, arcoirisar, adurir, assoleimar, afogar, afuzilar, acalorar, alumbrar, abrasar, aloirar, alumiar, aluziar, alvorear, aluzir, alvorar, alvorescer, aurorar, aurorescer, aurorear, amanhecer, ambrear, arder, arser, assolear, aurifulgir, acobrear, arraiar, alvorejar, aluminar, abrasear, abrasificar, aquecer, argentear, argentar, argentizar, arrosear, albirrosar, albirrosear, brasilhar, brilhar, bilhantar, bruxolear, aurigemantizar, auriflamar, auriflamantizar, aurisplender, auritremular, clarear, chamear, comburir, combustar, alraboiar, causticar, cambiar, canjar, chamejar, cobaltizar, cobrear, candentear, coruscar, coriscar, diamantizar, diamantar, dardejar, doirar ou dourar, dourejar, esfoguear, esfuzilar, ensolarar, enlunar, escandear, esbrasear, escandescer, estrelar, estrelejar, estrelecer, esmechar, esmeraldear, esplendecer, esplandecer, esplander, esplender, esfuziar, entreluzir, enfervorizar, enrubescer, enloirecer, escamechar, encadear, encandecer, fagulhar, faiscar, flamear, fopar, fulvecer, favilar, ferver, flamejar, foguear, fulgir, fulminar, fuzilar, faulhar, fulgentear, fulgurear, fulgurar, flamiferver, fulgencear, fulgurear, fulgurescer, fulvejar, estreluzir, ignizar, iluminar, incandescer, encender, incendiar, insolarar, inflamar, iriar, irisar, irradiar, labaredar, labaredear , loirejar, luarizar, loirar, lucilar, luciolar, luciluzir, luaçar, lustrar, luzir, lampejar, lampadejar, lucecilar, multicolorir, nimbar, ourar, oirejar, opalescer, opalizar, prefulgurar, prefulgir, prerfulgir, fosforear, fosforecer, pirilampear, prilampejar, fosforar, fosforejar, platinar, plumbear, preluzir, purpurejar, purpurar, purpurizar, purpurar, queimar, roxear, refaiscar, relustrar, rosiflorir, radiescer, rudiclarear, ruborear, ruborizar, reluzir, relampejar, relampadejar, relampaguear, relampear, raiar, radiar, rutilar, reacender, rosialbar, rosear, rosicolorar, rosicolorir, rosifulgir, rebrilhar, refulgir, resplandecer, resplendescer, resplander, reverberar, revermelhar, rubejar, rubescer, relumbrar, rescintilar, rescentelhar, refagulhar, centelhar, sobredoirar, cintilar, siderar, translucidar, transluzir, transparecer, transfulgurescer, tremeluzir, transverberar, translumbrar, vislumbrar, vermelhar, vermelhejar, vermelhear, versicolorir”. E acrescentou o mesmo escritor: “E não estão todos. Faltam muitos ainda, espelhantes das cores e das gradações cromáticas.”

Coelho Neto escreveu: “pouco a pouco fui desbastando do meu estilo os guizos de muitos adjetivos para substituí-los por um só, exato” Comentando a afirmação, observa Otávio de Faria, “O termo exato... Eis, sem a menor dúvida, o eixo básico da evolução de Coelho Neto como escritor. Consciente da insuficiência da palavra escrita, tentou animá-la, colori-la, vivificá-la, dar-lhe a inflexão sem a qual jamais poderia exprimir adequada, exata, perfeitamente, o que ia à sua mente prodigiosamente rica e variada. Para tudo e em todas as ocasiões, buscou a palavra exata e diante dela não recuou, usando termos raros, absolutamente inusitados, terrivelmente difíceis. Que importava? Não estava sendo fiel, integralmente fiel ao princípio de um de seus grandes mestres, Maupassant que ensinava:” Seja o que for que se pretenda exprimir, não há senão uma palavra para o dizer, um verbo para o animar, e um adjetivo para o qualificar “.
 
O homem suplanta os sinais para pervadir o espaço dos signos. Ele é autenticamente um animal symbolicum. Consoante o assente Ernst Cassirer. “Sem o simbolismo a vida do homem assemelhar-se-ia à dos prisioneiros da caverna na famosa imagem de Platão. A vida do homem confinar-se-ia aos limites das suas necessidades biológicas e dos seus interesses práticos; não poderia encontrar qualquer acesso ao ‘mundo ideal’ que lhe é aberto de diferentes lados pela religião, a arte, a filosofia, a ciência”.

Ao vir ao mundo, o homem como que pede a palavra, a fim de dizer ao que veio, ao explicitar os seus pensamentos, desejos, volições. A expansão da personalidade se prende à ampliação do espaço concedido à palavra.

O homem persegue o sentido. O desespero lhe vem da aparente inutilidade da busca. Até mesmo Nietzsche asseverou que “eu não desespero de encontrar um dia um caminho que conduz a algum lugar”. É o pressentimento do Encontro que se dará quando o ouvido humano ficar atento à Palavra. Pois é de palavra que se trata sempre que perseguimos a finalidade última de nosso destino.

No limiar da palavra, o ser humano se percebe acima de quanto o circunda. Conscientiza a sua condição de rei da criação, de timoneiro da nave que cifra o seu caminhar, no meio das borrascas que emergirem em seu itinerário. E só pela palavra ele se afirmará, a partir do nome que portar e da mensagem que ousar transmitir ou receber, nesse lusco-fusco que encobre aqui e ali a luminosidade prestes a se manifestar.

Nascido da Palavra, o homem, pela palavra, reencontra a Palavra que selará o seu caminho como luz e amor.

Coelho Neto fez da palavra a sua religião literária, dela e para ela viveu e se transformou no monumento de nossa cultura pela fidelidade e tenacidade com que, partindo das palavras em demasia, buscou na maturidade reduzir os vocábulos em busca da palavra exata. Por este motivo conquistou o seu lugar em nossas letras. A disparidade de juízos de valor sobre o mestre maranhense talvez se prenda à diversidade dos momentos e fases de sua longa vida, estuante de amor pela língua, pela pátria e especialmente pela expressividade artística in genere em que pôs todas as suas complacências.

Coelho Neto mergulhou na riqueza ignota de nosso idioma privilegiado e nele fincou as raízes de seu opus. Daí a pletora de vocábulos que deixaram a zona sombria em que os esquecemos e trouxe para a luz solar que se espraiou aos seus leitores.

Otávio de Faria, seu ardoroso defensor, tem Coelho Neto como um autor difícil, e assente: “Coelho Neto não é um autor fácil. E não o é, sobretudo, para a nossa comum e moderna ignorância da língua portuguesa. Dono de um prodigioso vocabulário – calculado em mais de vinte mil palavras – sabendo manejá-lo e manejando-o com plena convicção do acerto com que o fazia, não podia deixar de se tornar difícil de entender, às vezes mesmo misterioso para a ignorância de muitos. Um empolado? Um gongórico? Um cego apologista do culto do estilo pelo estilo? Um escravo da forma? Todas essas acusações foram formuladas, exploradas. Fizeram delas mesmo o cavalo de batalha de mil condenações, às vezes levianas, às vezes ridículas. E foi preciso que o tempo e o bom senso dos críticos as dissipassem estrepitosamente para que a verdade enfim se restabelecesse a respeito do estilo de Coelho Neto”.

Pode-se falar numa espécie de ascese literária, uma limpeza de texto tese chocante se levarmos em conta a presença maciça de palavras fora de uso comum, mas patrimônio inesquecível de um idioma com toda uma coorte de cultores que espargem pelos quatro cantos do mundo a bela língua que herdamos e em torno das quais respiramos valores, costumes, com a qual fortalecemos as nossas instituições. Um escritor que pôs em marcha em numerosíssimos escritos o reconhecimento explicito e cotidiano da fecundidade da língua portuguesa, só por isto merece o respeito e a admiração dos brasileiros. Ele realizou tal obra ancorando em todos os gêneros literários e abrindo as portas de sua oratória belíssima para mais diretamente dizer ao que veio.

Coelho Neto sempre vincou sua presença como homo politicus, no sentido helênico da expressão. Preocupava-se com o País e explicitava o sentimento pátrio em discursos fulgurantes cinzelados com um ardor poucas vezes encontradiço. Mormente porque não o conduzia a ambição política. É bem de ver que havia um certo provincianismo em suas falas. Hoje, quando o sentimento de amor a terra há de forçosamente conjugar-se com a consciência da aldeia global, impossível seria qualquer opção radical; ainda por ai se pode lobrigar o distanciamento em que nos encontramos do ilustre e saudoso Acadêmico, dada a extraordinária mudança no ritmo da história com a quase supressão do espaço e do tempo nas relações humanas.

De um escritor que produziu grande número de obras, publicou milhares de artigos, proferiu conferências e discursos também aos milhares não se poderia idoneamente exigir qualidade permanentemente superior. O descompasso fluiu até da necessidade premente de sobreviver da pena, o que situa Coelho Neto como um modelo de profissional da pena. 

CONCLUSÃO
Impende analisar a obra de Coelho Neto à luz de sua época, de sua condição inelutável de ser situado. Por vezes, cuidamos que tal cautela não comparece ao palco iluminado da crítica. Assim, que sentido teria chegarmos às culminâncias, por exemplo, do evangelho literário de Italo Calvino para com seus passos acelerados em direção do novo milênio e procedermos ao pente fino de seu ideário estético e ético no julgamento dos literatos?  Coelho Neto não teria ultrapassado a barreira da primeira configuração ditada pelo talentoso crítico quando se estende sobre a leveza. Até porque para Calvino, “a literatura (e talvez somente a literatura) pode criar os anticorpos que coíbam a expansão da peste da linguagem”.

Deixando de lado o horizonte fantástico de Calvino e volvendo à planície de nossa literatura brasileira de fins do século XIX e no primeiro terço do século XX, cumpre-nos reconhecer a figura esfuziante de Coelho Neto. Pleno de domínio de nossa língua, elevando-a a patamares insuspeitados para lhe reconhecer os méritos e resguardar-lhe a memória, foi escritor primoroso e fiel ao seu ofício como poucos o souberam ser.

A morte, companheira inseparável de todos os seres vivos, segregou em capítulos a sua vinda misteriosa e fatal. Saúde precária, em face do labor febril e da necessidade de prover a numerosa família, Coelho Neto viu-se forçado, certa feita, até a vender tudo o que possuía de algum valor para enfrentar período de enfermidade pertinaz. Chegou a abandonar a sua cidade maravilhosa demandando a cidade de Campinas em que nasceu Carlos Gomes até que dois golpes profundos lhe vincaram a alma, a perda de seu filho Mano (Emanuel) e de sua esposa Gabi (Gabriela). A fragilidade natural se viu agravada por maneira a indicar o seu fim próximo, ocorrido em 28 de novembro de 1934.

Sorveu a vida com ardor e devoção. Não se ateve a doestos e críticas acerbas. Iluminou-lhe o caminho a palavra forte pela qual pautou os seus atos: perge, isto é, segue adiante, não te voltes para trás.

A ansiada participação cultural, política, desportiva desabrochou em Coelho Neto o grande orator. Amante da cultura grega, por vezes ele nos relembra a eloquência ática. No concernente ao apuro da forma, é uma espécie de Isócrates redivivo, para quem o conteúdo é menos relevante do que a beleza estética do discurso. É oportuno recordar que a retórica demorou a se impor entre os gregos. Aristóteles assinala que isto se deveu à abolição da tirania.

Os eventos cívicos se prestaram especialmente para que Coelho Neto externasse os seus invulgares dotes oratórios. Ao lado de Joaquim Nabuco, de Teixeira Mendes, de Tobias Barreto, de Rui Barbosa, Coelho Neto figura entre os grandes de nossa eloquência. Seu desmedido arco vocabular, seu empenho de ordenar ritmicamente as frases, ensejando uma musicalidade que a sua dicção favorecia, garantiram ao polígrafo sua inclusão dentre os mais prodigiosos oradores de nossa história. Escritor, ser participativo, artista da palavra, orador, eis em síntese o perfil de quem para muitos foi o nosso maior escritor. Membro e depois presidente desta Academia, Coelho Neto foi plenamente fiel à sua pena rica e fecunda e alargou os horizontes de nossa língua, revelando-lhe a beleza e a plasticidade e assim alçou seu voo seguro para a imortalidade.

*Conferência proferida pelo acadêmico Tarcísio Padilha, na Academia Brasileira de Letras em 25 de abril de 2006, no ciclo sobre Fundadores da ABL. Resposta: “Não. Não houve ocasião. Acho que teria dado certo”.
 
A adolescência iria mudar este quadro de isolamento infantil, incorporando numerosos amigos que haveria de conservar ao largo de sua vida de quase setenta e dois anos. Os autores mais afeitos ao gosto infantil e juvenil cederão lugar, dentre outros, a Byron, Shakespeare, Victor Hugo, Dostoievski.
 
Concluiu seus estudos primários e secundários no Colégio Santo Antonio Maria Zaccaria, dos padres barnabitas, de 1922 a 1926, e sua formação superior se deu na Faculdade Nacional de Direito, de 1927 a 1931 - ano em que se firmou como escritor, mercê da publicação de Maquiavel e o Brasil.
 
Sua personalidade introspectiva jamais o impediu de se firmar como líder intelectual que foi, já durante o curso de direito, quando adentrou o Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (o famoso Caju), com a apresentação de uma tese sobre Desordem no Mundo Moderno. Nele figuraram intelectuais de valor inquestionável como San Tiago Dantas, Antonio Galloti, Chermont de Miranda, Américo Lacombe, Helio Vianna, Thiers Martins Moreira, Álvaro Penafiel (meu padrinho), Vinicius de Morais, Plínio Doyle, Mario Vieira de Melo, Clovis Paula da Rocha, Almir de Andrade e muitos outros escritores.
 
Havendo se imposto a intelectuais de elevado corte no início de sua fecunda vida literária, Octavio porejava uma seriedade madura e, por esta razão, se manteve distante de polêmicas, preservando a sua vida interior a alimentar os seus escritos. Sua liderança não era apenas política, mas também artística, no sentir de Francisco de Assis Barbosa.
 
Seu cunhado Afrânio Peixoto foi um mestre para o jovem escritor. Cinema e literatura se imiscuíram em sua biografia mercê de forte influxo de Afrânio. A Alceu Amoroso Lima Octavio deve, entre outros ganhos, a revelação de Leon Bloy.
 
Octavio assente que “depois de Nietzsche, foi o encontro mais importante de minha vida. Pode parecer estranho eu gostar de dois autores tão opostos, tão irredutíveis, diferentes”.
 
Leon Bloy, o trágico romancista gaulês, viveu a aventura solitária e também solidária com sua mulher e filhos. Octavio de Faria deixou-se imantar por seus escritos, parecendo redigidos com uma pena embebida em sangue. Afonso Arinos de Melo Franco obtempera que Octavio, em seus romances, havia rompido com a inocência, mas não com a pureza. Daí o porquê da menção privilegiada em sua obra à palavra fulgurante de fé, de entrega e de sofrimento existencial. Bloy escancara a alma, deixa-a inundar de lucidez, ao declarar enfaticamente: “só há uma tristeza: não sermos santos”. Nada mais apropriado e ajustado ao perfil espiritual de Octavio e de muitas de suas personagens. A perfeição nos acena de longe, nós nos encaminhamos para o grande encontro. Ela não nos acolhe em seu regaço. Octavio sabe que ela é inatingível, que o embate entre as potências praeter ou sobrenaturais propendem para dominar nosso espírito, a nossa carne, nossos instintos, nossas paixões. A perfectibilidade irrompe como limite natural, delineando as fronteiras de uma santidade frustrada. O romancista nos propõe, segundo Alceu, solução dramática, espiritual e sobrenatural aos desafios existenciais que ele mesmo cria e ocupam todos os espaços de nossa intimidade.
 
No dia 17 de outubro de 1980, Octavio de Faria participava de um almoço de atribuição do prêmio literário Fernando Chinaglia, no clube Ginástico Português, quando sobreveio um derrame cerebral fatal. Octavio partiu para a eternidade legando-nos uma obra portentosa. 

Qual o perfil existencial de Octavio?
Eis como ele mesmo se define: “sinto-me cristão, católico, católico mesmo, até as entranhas e no sangue que me corre nas veias”. E mais: “sou um católico que é ou pretende ser romancista”.
 
Coisa totalmente diferente, me parece. Um autêntico romance não deve ser “católico”, isto é, visar a fazer moral católica – que é matéria dos manuais de apologética. Acontece, porém, que se o romancista, pessoalmente, for católico, e se escrever com total sinceridade, fatalmente seu romance terá de ser classificado como “católico”. Testemunhando sua verdade íntima, sendo absolutamente sincero na forma como mostra o mundo – o universo que Deus criou – e, sobretudo, como funciona, como se afasta e como se aproxima de Deus, de suas leis, o romancista estará certo, mas não poderá deixar de ser classificado como “romancista católico”.
 
Dedicou-se plenamente à sua vocação de escrever, como Marcel Proust e, no Brasil, Antonio Carlos Vilaça. O múnus de escritor sufocou, com plena consciência dessa opção, quaisquer outras possibilidades de seu viver.

Comenta-se o estilo octaviano apontando-lhe um certo desleixo. Octavio não se defende. Apenas acentua o empenho de seu viver-escrevendo: “trabalho muito, mas trabalho quando quero e sem nenhum horário rígido, prefixado”. E adiante, assente: “uma literatura com alma pode dar-se ao luxo de descuidar-se em alguma medida da perfeição do estilo”.
 
Mario de Andrade, após ler Mundos mortos, o primeiro volume da Tragédia burguesa, editado em 1937, escreveu a Octavio: “seu livro é muito bem escrito, numa linguagem natural que a gente nem percebe que é boa, tanto faz ela em não aparecer”.
 
Antonio Carlos Vilaça no mesmo sentido sustenta que “há alguma coisa de definitivo num texto, mesmo imperfeito, mesmo inacabado”, para acrescentar “a arte literária requer uma espécie de liberdade interior”.
 
Os reparos ao estilo de Octavio são recorrentes. Uma ou outra exceção confirma o veredicto. É bem de ver que a espontaneidade no ato de escrever é conatural à obra de Octavio. Ceder aos rogos de um purismo neste caso talvez equivalesse a lhe malbaratar a criatividade. Só o impulso de transferir para o papel as emoções, os sofrimentos pungentes, os dramas de consciência no preciso momento de seu nascimento poderia ditar regras ao autor.
 
Foi copiosa e farta a colaboração de Octavio de Faria em revistas e periódicos. A Ordem, do Centro Dom Vital, fundada em 1921 por Jackson de Figueiredo, passará a receber a colaboração de Octavio a partir de 1927. A Literatura, dirigida por Augusto Frederico Schmidt abriu as portas ao romancista carioca com sua crítica literária e de cinema. Letras e Artes, Leitura, Revista Acadêmica, Boletim Ariel, Pelo Brasil, Hierarquia, Revista de Estudos Sociais e Panorama acolheram escritos do romancista que madrugara para as letras.
 
Suas primeiras obras respiram temáticas de cunho marcadamente político: Maquiavel e o Brasil (1931) e Cristo e César (1937). O livro Destino do socialismo (1933) recolheu as surpresas da era das ideologias e processou as confidências políticas de Octávio. É bem de ver que o autor partiu de convicções socialistas para, logo após, com elas romper e, numa época de opções radicais, ancorar no porto do outro lado de sua visão inicial.
 
A ideologia pende para a adoção de certezas, por constituir vezes sem conta um sistema apriorístico e até acrítico de ideias de deficiente organicidade. Havendo se desligado do socialismo, passou Octavio a lhe ver os escolhos e as deficiências estruturais. Criticou igualmente o liberalismo, ai restringindo seu espaço de escolha política.
 
Na década de trinta, Alceu, com sua persuasão consistente, desviou o jovem escritor da militância convidativa e o romancista enveredou definitivamente para a sua genuína vocação de romancista – uma vitória da literatura. O ciclo político manifestado nos bancos universitários, e que prosseguiu com a publicação dos três livros citados, haveria de ceder decisivamente com a publicação do primeiro dos quinze romances que compõem a obra imortal de Octavio, Tragédia burguesa. O envolvimento com temas políticos nunca o levou à militância. Foi talvez um passo ideológico, numa curva da história em que as escolhas eram radicais de um lado e de outro dos extremos em conflito, nesta espécie de hemiplegia na expressão de Raymond Aron. Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, Octavio de Faria explicita a sua verdadeira prioridade, aquilo que constitui o solo preferencial de seu caminhar existencial: a defesa do Espírito.
 
Neste primeiro período de sua fecunda vida intelectual, Octavio se empolgou com a nova arte: o cinema. Em Fan, órgão oficial do Chaplin Clube, que havia fundado, publica dois ensaios, O cenário e o futuro do Cinema e Significação do Far-West, respectivamente em 1928 e 1930 e, em 1964, publicou Pequena história do cinema. Imaginou os passos do progresso humano e se fixou nas surpresas que adviriam da sétima arte. Seguiu a palavra de Bergson: “o mecanismo de nosso conhecimento é de natureza cinematográfica”. Daí seu fascínio por Chaplin que costumava afirmar que “dar voz ao cinema é o mesmo que colocar palavras numa sinfonia de Beethoven”, para acrescer “estão arruinando a grande beleza do silêncio”.
 
Octavio não via diferença entre escritores e diretores de filmes, ambos contribuindo igualmente para a cultura. Além de ser a arte do século XX, o cinema é testemunho da liberdade humana.
 
Houve um interregno no caminho de Octavio ao se lançar à desafiante tarefa de dramaturgo, quando publicou Três Tragédias à sombra da sruz (1939).
 
De minha parte, julgo quase impossível para um cristão cavar fundo, com sua pena, o mistério da cruz, tal o envolvimento ontológico do escritor com a dimensão do desafio. Octavio enfrentou o óbice visceral e produziu três tragédias à sombra da cruz.
 
Das três, Judas é a mais comovente. Nela, o dramaturgo recolhe as fortes emoções que povoaram a alma de Judas. Seus pais são as personagens principais. Simão de Iscariotes, pai de Judas, sem atentar para a transcendência da traição, antessala do magno acontecimento da história dos homens, diz ao filho “amanhã não te lembrarás de nada”; “tudo se esquece, filho... Tudo... Nada fica no coração dos homens por muito tempo”. “Nem o remorso, nem o sofrimento, nada...” Mas Judas processa a sua tormenta: “a face do Mestre, a face beijada por mim, não me sai dos olhos...”; “meu desespero é maior do que qualquer esperança”. Teologicamente está fixado o limite que nem Deus pode transpor. O perdão é pleno para quem se abre ao amplexo do amor divino. A rejeição total da mão estendida para o perdão exclui o homem do espaço da recuperação moral e espiritual e sela o divino respeito pela liberdade conferida aos mortais.
 
Mais uma vez, em seus escritos Octavio confere ao homem o recanto da escolha plenamente assumida e o desdobramento existencial que dela decorre.
 
Octavio tinha verdadeiro fascínio pela poesia. Parafraseando Nietzsche se pergunta: será que “nós temos a poesia para não morrer da realidade?” O romancista e crítico aproxima a poesia do sofrimento, chegando a avançar que “o poeta é um enviado que vem de Deus aos homens para lhes contar o seu sofrimento, a sua caminhada pela terra”.  Assim se confere ao poeta uma missão sagrada.
 
Em seu livro Dois Poetas (1935), Octavio desvela a contribuição de Augusto Frederico Schmidt e de Vinicius de Morais. Os aplausos ao Canto da noite (1934) suplantam os limites da generosidade: “Não me resta a menor dúvida – dos livros de poesia escritos na nossa língua – dos que eu conheço pelo menos, e dos vivos como de mortos – Canto da noite é o maior”.
 
Talvez o entusiasmo promanasse da consciência do romancista de que nele estivesse embutida a vocação de poeta que não emergiu. Afinal, a poesia não se confunde com o versejar. Versos vazios de poesia se acumulam em antologias à espera do ostracismo.
 
Octavio, com seu suporte filosófico, bem sabe que não se podem impunemente segregar poesia e filosofia como se foram universos incompossíveis, medindo apenas a distância entre a metáfora e o conceito.
 
É o momento de abordarmos a grande obra da vida do romancista carioca: a Tragédia burguesa, o cerne de seu legado.
 
Essa monumental obra, em que pôs todo o seu engenho e arte, foi prevista para vinte volumes, depois reduzida a quinze. O plano estava concluído quando da publicação do primeiro volume, Mundos mortos, em 1937. Trata-se do mosaico mais completo da sociedade carioca dos anos vinte e trinta. Ao primeiro romance haveriam de seguir-se Os caminhos da vida (1939), O lodo das ruas (1942), O anjo de pedra (1944), Os renegados (1947), Os loucos (1952), O senhor do mundo (1957), Atração, O retrato da morte (1961), A montanheta, Ângela ou As areias do mundo (1963), A sombra de Deus (1966), O cavaleiro da Virgem (1971), O indigno (1976), O pássaro oculto (1979). Atração e A montanheta somente foram publicados após a morte de Octavio.
 
Este painel literário se alça a um patamar universal pela temática profundamente humana que a impregna e não pelo momento fugaz de uma crise da burguesia carioca das décadas de vinte e trinta. Suas personagens ganham vida na pena ágil de Octavio, por maneira a que os reconheçamos como se foram seres vivos diante de nós, com suas paixões, seus dramas de consciência ou sua inconsciência ética, e até seu intento por vezes angélico de perfeição. Todas as paixões humanas aí são desentranhadas, vividas ante nossos olhos atônitos, que não desgrudam da leitura que abrasa a alma do leitor, que acompanha com frêmito o desenrolar de biografias sempre à beira do precipício, a sinalizar situações-limite tal a dramaticidade de seus impulsos voltados para uma negatividade que parece tantas vezes impor-se a seres humanos desamparados de esperança e mais propensos a sorver o cálice existencial bem amargo que lhes é ofertado. A fé, a paixão, o amor verdadeiro, o adultério, o aborto, a dedicação, o perdão, a graça, o pecado, comparecem com os matizes diferenciais das personagens esculpidas com invulgar mestria a nos revelar a grandeza e miséria do homem.
 
A obra ciclópica mescla com originalidade os grandes temas da interioridade pessoal e os desvãos da vida social, numa rara harmonia de tratamento psicológico com a visão global da sociedade em processo de decadência moral e espiritual.
 
Pela vastidão e profundidade do projeto, Tragédia burguesa pode ser comparada ao painel de grandes romancistas como Balzac, Proust, Faulkner, Dostoievski. Por suas páginas, as personagens Branco, Carlos Eduardo, Padre Luis, Remi, Pedro Borges, Ivo, Ângela, Lisa Maria e dezenas de tantos outros desfilam com suas entranhas cinzeladas com tal vigor que passam a viver conosco ao longo da vida, até porque o projeto nasceu no dealbar da trajetória do autor, já inteiramente concebido. Durante décadas Octavio nos manteve atentos à sua grandiosa obra romanceada, iniciada em 1937 e, concluída em 1977. Quarenta anos de plena dedicação e mesmo devoção ao seu gigantesco projeto o consagrou como um dos maiores romancistas brasileiros. Mesmo quando apenas os dois primeiros volumes da grande obra haviam vindo a lume, já Mário de Andrade, emitiu o juízo altamente encomiástico ao opus magnum de Octavio de Faria: (ele) “já nos deu dois romances de grande valor, obras que pela sua originalidade e força criadora estão entre as principais da nossa ficção. Só nossa?”.
 
Muitos críticos se debruçaram sobre a obra ficcionista de Octavio de Faria. Seu amigo fraterno, Adonias Filho, soube captar a riqueza metafísica do romancista, ao sublinhar “o encontro de Octavio de Faria com a ficção existencialmente inquiridora e contemporânea de Mauriac, Bernanos, Chesterton, Graham Greene”.  E situa a criatura “na condição de sofrimento entregue à própria liberdade para a salvação, herdeira de pecados, solidão e angústia”. Assinala ainda que “o ficcionista se move em torno de um valor ético, de uma consciência moral e de um sentido psicológico que se associa à introspecção. E é a introspecção que, provocando um certo impulso metafísico, conduz o romance em direção ao roteiro de Deus, sua motivação fundamental. O romance... dirige todos os seus movimentos para Deus”.
 
Vilaça aponta três figuras mais expressivas do mundo mural de Octavio: o padre, o adolescente, o demônio. E continua o saudoso escritor, “o demônio não é folclórico, mas teológico, tragicamente verdadeiro sem uma negatividade absoluta, em seu élan de tudo pervadir, até as entranhas da alma humana, neste mister poderoso de aluir as bases da condição humana, retirando-lhe a razão de ser”. 
 
Deus e o demônio terçam as armas e afinam sua acuidade para mais bem inspirarem o humano agir das personagens. É onde se reflete o influxo de Georges Bernanos e Julien Green no desempenho ficcionista de Octavio e por ele, de certo modo reconhecido. Escreveu o autor em A Ordem, órgão do Centro Dom Vital: “A religião de Bernanos procura mostrar Deus e o caminho do paraíso. A de Green, o diabo e o caminho do inferno”.
 
Ao tratar da composição romanesca em Octavio de Faria, Eduardo Portella lhe reconhece o alcance metafísico, sem descuidar do sentido social e da “fruição dramática”. Realça o esforço octaviano para “resistir à derrocada do espírito nas malhas da razão instrumental”, num mundo empobrecido por perdas do paraíso, das ilusões e da linguagem, das ideologias. Em uma simples frase, Portella resume com raro senso de penetração crítica, ao assentir: “o que a ideologia desfez, a arte refez”.
 
Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, Octavio sintetiza o seu escopo fundante: “no pequeno horizonte de minha visão pessoal, outro ideal não tive, em toda a minha já hoje longa vida, senão esse de viver sem trair o espírito, de manter sempre acesa essa fidelidade que aprendi no berço e que meus mestres, os de meninice e os de maturidade, os de vida ensinada como os de vida vivida, sempre me fizeram colocar acima de tudo...”.
 
“Minha geração foi uma geração que lutou, que sofreu, que sangrou, que se consumiu nessa batalha em torno da fidelidade ao espírito. E, se muitos erros cometeu, ao se deixar levar a posições extremadas quase inumanas às vezes, frequentemente fronteiriças dos piores abismos – os que ladeavam a direita e os que ladeavam a esquerda – não duvideis, um só instante, de que somente uma preocupação a norteava: essa obsessão intimorata na defesa do Espírito”.

O mosaico complexo dos dramas que se entrelaçam apontam para um realismo subjetivo, na expressão de Alfredo Bosi, mas que, a meu juízo, não descura o enfoque social que se percebe em torno da introspecção predominante.
 
Há uma riqueza de personagens que habita o universo romanesco de Octavio: Branco (o sofrido ser em busca de uma perfeição impossível), o Padre Luis (o conselheiro de todos, a absorver os dramas dilacerantes dos personagens que nele perseguem o intento de encontrar uma paz já então inatingível), Paulo Borges (o sedutor insensível aos mínimos reclamos éticos), Ângela (a moça solitária prestes a se deixar envolver em tramas diabolicamente arquitetadas), Rení, (a infeliz encarnação do mal, alma catalizadora do Senhor do Mundo), Carlos Eduardo, (um adolescente que desapareceu conservando a sua inteireza), Ivo (flutuando entre os degraus do pecado como forma de alcançar, adiante, a possível perfeição), e dezenas de outros figurantes da tragédia esmiuçados pelo romancista.
 
Branco é nome indicativo de um roteiro existencial. Fala da pureza ansiada, só detectada nas fimbrias dos romances de Octavio. É o adolescente que timbra em viver a retidão moral, um jovem católico impregnado pela busca de perfeição, sabendo embora que os seus pares não haverão de poupá-lo do rodamoinho das paixões, nem ele conseguirá distanciar-se da negatividade que envolve toda uma geração da classe burguesa. Ivo parece empreender a mesma caminhada. Mas o autor nos adverte, num cotejo entre Branco e Ivo: “o que Branco não compreende em relação a Ivo é que Ivo pertence a essa espécie de pessoas que precisam experimentar, um por um, todos os caminhos errados para então, no final, aceitar livremente o caminho certo (conclusão que, naturalmente, só se tira depois que se acaba de ler toda a Tragédia burguesa...). Mas Branco, que pensa um momento nisso, logo no início, não pode compreender esse modo de ser de Ivo. Experimentar todos os caminhos significa, para Branco, perder-se, perder-se inevitavelmente. Pois ele pensa, de acordo com a sua natureza, que, na prática, o número de caminhos do mal é infinito. Uma série de combinações misteriosas faz com que nunca ninguém (assim pensa Branco, sempre de olhos abismados na sua natureza) chegue a considerar esgotados os caminhos do mal. E recomeça sempre. E não se salva nunca. Inútil insistir: basta lembrar que, para Branco, o grande perigo é justamente sair do caminho certo”.
 
Carlos Eduardo foi ceifado em sua inocência e, na visão cristã, a perda implica em redução humana significativa. É a comunhão dos santos, vaso comunicante entre todos os homens neste sobe e desce da contradição que permeia a terra dos homens.
 
Padre Luis está numerosas vezes no olho dos furacões que ocorrem à sua volta neste autoaniquilamento da burguesia, sim, mas, sobretudo, de almas jovens que jamais encontram a paz, fruto de uma ordem interior buscada, porém nunca alcançada. Parece haver uma dicotomia, ou melhor, um maniqueísmo vindo de Pascal e que vincou o tecido existencial de Octavio, transplantado para as folhas em branco. Antonio Carlos Vilaça atira a barra mais longe e chegar a falar de jansenismo presente na visão cristã de Octavio. Ou então, como se o romancista vivesse circundado pelos muros da fortaleza de Carcassone, plena de cátaros a secretar como albigenses que eram a heresia tisnada de maniqueísmo, e haja sido assediado sem proteção diante da sedução do Senhor do Mundo. Como todos os reducionismos a propensão em abrir espaço para o demônio se mostra nos romances de Octavio com todo o seu cortejo de jogos em que a sedução prima sobre as demais manifestações da imperfeição conatural aos homens.
 
As dicotomias cristalizam o real, impedem o espírito de navegar em águas mais amplas e abertas a um olhar perquiridor prenhe de profundidade. Aqui, não. É o padre Luis vivendo as tragédias de uma classe burguesa em processo de autoflagelação permanente. Em sua solidão, o reverendo recorre a todos os argumentos e mesmo se vale de artifícios para redesenhar algumas almas, (na maioria, jovens), jovens que buscam ou pressentem a aproximação, não de uns seres abstratos, com que Aristóteles nos presenteou, e sim à cata do Deus vivo e não do Deus dos filósofos. O padre acolhe confidências, numa escuta privilegiada. A verdade é que o sacerdote vive a sua via crucis.  As personagens são as estações que o católico persegue nas igrejas e capelas a nos falar a linguagem do sofrimento ontológico de muitos que vivem, pascalianamente, gemendo, nesta certeza paulina de que a crucifixão de Jesus Cristo está em marcha.  Nós a estamos completando diuturnamente. Assim, Ele está ao nosso lado, em vigília e na acolhida da misericórdia.  Branco, Pedro Borges, Ângela, Rení, Ivo, Lisa Maria, Paulo Torres e tantos, tantos outros recorrem ao padre Luis, cuja alma se despedaça no silêncio de seu refúgio em que a reflexão sobre os destinos que transitam pelos corredores de seu habitat faz contraponto com suas preces tingidas do sangue das dores, melhor dizendo do lodo das ruas.

Octavio se imiscui na narrativa e o faz com vigor. São momentos ou instantes privilegiados em que a tragédia firma o seu domínio e parece aluir as bases de sustentação das personagens. É como se ele, com sua interveniência, esperasse trazer um halo de paz às almas sofridas, às carnes dilaceradas, aos espíritos flutuando sem destino ao sabor de suas paixões incontidas e incontroláveis. Corre um frêmito qual grito de socorro e o escritor comparece em lágrimas à cena do romance e lhe empresta a sua solidariedade, feita de permanente atenção à alteridade. Parece em tais momentos que a fé se estiola no palco escuro em que a vida não mais clama por si mesma, mas se entrega perdida aos ventos impiedosos do tempo vivido, da culpa que teima em habitar o coração das personagens, da malignidade que emerge dos dramas pungentes que bosquejam a arena do romance-rio. O mal por tal maneira se insinua e mesmo por vezes domina o cenário que somos tentados a cuidar que o Senhor do Mundo já não deixa espaço para o Bem. Com Octavio, o demônio faz sua entrada na literatura brasileira, como sublinhou Vilaça. E nós adicionaríamos: pela porta da frente. Já o Deus escatológico comparece como um centro das súplicas, das preces sofridas e do conselho do padre para prosseguir na caminhada em que encontra muitos ouvidos moucos, já desembarcados do sentido da vida, despovoados axiologicamente porque entregues à desesperança.
 
O embate entre a luz e as trevas cifra e mesmo perpassa o projeto global e nos aponta para as fronteiras da santidade, convite aberto a todos, mas de difícil praticagem.
 
Octavio, ao buscar os caminhos da vida – para ele, da santidade - respira as dores do mundo, mergulha na condição humana e parece secretar um certo pessimismo cristão. Pudera, não foram Pascal, Kierkegaard, Nietzsche, Bloy os seus inspiradores mais frequentes?
 
Octavio mergulhou nas profundezas do mistério existencial e parece se identificar com as personagens, designadamente Branco. Diz ele: “muitas vezes me pergunto se não estou caminhando para fazer de Branco eu mesmo. Vou, aos poucos, metendo no personagem tantas coisas que são minhas – e que não estavam absolutamente no personagem inicial – que não sei como acabará”.
 
As dimensões multifárias da cultura de Octavio nunca obscureceram a sua vocação medular de romancista, para quem “o verdadeiro romancista não morre. Se morreu, não era romancista”. Assinalamos o pessimismo cristão de Octavio, que tangencia o desespero. Este terá sido o vinco de seu recado. Mas, ao fim da obra ciclópica, no fecho do último volume da Tragédia burguesa, Octavio se vê diante de Branco, na prisão, ele o cavaleiro da Virgem, o ser vocacionado para a santidade sofrida, e se insinua na gravidade do momento uma réstia de luz e o jovem prossegue em sua oração “cada vez mais longe do mundo, da lógica ensandecedora dos seres. É quase madrugada. E, a seus pés, desfeito, jaz o Príncipe do Orgulho... É cedo, é manhã quase, é aurora... e os pássaros já começaram a cantar, em mim, em todos nós”.
 
O patrono desta nova cadeira da Academia Brasileira de Filosofia nos confia, nas derradeiras linhas de sua majestosa contribuição literária, a mensagem de que o mal, no início de um novo dia, terá sido ultrapassado e a aurora firmado o seu vigor. E, agora sim, os pássaros poderão cantar livremente simbolizando, mesmo no fundo do abismo, a Presença pela qual almejam as almas sequiosas de amor, esperança e justiça. Esta foi a derradeira mensagem do romancista-pensador Octavio de Faria.

Acadêmico relacionado : 
Tarcísio Padilha