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Discurso de posse

Três grandes vultos

Um poeta, um crítico, um jornalista, três disciplinadores de opinião estendem a grande sombra sobre a Cadeira que, por eles, ficara sendo, entre os quarenta círculos de inteligência em que a Academia se divide, a dos que manejaram a pena, como o pastor ao seu cajado, para dirigir as multidões.

O patrono é Gregório de Matos. Criou-a Araripe Júnior. E ilustrou-a Félix Pacheco. Arcades ambo. O primeiro e o último: cantores inspirados, que recortaram no metal plástico do verso a angústia indefinível. Todos, porém, condutores de massas, caudilhos da palavra, servidores do público a quem se vincularam pelo gênio rebelde, pelo misticismo liberal adivinhado, prometido, realizado ou pela vocação de mando e protesto, que a cada um deles singularizou, no seu tempo. O vate satírico, o juiz literário, o grande homem de imprensa absorvem e vivem três largas fases da civilização brasileira. A da lira flagelante, síntese das forças sentimentais do povo em luta com o cativeiro político e a miséria espiritual; a do pessimismo discreto, curioso e atônito do fim do século passado; e do simbolismo renovador e fecundo, colorido, sonoro, inquietante, que foi, ao raiar do século XX, uma sinfonia matutina de esperança e renovação do homem livre!

A seu modo, e como pôde, Gregório de Matos fez também jornalismo.

Bahia

Pobre Bahia fidalga do ano do Senhor de 1684!

Lá vos diviso o perfil inconfundível da montanha sagrada, o Ararat da pátria, na intenção profética dos que lhe conferiram por timbre o ramo de oliveira, sic illa ad arcam reversa est... Ali o Brasil abriu primeiro à emoção de suas glórias os olhos encantados. É o patinado berço da nação. Rodeiam-no e ilustram-no as mesmas velhas paredes cujas cicatrizes narram as vicissitudes de quatro séculos, coroadas de campanários que imobilizam no espaço a religiosa atitude da cidade cristã, cujo porto abrigara as caravelas desbridoras e cujas esguias guaridas, sobre as ladeiras úmidas e o golfo azul, vigiavam os horizontes da América. O chão está calçado de ossos, a sensibilidade do povo embebida de lendas, a alma da terra cheia de sonhos, e o ar que se respira, sobre a branda paisagem que emoldura o casario histórico, suspende o sopro das eras mortas, ressoa dos antigos rumores, transporta o eco dos tempos findos... A saudade das epopéias forra, com o mugre das muralhas, a paz das fortalezas esquecidas. Cintilam na cimalha das torres as cerâmicas de Portugal e as tradições do país. Vozeiam no clamor das ruas os ruídos de um povo bom e o vago estridor das gerações passadas. Cruzam sobre a massa dos templos enormes os fantasmas das eras insignes. Latejam as reminiscências dos dias grandes. Fala a memória das opulentas épocas, estremecem, palpitam as influências da nobreza avoenga, estalam com o vento suave que arrepia o leque dos coqueiros as graves sonoridades de sua História... É a cidade primogênita, Roma nossa, com cem cruzeiros de largos braços abertos na poeira d’oiro dos seus crepúsculos; Bethlehem da nacionalidade, onde o tugúrio do Natal, a manjedoura brasileira se banhou uma noite com o clarão bendito da estrela que guiava os reis, e para lá os conduziu; e trincheira do seu espírito, alto, forte, nobre baluarte que ainda – até hoje – avança para a beira dos precipícios as arestas pintadas de limo venerável, como quilhas de um aéreo navio que aproasse para o céu luminoso...

Falava a vasta colméia tropical a travessa matinada dos sinos, e ria e amava, junto do mar, na sua aventura de raças que se uniam, de riqueza que brotava da terra fértil, misturado mundo de formigas negras que mourejavam e de cigarras dolentes que cantavam, o espírito nacional a formar-se na estranheza, no tumulto, na paixão e nos contrastes de floresta espessa, de colônia de origens tão recentes que ainda os índios de cocar emplumado iam espiar, das quinas da praça, a linha senhorial dos palácios e o povo de ébano que viera d’África... Governando isso havia um militar de Lisboa, de prosápia pendurada dos primitivos florões da monarquia; uma justiça caquética, de togas pretas; uma aristocracia, meio de lá, meio de cá, toda lustrosa da fortuna de fresca data, adocicada dos meles dos engenhos de açúcar; e alguns frades, donos da ciência e árbitros das letras. No reino chovia o que a nuvem chupava no Brasil, já Vieira dissera; mas o que era longe abundância de inverno, aqui era penúria de seca. As casas pomposas escondiam a timidez colonial; os mosteiros imensos, o desânimo da inteligência pasmada; as ruas cheias, a confusão da gente desencontrada; e o Estado bisonho, a tirania dos capitães-generais, de uma lealdade romana e uma rusticidade saloia...

Para aí voltara, falhado na carreira, vítima de si mesmo perseguido pela mania incorrigível, de fazer da inspiração que Deus lhe dera o cáustico dos erros, o pelourinho dos ridículos, o látego dos mercadores – um trovador bacharel e mendigo, de nome Gregório de Matos Guerra.

Gregório de Matos

Achava Frederico da Prússia que um filósofo pode arruinar um Império. E pode um poeta corrigi-lo – acrescentemos!

Pois veio aquele, despachado por el-rei, que se apiedara de suas doidices engraçadas, com um título de cônego honorário e um bom ordenado a correr pela mitra-primaz.

Parecendo uma ironia, o emprego, de fato, era uma sinecura.

O preço, porém, pelo qual o obtivera Gregório, foi demasiado caro: o seu silêncio. Menos custou Paris ao galante Henrique: uma missa... A Bahia lhe era oferecida; contanto que se calasse. Metesse a viola no saco. A sua bandurra brejeira, a cantiga sarcástica, a lírica erótica, a rima insolente, os castigos de sua gargalhada, principalmente os desatinos do seu improviso... Que emudecesse, como a ave que come, para ali gozar, na sua rama verde, o milagre de claridade e cor da terra natal, a sua paisagem de suave recorte e o recôncavo onde as rodas dos engenhos chapinhavam, rítmicas e preguiçosas, nas levadas murmurantes...

Seria feliz, e rico, e poderoso, se perdesse a voz.

O cabido pedira-lhe devotamente que, para não escandalizar a pia populaça, traçasse aos ombros a murça roxa dos cônegos da Sé. Ficaria irrepreensível, um pouco penitente, imagem do anjo revoltado que recuperou a graça, a passear pela cidade em roupas talares avivadas de violeta, de barrete, farto, inofensivo, redimido, saudado com respeito dos seus balcões de pedra por todas as fátuas autoridades muito agradecidas da beata anistia que lhes dera...

Ouvira pensativo esses conselhos bentos. Quisera – e há documentos disto – ser outro homem, diferente do doutor endemoninhado a quem se apelidara justamente de “Boca do Inferno”. Pensara quebrar o violão e amealhar a propina, talvez ordenar-se de verdade, e ressurgir, ante a sociedade perplexa, como um regenerado defensor dos puros costumes velhos... Andou atormentado, a sonhar com a sua figura de esteio do Estado e da lei, gordo, pacífico, conservador, recalcando a sua sobre-humana vontade de rir debaixo da mais conceituosa fisionomia de desembargador da Relação Eclesiástica que ainda ali se viu, entre os muros de ouro e azulejo da catedral... Retardou uma resposta, aflito, a balança suspensa das cavilhas da guitarra, num prato a pensão vitalícia com honras canônicas, no outro a liberdade de ir soluçar as serenatas onde lhe aprouvesse... Uma bela manhã decidiu-se; ou melhor, explodiu. Nem ameaçado de morte entraria na disciplina do cargo e no decoro da magistratura! Repudiou os compromissos. Que o aceitassem como era, o menos dominável de todos os bardos que já as letras portuguesas produziram, desde os primeiros menestréis do reinado de D. Tareja, até cem anos depois dele, Bocage e José Agostinho de Macedo! Não usou a murça, nem a desembargadoria, nem o sitial do cabido, entre os conspícuos eclesiásticos da prelazia.

Tiraram-lhe naturalmente, e a bem do serviço público, o emprego. A desgraça foi-lhe um repentino, espantoso alívio.

Soltaram-se-lhe as cordas vocais numa alvoroçada modulação de canto. Amanheceu o seu dia de regozijo como os pássaros da mata; tendo de próprio somente o solfejo que aos céus lançava, e se dissolvia na natureza, como uma força e um clamor que dela partissem, e lhe voltavam...

Encontrou-se de novo na rua suja com os dedos enclavinhados na vila, igual o si mesmo, espécie de deus Pan sardônico e ofegante, atrás das musas pardas e morenas, e também advogado da ralé, contra tudo o que fosse grande, imponente, despótico, oficial...

Decaiu rapidamente. Cabriolou pela vaza social como um truão borracho. Um instante imaginou reparar, com um casamento digno, como fez Marcial, irmão latino, a aspereza do seu fadário, estrangulado entre a acomodação e o desterro, como aconteceu a Juvenal. Ligou-se a uma plácida viúva que levou de dote o seu saquitel de cruzados. Gregório de Matos aconchegou a um canto da casa o tesouro, e lá o deixou à mostra, para que lho gastassem à vontade, e a mãos ambas, amigos e parentes, a pequena fortuna comum. Não duraram as semanas prósperas. Horrorizada de sua boêmia, fugiu-lhe a mulher. Depois, condoída e sensata, tentou reconciliar-se. Ele impôs condições. Só a receberia escoltada por um capitão-do-mato, crioulo incumbido de devolver aos senhores os escravos foragidos, e com a promessa de darem ao filho, esperado, o nome de Gonçalo... porque “ali quem mandava não era a galinha, mas o galo!”

D. Maria de Póvos submeteu-se à dupla pena. Um caçador de cativos acompanhou-a até à porta; e o filho que lhe nasceu chamou-se realmente Gonçalo... A confirmação da história nós a fizemos, em pesquisas pacientes a propósito do poeta e seus contemporâneos: lá se nos deparou, no arquivo tri-secular da Santa Misericórdia da Bahia, o assentamento de Gonçalo de Matos, a quem a mãe, segundo a tradição, educou supersticiosamente na aversão da literatura, no pavor da poesia, no ódio da inteligência que soprava, abalando os muros da cidade divina, as fanfarras de Jericó...

Gregório, perseguido da sorte, acossara os grandes da terra.

Os éforos castigaram Terpandro, que juntou à lira mais uma corda: esta foi, para o nosso, a corda maldita do sarcasmo.

Desprezado por eles, vingara-se, imortalizando-os em caricaturas atrozes.

Semeou de cadafalsos a popularidade – que ninguém teve semelhante – de sua sátira: e crucificou os potentados.

Não respeitou categoria, poder, majestade: ensinou o povo a motejar e apedrejar, e fez que a sua chalaça passasse as fronteiras e as épocas, acolchetando-a às asas da indignação patriótica e da intenção nativista.

Quando não havia prelos que esmoessem panfletos, nem tribuna para o discurso, palco para a cena, jornal para a diatribe, liberdade para a censura, ou pretórios para a justiça, os seus versos supriam as atividades corretivas da imprensa e do foro, para acusar, estigmatizar e convencer. Era do tempo! O oceano do povo, ainda quieto, refletia, na paz de suas águas, a borrasca que, lá em cima, nas esferas altas do pensamento, alternava arquiteturas de nuvens e coriscos que iluminavam o conflito suspenso. Amarravam-se estadistas ao poste do quarteto. Um soneto foi às vezes sentença capital. Vice-reis da Índia dariam metade do patrimônio extraído do seu consulado, por escaparem à chufa e ao suplício de uma verrina que Gôngora e Quevedo poderiam ter rimado. Dante mergulhara num “Inferno” geométrico os príncipes do pecado: perdendo-os salvou-os, que só por isso – mumificados no sarcófago límpido de um verso – não morreram mais. São papas, reis, guerreiros e lindas mulheres que resplandeceram a formosura sideral em Florença revolta... Mas os patíbulos dos nossos velhos poetas satíricos foram alguma cousa de inaudito, no seu suplício vil. Enlameiam, contorcem, deformam o condenado: e pior que morto, no-lo exibem vulgarmente ridículo... Gregório puniu monstruosamente os seus inimigos, governadores gerais, desembargadores togados, fidalgos mestiços, negociantes sovinas, judeus onzenários, beldades que o recusaram, e seus rivais felizes... Debate-se num delírio de injúria, maldade e desforra. Faz com a canalha o coro da calúnia. Agita um azorrague, que a zunir e vibrar imita a serpente ferida e exasperada...

De súbito, entretanto, a música se lhe abranda em soluços; dedilha baixo a viola da maldição; a voz enternece-se e suspira; e a cobra volta a ser rouxinol.

Ele inventa a modinha.

Junta-lhe às mágoas de amor os quebrantos da terra e os feitiços da gente, numa zoada de sons pesarosos de saudade e de prece.

Deu forma àquele cantar sussurrante de beijos, trêmulo de queixas, ardendo em desejo, fugindo em juras e protestos, que insensivelmente se tornou a cantiga petulante do povo, o seu lirismo e a sua voz.

Não importa a chacota imunda desse lenhador de reputações; o seu gênio disperso e fatídico; a atrocidade de sua cólera; o veneno que despejou nas nascentes da nossa literatura e que ainda resvala, à flor do caudal, indissolúvel no boqueirão da língua...

Verdadeira glória do guitarrista sem ventura, bêbado François Villon das “bagaceiras” do Iguape, das arruaças da Bahia, dos “outeiros” do Desterro, foi a “modinha brasileira” que ele engenhou. Abriu-lhe ela, dois séculos depois, à morte que é vida, e esplendor, as portas que a fortuna e o gênio lhe fecharam, à vida que foi morte, da Academia que o consagrou patrono e precursor, e algum dia, por iniciativa de Afrânio Peixoto, publicou em seis volumes quantas poesias, autênticas, atribuídas e alheias, a velha gente indigitara como dele.

Pois nunca mandou à tipografia, onde houvesse, versalhada sua. Morreu de idade avançada, juízo curto e obra inédita. Contraste surpreendente com a vanglória de tantos autores que permaneceram desconhecidos depois de fartamente editados, não deixou que pesasse sobre seu nome o mausoléu de um cartapácio. Confiou as suas trovas à emoção do povo. Misturou a nostalgia portuguesa, o pessimismo indígena e a sensualidade africana numa canção enternecida, e soluçou-a às estrelas.

Voltasse ele agora!

Entrasse aquele nordeste adentro, à procura dos núcleos sociais que melhor conservaram a pureza originária da raça e da alma brasileira; encostasse o ombro à porta da casa de sapé onde range a rede cabocla, num balanço de galho verde, que a brisa embala; e de ouvido atento, esperasse que a cantiga do sertanejo rompesse como o grito da ave saudosa, que chama, no vazio da madrugada, a companheira perdida... Perplexo e encantado ouviria a sua velha canção chorar um vago amor, fantasma sonoro de um tempo morto, música imemorial de uma agonia antiga, que a gente simples nunca mais esqueceu.

Perdoado seja por isso: ensinou a nação a balbuciar o primeiro trinado em que cantou a sua alegria moça de viver!

Araripe

Dois séculos tinham rolado sobre a morte sinistra de Gregório de Matos, exilado, emudecido, indigente, aos pés do catre a viola despedaçada – quando lhe prestou o país insignes homenagens. Araripe Júnior tratou de dedicar ao seu estranho caso um livro de biografia maciço, erudito e justo. E no Colégio Militar um menino do Norte que já fazia versos, erriçado de puas como um ouriço, amargo e valente como um panfletário velho, tomou a peito defendê-lo das mentiras históricas.

Chamava-se Félix Pacheco.

Araripe tinha o olhar agudo e o instinto de aferidor de homens. Fez-se crítico por temperamento e voto. Nasceu juiz. Não lhe faltavam tolerância, otimismo e grave, compacta honradez mental, para distribuir – entre toda a mais subtil – essa justiça das letras que tem tanto dos caprichos do vento nas brancas praias do seu Ceará: a levantar, no rodopio das rajadas, as torres esguias que logo se desmancham, na poeira que ele mesmo carrega assobiando e rindo...

Félix Pacheco

Félix foi completamente o homem de imprensa. Antes de tudo, e em tudo, jornalista. Acabaria diretor do órgão-chefe da publicidade nacional, da mais provecta e antiga folha do país, na sucessão de uma dinastia de príncipes da gazeta política, por direito de inclinação irresistível.
Quase não teve culpa de ser assim.

Rondou-lhe o berço a musa trêfega do jornalismo.

Entre as primeiras cousas que a mão hesitante do rapazinho escreveu estavam rudes ataques aos adversários do seu partido provincial, em forma de artigos para um humilde diário de Teresina. Formou rapidamente o espírito, entre uma caixa de tipos e uma banca de editor. Nunca mais o barulho das máquinas, a triturarem a semente da opinião e o misterioso trigo da idéia, deixou de chalreiar-lhe ao ouvido a algazarra da imprensa. O seu jardim de infância foi uma redação. Cresceu, emancipou-se, lutou, venceu, enchendo, sem cessar, com a sua bela letra simétrica, tiras de papel que no dia seguinte o público lia. Viveu, desde a primeira adolescência, na doçura burguesa do seu Piauí moderado e aflito, dos tempos ansiosos que se seguiram à proclamação da República, até o último lampejo da existência construtiva, escravo daquelas laudas do seu trabalho, respirando tinta de impressão, agitando entre as rotativas um imperioso gesto de comando, moleiro cativo do seu moinho fecundo, que esmagava o grão de cada dia e ainda dava a ilusão de ter grandes asas, ensaiando o vôo, a trepidar no azul...

Daquele vale triste e calado do Parnaíba viera ele, donde em pinceladas de oiro queima o sol os areais vastos; e começara a carreira das armas sob auspícios sombrios.

Egresso da farda

O pai, magistrado severo e pobre, reservara-lhe um destino digno: seria o guerreiro da família. Esta era numerosa, feliz na sua modéstia exemplar e laboriosa.

O Dr. Gabriel Luiz Ferreira sabia por que mandara o seu menino cursar o Colégio Militar. Não gostara das amostras de sua inteligência precoce e original: Félix Pacheco, em idade de leituras infantis, dera de tomar atitudes numa gazetinha local, e do alto do seu artigo de fundo, como um garoto de cima de sua cerca, apedrejara os telhados vizinhos. Demais disso, revelando-se ou assumindo consigo mesmo um compromisso ameaçador, adotara o pseudônimo de “Oncinha”. Lembrava isso a fera empalhada a cuja roda, em casa do avô, um dos chefes conservadores do Piauí, se reuniam os políticos da terra. Era comovente na fidelidade ao antepassado e ao “totem” partidário e patriarcal; mas pouco tranqüilizador, como primícias do futuro... Valeu-se o bom juiz da ida para o Rio do senador Teodoro Alves Pacheco, seu cunhado, e deu-lhe a incumbência de meter a Oncinha no côvado e meio de recruta do Colégio. Desafogava duplamente, as hostes contrárias, que se forravam do travesso foliculário, e a tribo precavida, que não farejava nada de melhor em tal propensão para os riscos e desaforos da letra de forma.

O Dr. Gabriel cedo conheceu um desengano que as aventuras literárias do filho mais lhe pungiram. Fácil é, decerto, fazer de um militar enfadado um jornalista exímio; mas apostamos que é impossível transformar um jornalista impaciente num militar, ainda que medíocre, a ver da quietude da caserna espreguiçar-se cada antemanhã, no incêndio do nascente, o sol frio dos madrugadores... Aprendeu ali coisas utilíssimas. As humanidades bem sabidas, o estoicismo dos quartéis, com os horários inexoráveis, e, principalmente, começando a conhecer-se, a sua inaptidão para a disciplina e o impessoalismo da vida das armas.

Entretinha os ócios em escrever, experimentar, distribuir pequeninos jornais noticiosos que floresciam em doutrina e forma, em galanteria mental e irreverência política...

A sedução da imprensa

Não poderia servir ao “grande mudo”, quem tinha tanta palavra para dizer do topo de sua coluna...

Ali mesmo, na escola, promoveu duas comemorações: do centenário de Basílio da Gama, do bicentenário de Gregório de Matos. Concebeu um estudo de fôlego sobre Evaristo da Veiga. Quando menos contavam com ele, surgiu publicista, com o ensaio histórico acerca do seu herói, generosamente acolhido pelo Jornal do Commercio. Foi um sucesso, merecido e prolongado. Fizera dezoito anos. Alistara-se – abandonando as fileiras da força armada – na expedição dos bandeirantes dos valores perdidos nas monções da crítica que, na época, largavam das águas inquietas do puritanismo republicano, para devassar as origens da nossa cultura liberal. Araripe Júnior achara Gregório. Félix descobriu Evaristo. Agarrou-se a esse patriarca espiritual. Ergueu-lhe um monumento de palavras enérgicas. Contemplou-o religiosamente, o punho a dardejar os raios como um Júpiter irritado, a cabeça levantada, a grenha revolta e o ar inspirado de demolidor de regimes, e a pojar-lhe da algibeira o rascunho do último soneto endereçado à primavera e ao amor... Fora o jornalista cívico, cuja pena lampejara como uma lâmina de condestável, à frente da abalada revolucionária, apóstolo e doutor de uma causa que definiu e ganhou, irresistível na ofensiva, tolerante e prudente na vitória, desinteressado, heróico e céptico depois, espécie de soldado e místico, que preferia retirar-se da luta com a cruz da espada apertada de encontro ao peito e um ruído de prece a escorrer dos lábios piedosos...

O Conselheiro Coelho Rodrigues, que militara no Piauí em campo oposto ao jovem conterrâneo, viu com espanto o escrito. E mandou-lhe este bilhete: “Li seu artigo, e, se não o conhecesse, não acreditaria que fosse seu; não faça versos quando não estiver de veia, não cometa alguma criançada de adulto, e se, dentro de alguns anos, o redator-chefe do primeiro jornal da América do Sul não for um piauiense, não espere desculpas do patrício admirador e amigo Coelho Rodrigues.”

Poeta!

A prevenção do experiente co-provinciano visava aos primeiros ensaios poéticos de Félix Pacheco. O verso fora-lhe, espontânea, a linguagem dos sentimentos, quando a prosa lhe parecia demasiado crua e áspera. Até o fim, para os seus júbilos delicados e as dores extremas, o mestre do estilo terso rimava uma poesia, seu mais fiel e nítido retrato d’alma. Fazia-lhe isso a outra face de si mesmo, o eu dissimulado, e cada vez mais oculto, à medida que notoriedade da ação pública lhe estendeu uma penumbra de modéstia e pudor, sobre a inquietação de sua sensibilidade de brando e puro poeta...

Iniciara-se no gênero editando “poesias revolucionárias”, as Chicotadas. Um feixe de invectivas num anel de beleza: declarava guerra à Espanha em defesa de Cuba, e apelava para a união dos povos latinos, contra os saxões...

Lá cavalgava, o repórter de O Debate, o seu magro Rocinante, e com um glorioso barulho de ferragens e ossos estalando, ia plantar a lança na asa do moinho.

Deteve-o na disparada Lúcio de Mendonça. Atribuiu-lhe sem razão um epigrama de O Jornal, e revidou com violência. Oportuno equívoco, serviu para despertar do seu sonho de temerárias andanças o cavaleiro imberbe... Félix Pacheco tinha, do polemista, as condições essenciais da agilidade, da veemência, do ímpeto, da perseverança e da altivez. Nunca, em sete lustros de jornal, se retirou da arena antes do adversário, ou permitiu que lhe disputasse ele as vantagens da contenda, no terreno conquistado. Era então implacável e completo. A “Oncinha” brava de Teresina fugia-lhe da natural placidez de suas atitudes; o gladiador nervoso e rude substituía o artista dos conceitos calmos; e o campeão da palavra pelejava, com uma impavidez insuperável.

Encruzilhada

Mas não prosseguiu na poesia social. Adotou, para as idéias, a prosa esbraseada; plasmou-a ao sabor das necessidades e das normas da profissão; e já entrou para a reportagem de polícia do Jornal do Commercio como um dos vibrantes noticiaristas da imprensa carioca.

O emotivo, o enamorado dos ritmos, o fanático da nova escola literária que Baudelaire preconizara, recolheu-se com dignidade ao jardim encantado do Simbolismo.

Em 1900, poeta e jornalista se separaram.

Trinta e cinco anos estiveram, pelos caminhos do mundo, distantes e desencontrados.

O homem da imprensa subiu muito.

Coelho Rodrigues não teve de desculpar-lhe a profecia falhada: degrau a degrau, foi de repórter a diretor, de grumete a almirante, de rapaz dos plantões, com a vigilância apurada no registro das miúdas misérias da cidade, até a Academia, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, a chancelaria da República, a propriedade do seu velho jornal, que progrediu com ele.

Mas o discípulo de Cruz e Souza, embruxado de baudelairismo, se esgueirou, por entre as roseiras do seu pequenino paraíso de sons, perfumes e cores.

Alhures falou tão alto, que o Brasil inteiro o ouvia; aqui, sussurrava tão timidamente que, às vezes, os mais íntimos não lhe surpreendiam a confidência de arte e ternura.

Distanciaram-se de tal sorte, o homem público e o lapidário da estrofe simbolista, que correram muito tempo as peripécias e surpresas da vida como se não se conhecessem, irmãos gêmeos e desavindos, o opulento e poderoso ofuscando, com as pompas do seu êxito, a tranqüilidade satisfeita e embevecida do que ficara, a arrulhar melodias, entre as hermas brancas do seu parque, os pensativos deuses de pedra alva, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé, Laforgue, e o ídolo de ônix, o preto de gênio que encarnara a sublime tortura literária de Charles Baudelaire com os cabelos pintados de verde e apaixonado por uma negra...

Sereias de perdição!

 “Io son”, cantava, “io son dolce serena,
che marinari in mezzo mar dismago;
tanto son di piacere a sentir piena!”

(Purg., XIX, 19.)

São dois destinos, numa só existência. Temos de compreendê-los, como se nos apresentaram.

Que vos diga primeiro de Félix Pacheco como toda a gente o cortejou: o marechal da publicidade.

Ao termo deste elogio, o poeta, troveiro magoado do fim do dia. “Virá comover-se diante do irmão feliz e velho, que o esperava impaciente, para que lhe festejasse as sombras do ocaso com a bravura e a saudade dos versos da juventude...”

O Jornal do Commercio

Dera a O Debate, com uma rutilante plêiade de espíritos criadores, todas as energias adolescentes. Apesar disto, ou com tudo isso, faliu o periódico.

Era em 1899.

José Carlos Rodrigues ouviu a Índio do Brasil a notícia do insucesso, e os louvores da coragem e do caráter do jornalista desempregado. Ninguém mais lhe falou no caso. Nem foi preciso. Chamou à sua presença o autor do ensaio sobre Evaristo da Veiga. Examinou-o curiosamente, com aquele gesto todo dele de olhar a gente, a luneta faiscando, a barba grisalha e rala contribuindo com os seus estudos bíblicos para que o tomássemos por um rabino em férias, – e positivou o convite.

No dia seguinte, saía Félix Pacheco à cata das reportagens policiais. Leu criminologia. Afundou-se em cogitações penalistas. Consagrou vastas crônicas aos crimes célebres. Ajudou a elucidar alguns. Foi exaustivamente o profissional deste difícil e subtil trabalho de encantar em literatura a atrocidade das ruas, pintando cenas, recortando detalhes, colorindo episódios, com a honesta preocupação de não divorciar a verdade da fantasia... E – admirável compreensão da técnica – nunca mais assinou artigos.

Mas era como se lhes escrevesse ao pé, em grandes letras cintilantes, o pseudônimo dos primeiros panfletos!

Tinha a intuição do que fosse, num jornal moderno, a originalidade do folhetinista. Este quanto mais escondido, mais evidente. O silêncio de si mesmo é pregão e é denúncia. A redação identifica-o, a diretoria lisonjeia-se, e o público o percebe, pilhando, entre as gigantescas roldanas em movimento, o operário que as impele... Foi por isso que, em 1906, deixando a secretaria do Jornal do Commercio, José Barbosa, o ardente literato português, por telegrama, da Europa, José Carlos Rodrigues indicou a Félix Pacheco para o lugar. Em prêmio da lealdade, da pontualidade do seu esforço, e do seu talento, punha-o no rumo da suprema direção da casa. Realmente, dali à administração de uma das edições, e à chefia da redação do jornal, foi um passo. Venceu, desembaraçadamente, porque se lhe tornou obsessivo o amor do ofício. Confessaria, ao ser recebido na Academia: “Eu, por mim, não adotei a carreira sem aquela paixão recôndita, que é em tudo o segredo do êxito.”

Repórter policial, de tal arte penetrou os segredos da organização repressiva, que ninguém exerceu mais proveitosamente a burocracia do Gabinete de Identificação e Estatística. Dirigiu-lhe os serviços por meia dúzia de anos renovando tudo. Introduziu os últimos sistemas de datiloscopia, vulgarizou os métodos científicos apenas iniciados na Europa, representou a polícia do Rio de Janeiro, com Bento de Faria e Eurico Cruz, no 3.o Congresso Científico Latino-Americano, e foi delegado brasileiro à Conferência Internacional de Polícia.

Política e Ascensão

No campo político, a sinceridade de sua crítica o vinculou a todas as questões nacionais, e teve o Piauí de socorrer-se do seu nome, para deputado federal à 7.a legislatura da República. Em quatro períodos legislativos desempenhou esse mandato, em 1921 substituído pelo de senador federal, último cargo de eleição que exerceu.

Por sua tradição secular, é o Jornal do Commercio a gazeta da diplomacia brasileira. Cem anos de defesa lúcida e oportuna dos nossos interesses exteriores deram-lhe a autoridade, quase oficial, de intérprete dos problemas internacionais, cuja opinião antecipa os atos públicos e, vezes sem conta, os determinou.

As atitudes da chancelaria imperial e os caminhos da política estrangeira da República jamais se objetivaram fora das linhas de conduta ali previstas, definidas, aconselhadas e explicadas.

Quiséssemos hoje reconstruir, nos seus traços exatos, a ação diplomática dos dois Rio Branco, ou iluminar, a uma luz direta e verdadeira, o pensamento que animava o velho ministério da praça da Glória ou da rua Larga, em convulsivas fases da história continental, e teríamos apenas de colecionar as “várias”, inúmeras redigidas ao calor das crises, ou na hora remansosa das dificuldades desfeitas, pelos próprios ministros de Estado!

Arriscavam programas e intenções; experimentavam, na reação dos espíritos, a firmeza do terreno; impeliam para diante a máquina pesada e morosa do governo representativo. Este foi O Jornal; e ele ainda é assim...

Quando o Presidente Artur Bernardes convidou Félix Pacheco para seu Ministro de Estrangeiros, só quem se surpreendeu com a escolha foi o nomeado.

Certo, le journalisme mène à tout, à la condition d’en sortir.

Provou ele que há para essa verdade exceções magníficas: sem desertar do ofício nem lhe fugir às contingências, foi chanceler, dos mais operosos e hábeis que já transitaram pelo posto; e, depois daquele período de governo, diretor, como antes, do Jornal do Commercio e cada vez mais seduzido e prisioneiro dos tumultos e percalços da profissão.

O Caso de O Jornal

Dir-se-á que, nos anais da imprensa brasileira, formara O Jornal um valor à parte, resumindo na sua organização primorosa e no sentido conservador de sua ação diuturna, um ciclo perfeito de serviço público. Félix Pacheco teve o mérito e a constância de assim entender e zelar as tradições de sua folha, a cuja prosperidade, enquadrada nas coordenadas de uma evolução centenária, votou, com o viço mais útil da vida, os cuidados de todo instante.

Limitou às áreas de sua atividade a ambição sem impertinências. Dedicou-lhe por fim a vigilância do chefe e a emoção do culto, orgulhoso e devoto dele.

Justificaria uma viagem à França, para esparzir rosas frescas sobre o túmulo de Plancher, fundador do estabelecimento, na era venerável de 1827.

E dava eruditas, patrióticas razões a esse entusiasmo, que nos vagares do estudo se requintava em rebuscar e frondejar em copioso ensaio sobre o passado das nossas artes gráficas, os seus velhos artistas, e as jóias raras que lavraram.

O bom Plancher, tipógrafo exilado e honesto precursor de cultura, inventara uma gazeta nova, em cujos propósitos humildes latejavam as possibilidades de uma grande indústria.

História do ofício

Houve quem visse no duelo de Girardin e Carrel – dois polemistas que desembainharam as espadas depois de esgotados os adjetivos – o símbolo da antiga e da nova imprensa, que jogavam a cartada decisiva.

Venceu, com Émile de Girardin, o jornal-negócio, o jornalismo-peça de Estado, a pena-instrumento de civilização, em lugar do panfleto liberal, do periódico de doutrina e da folha volante dos dogmas, que até então desafiaram instituições e governos num estilo de tragédia grega.

Até a morte romântica de Armand Carrel fora a imprensa, a tribuna pública, donde o agitador seduzia as massas, o apóstolo as convertia, a política lhe sorria esperanças e o ódio social rugia os seus desesperos.

Sieyès informara à Revolução, que não há liberdade sem imprensa. Dissera Pitt que, livre como a idéia, ela mesma corrigiria os seus excessos. E Paul Louis Courrier concitara todas as criaturas a publicarem o seu pensamento, ainda que mau, de preferência a enterrá-lo num silêncio egoísta, que seria como furtar ao próximo a moeda do giro... Dois dias antes de inaugurados os Estados Gerais, Mirabeau apareceu com um pequenino jornal doutrinário e alarmado. Que aurora seria aquela, que se anunciava toda de fogo, sem o canto cristalino do chante-clair, saudando a agonia das sombras?... A língua do mundo, paralisada tantos séculos, tinha de clamar as suas razões decisivas!

Mas a tecla ensurdeceu. A gazeta retórica, como um herói homérico, embriagou-se e perdeu-se no delírio do triunfo. O Visconde de Chateaubriand acusou-a de ter demolido, com os seus ombros de Sansão, o templo do passado. Ficou, porém, entre as suas ruínas. Quando Cresus, induzido à luta com os persas pelos ambíguos oráculos, mandou-lhes, ensopados de lágrimas, os ferros do seu cativeiro, a Pítia redargüiu: Disseram os deuses que destruiria um império. Porém, os deuses não descriminaram qual dos impérios, se de Cyrus, o bárbaro, se do próprio Cresus, o lídio!

O Estado recobrou os clássicos argumentos de ordem contra a destruição, de força contra a aventura, de humanidade contra a filosofia... A complexidade das relações econômicas amarrou aos interesses a ebulição mental, antes consagrada à política de anjos e sonhos dos pais da liberdade.

O Estado recobrou os clássicos direitos.

Incluiu-se entre as energias produtivas da nova sociedade. O artífice da folha, fosse Paula Brito ou Cândido Mendes, que a fazia toda, desde o artigo apocalíptico até a composição tipográfica, a impressão na velha máquina manual, e a distribuição em roda de amigos, foi expulso pelo grande empresário das edições populares. O barbeiro de Minos industrializou a indiscrição impaciente. O jornal abateu dos altos meios para as ruas. Custara primitivamente o preço de um livro e agora valia o de um pão. Deixara de ser alimento de príncipes para ser o trigo diário da mesa do pobre. Durante o resto do século XIX, elaborou fortunas colossais, sendo embora cada vez mais barato, mais accessível, mais plebeu, mais sincero, mais social, síntese da existência coletiva, o seu noticiário, a sua meditação, o seu conselheiro, o seu correio, a sua opinião... Não cuidou mais de ser a alavanca, que faz saltar um regime, o pelourinho de um estadista, a catapulta de uma revolução. Exprimiu no seu conjunto, na sua trama, na sua entrosagem, na vulgaridade da rotina e na fascinação da idéia e da justiça, o problema da vida moderna. Resumiu-a nos seus intrincados aspectos, sem se deter em nenhum. Poder, literatura, economia, necessidades do povo padecente, rumo do governo criador, razões de paz e luta, a produção, o gênio, o equilíbrio, misturaram as suas linguagens contraditórias no pregão do jornal novo...

“Forum aberto”, disse Carlyle, “como jamais Forum algum, onde falam todos os mortais e articulam a sua queixa – desde a perda do guarda-chuva na estrada de ferro até a perda da fortuna por culpa de entidades injustas e poderosas...” O jornalismo contemporâneo é objetivo como as primeiras experiências da publicidade no mundo, ao tempo das acta diuturna, redigidas todo dia pelos sérios diurnarii, avós pré-históricos do repórter de hoje. Também os descaminhos da verdade, quotidianamente arrolada, vêm daquelas épocas veneráveis...

Talvez o primeiro autor a insurgir-se contra os abusos de imprensa fosse o jovem Plínio, que confessou não acreditar na notícia espantosa de certa acta diuturna que, pelo ano de 800 da fundação de Roma, garantira (naturalmente “informada de fonte segura”...) que a Fênix aparecera na cidade para anunciar o século novo!

Menos erraria – pensou o honrado Plancher, que aliava à condição de probo operário a de estrangeiro desaclimado – se abandonasse para os foliculários da terra o desvario partidário, a intriga das facções, a exasperação política, e desse aos negociantes da Rua de São Pedro uma folha asseada, tranqüila e informativa, atestada de cotações de gêneros, notícias do porto, de fatos do mercado e, para distrair-lhes os ócios, alguma correspondência da Europa, atrasada de três meses, e fiscalizada pela prudência imparcial do editor.

Aquilo interessou, sem alarmar, o alvoroçado mundo dos jornalistas indígenas, que, em 1827, publicavam gazetilhas, manifestos, pasquins e jornalecos, em número superior ao de leitores que lhos pagavam.

E o Jornal do Commercio, com o título por seu programa, eco das classes produtivas, disposto a circunscrever a circulação ao centro urbano, entre as ruas do Ouvidor e das Violas, pôde ser a voz honesta e familiar de armazéns e escritórios, que tinha, para a laboriosa colméia, vantagem de dizer pontualmente coisas verídicas.

Desenvolveu-se com isso, transfigurou-se, cresceu, continuando “do comércio” foi o órgão da alta orientação do Império, ressonância das categorias superiores do pensamento nacional, a gazeta das forças dirigentes, que derrubava ministérios ao sopro de uma “vária”, consolidava situações com o cimento de um comentário, fixava políticas com uma definição em cinco linhas, e separava épocas com a resolução de uma atitude.

Amor da linguagem

De muitas maneiras se explicará o fenômeno.

Não é justo, entretanto, esquecer a parte do proverbial prestígio que deve o Jornal do Commercio à preocupação e zelo da boa linguagem, cultivando, à sombra de suas colunas compactas, um ameno jardim de literatura e espiritualidade. Quando a América do Norte se apartou da Inglaterra, dois processos de escrever para o povo anteciparam os traços fisionômicos característicos das culturas desavindas: Franklin quis ser simples, plebeu, banal como um sermão de presbítero da roça, à hora em que a gente rústica recolhe do trabalho; Johnson, solene, castiço e grave, como uma oração episcopal sob as abóbadas reais de Westminster.

José Carlos Rodrigues fez nos Estados Unidos a sua educação de ditador de publicidade: mas numa época em que se não consideravam dignas de lábios ilustres, que enunciavam e interpretavam a lei, palavras que não estivessem canonizadas, na Bíblia, moedas de curso comum cunhadas pelos pais do idioma com o metal de sua religiosa autoridade... Reparou-se por isso, com puritana estranheza, que Abraham Lincoln, em Gettysburg Address, usasse três vocábulos alheios ao Velho Testamento: continent, proposition, civil... “Saíram os filólogos em socorro do presidente da República e provaram que, não sendo aquilo casto inglês das Escrituras, o era de Shakespeare, o que dava no mesmo...”

José Carlos adotou o modelo de Johnson. Soube Félix Pacheco merecer a Academia, antes de lhe franquear ela as portas hospitaleiras, pelas campanhas em bem da sintaxe e da pureza da língua que comandou e venceu, na sua anônima labuta de redação.

O artista

O artista não desapareceu, com o caudaloso escritor dos artigos de combate, das notícias do dia, dos acontecimentos da praça. O seu gosto ambicioso de publicar livros harmonizou-se com as vicissitudes da carreira absorvente. A produção literária de Félix Pacheco é considerável, de começo leve e apaixonada, na última fase da vida lastreada de uma erudição perseverante e minuciosa que deixava pensar nas grandes realizações de sua inteligência, se a enclausurasse de vez entre as estantes da biblioteca que lhe arquivava o imenso material de estudo, juntamente com a vontade, sempre insatisfeita, de o utilizar afinal.

Nenhum volume, porém, pôde ele fazer fora da atividade jornalística.

Reuniu em tomos vários ensaios, que não deviam guardar-se nas coleções de O Jornal; deu longa vida a efêmeros trabalhos, provocados pela comemoração de uma data, pelo entusiasmo de uma discussão, pelo revide a uma injustiça ou no elegante interesse de um esclarecimento. O mais extenso dos seus livros, dedicado, com um luxuoso bisantinismo, a Duas Charadas Bibliográficas, nasceu de um cabeçalho aposto a certo artigo, da série dos seus sábios estudos semanais, de Afonso Taunay... Ressalta naturalmente, da vasta obra do jornalista, a vivacidade dialética que lhe acusa a procedência. A sua pena tinha de afetar uma posição de esgrima. Sacrificava a importância dos temas às talas da síntese. Angustiava-se e sofria, na ansiedade dos painéis retalhados, quando se sentia capaz de colorir as telas amplas que contém, iluminada e conjunta, a beleza das paisagens integrais. Tornou-se assim mesmo um impressionista da literatura. O estilista dos esboços. Um mago de tons intranqüilos que se alternavam no ritmo das tintas, um joalheiro de bagas que muita vez pareciam pérolas, e eram lágrimas, um escultor de imagens de areia, à espera do beijo irônico da brisa que carregaria com elas, surpreendido entretanto pelo milagre estético de uma transfiguração, quando, à luz da crítica inesperada, ressurgiam vazadas em bronze rutilante...

Apenas não estampava os seus livros para a larga circulação que mereciam.

Abusou do sibaritismo das edições limitadas, numeradas, endereçadas, seus mimos ricos para a amizade, adstritos às relações pessoais, combinando comovidamente com a arte, que pusera neles, o pudor em divulgá-los.

Sistematicamente não vendia as obras; galardoava com elas os seus preferidos. A estes reservava o direito de o conhecerem, no recanto de uma prosa suntuosa, na qual o espinheiro dos debates da imprensa todo se copava de rosas. Félix Pacheco realizou este amável paradoxo: o estadista da publicidade teve um receio quase pueril ao leitor irreverente; esquivou-se dele, porque o soubesse simplesmente e até o fim, jornalista, que lhe conversava, dia a dia assuntos práticos.

Que lhe entrassem a sua intimidade suavemente modesta, e fossem buscá-lo no fundo da gruta encantada, desencová-lo na penumbra feliz a que se recolhia, e o achariam, na surpresa dele próprio, – ao homem de letras que, por muito as cultivar, refugiou a desilusão e as dúvidas da existência, todavia triunfante, entre as lombadas polvilhadas d’oiro e os provectos cimélios de uma incomparável livraria brasiliana!

Chanceler

Por que foi ministro em 1922? Dir-se-á, pela senatoria perfeitamente preenchida, pela década consagrada à política militante, que o atraíra sem absorver, pelo Estado do Norte que representava. Foi chanceler, principalmente, porque diretor do Jornal do Commercio, elevados ao posto ele e este, num belo precedente aberto em honra do homem da pena, e do diário tradicional que o ajudara a subir.

O país assim, pelo menos, recebeu, aplaudiu a acertada escolha do presidente Bernardes.

O êxito do jornalista, e da profissão, deram-lhe um simbolismo espiritual que sensibilizou, também desvaneceu, a classe inteira.

Saía de uma redação para os conselhos do governo, em hora difícil, um antigo repórter policial, que jamais procurara a fortuna longe do barulho das máquinas de imprimir opinião.

Disto – permiti-me o testemunho individual – me recordo eu bem, da sensação causada, desta explicação que se lhe dava, prêmio retumbante, da mais desenganada e convicta vocação de folhetinista que o Brasil já produziu...

Reminiscência

Consenti, senhores, que, numa fuga de saudade, se me desprenda a memória, até aquele fim de tarde de 14 de novembro de 1922. Deixai que encontre, na Rua de São Clemente, onde um heráldico arvoredo dobra sobre o muro das chácaras as frondes musicais, um portão de ferro, que para mim costumava abrir-se com um gorjeio de pesados gonzos parecido com uma afetuosa palavra de acolhida... E que vos leve, por sob as ramas que coam um sol agonizante, até a mansão branca, e ali dentro, uma farta biblioteca onde, até o teto artesoado, os livros sábios dançavam diante dos meus deslumbrados olhos de pequeno provinciano a ciranda das cores e dos títulos... Pois estais comigo naquela data e naquela casa! Devo beijar, comovido, a generosa mão que se me estende. Envolvo num agradecido olhar filial o homem belo, de elevada estatura, os cabelos alvos dando à fisionomia severa e moça ainda um encanto de velhice precoce, nos lábios finos pairando um sorriso brando, os olhos negros e largos ardendo numa vivacidade curiosa e boa, que mandara chamar da Bahia ao parente estudante e rapazinho, para encarreirá-lo no trabalho, no dever e na vida... Parece que foi ontem: fico a reparar o místico efeito de luz nas repas brancas dos seus cabelos acamados sobre uma fronte alta e nobre, espécie de auréola de prata adejando sobre o semblante de uma placidez sem nuvens, um instante imóvel, na cintilação das pupilas a tremeluzir a grave excogitação dos problemas da pátria e do regime a que servia desde a adolescência, velho antes de tempo pelos sacrifícios que lhes dedicara, nunca mais dispensado de tudo lhes dar, e votar-lhes tudo, até o resto de uma existência exaustivamente vivida, que se lhe abreviou com os cuidados e as dores do Brasil, que tanto estremecia!... Disse-me, num fugaz devaneio, Miguel Calmon:

Félix Pacheco é o novo Ministro do Exterior... Chegou a essa posição com o Jornal do Commercio, fiel à vocação de homem de imprensa, que o é, entre os maiores. Tanto vale obedecer-se à inclinação, que, não sendo contrariada, conduz a um êxito necessário. A felicidade está afinal no trabalho que é prazer, e cumprido honradamente faz, em conjunto, a ventura da pessoa e o bem público. O caso de Félix é do jornalista que dignificou a sua carreira. Serve de exemplo para os que começam. E traz uma coisa nova para os nossos costumes políticos: é o apreço pela profissão, cuja sorte se confunde com a das democracias...

Não lhe esqueci as palavras oraculares. Através do cristal daquele juízo me habituei a ver o grande brasileiro, a quem sucedo, sem substituir, na Poltrona azul da Academia. Mas só tratei com ele quando, fora da política, tendo encerrado o seu fecundo e harmonioso ciclo administrativo, ressurgiu, completamente jornalista, no seu posto, à frente do Jornal do Commercio.

Miguel Calmon não exagerara. Em 1927 bati à porta do escritório de Félix Pacheco. Deparei com uma generosa fisionomia nortista inclinada, à luz verde de uma lâmpada que punha nos seus cabelos grisalhos uns tons fantásticos, sobre as tiras garatujadas de um artigo incompleto. A miopia aproximava-o demais do papel. Assim vergado, naquela penumbra macia, com a cabeça esverdeada como seria a de Baudelaire na esquisitice de sua boêmia, parado diante de sua escrita, lembrava um velho ourives mergulhado na meditação do seu lavor. Deixou-me um aflitivo minuto de pé, com os dedos enclavinhados nas laudas da colaboração. Pude demoradamente observar-lhe a linha ascética do rosto, a cabeça forte de homem equinocial, a majestade que a luneta de aros espessos emprestava à sua face de qüinquagenário pálido, dessa lividez claustral do homem sedentário, que trocou o disco de fogo do sol pela infinita impassibilidade de sua lâmpada de gabinete... Quando me deu a mão franca, foi com tão transbordante simpatia, com uma tolerância tão enleante de antigo coronel que acolhe sob as suas bandeiras ao recruta, apiedado e saudoso do que irá sofrer, que nunca mais o perdi de vista.

Bibliófilo

Retraíra-se excessivamente.

À medida que se ausentava do mercado das vaidades, arredondava o seu mundo interior. Ele vivia mansamente a divina aventura da abelha. Demorava-se no sossego perfumado do seu vergel. Descobrira-o e se fartava dele. O mel loiro de sua literatura proveio de um dos opulentos canteiros literários que o tino e o gosto de um bibliófilo souberam cultivar aqui. Era a livraria, prolongamento do lar, e este, aconchego, miúdo paraíso, supremo propósito de sua útil existência de homem de ambições realizadas.

A tradição da bibliofilia foi como um dos encargos, que a direção do Jornal do Commercio lhe trouxe, com o espírito e a responsabilidade da indústria, os deveres e as honras do seu tribunato.

José Carlos Rodrigues colecionara livros. Granjeou disso fama universal. Aquele homem americano tinha paciências de velho frade bento em juntar, anotar, comparar e catalogar quanto folheto de cordel ou cimélio sagrado outrora, no seu formato veneziano e no tipo de Elzevir, contou histórias de nossa História...

Félix Pacheco seguiu fielmente os passos ao seu predecessor. A paixão de os ter como que o consolava de não poder escrevê-los, no tumulto das atividades que o apartaram sempre da macia paz de uma banca de estudos. Inverteu nos livros todas as economias da vida sóbria.

Foi pródigo em comprá-los, e prodigiosamente avaro no jeito de encaixar as suas jóias raras da morta literatura, páginas únicas de bibliotecas mosteirais, maravilhas de imprensa arqueológica, nas arcas profundas de sua livraria, talvez aqui a mais seleta e rica de documentos sobre o Brasil.

Deveras, a afeição aos volumes é um modo próprio de querer as letras. Servem-nos uns com a boêmia indiferença de quem trata os clássicos sem olhar como vêm; outros só sabem apreciá-los na compostura das edições autorizadas. Livro encadernado é idéia vestida. Cada qual guarda os seus autores como pode recebê-los: maltrapilhos, com o ar banal de brochuras, na “vulgata” de meio tostão; ou embrulhados, no paramento doirado de sua roupa de gala. Estudante pobre tem o seu Pátio de Milagres. Engole o divino néctar em vasilha de barro. Conhece Homero em andrajos, os teólogos com o burel dilacerado pelos cardos da estrada, Camões devastado e faminto... Mas o amigo dos livros cerca-se do concílio dos bispos resplandecentes. O seu Dante, amoedado ao tempo do exílio do poeta, lhe pagaria um ano inteiro o pão negro da desgraça. O seu Milton requer diáfanas mãos de duquesa e o seu S. Tomás, de iluminuras finas, é digno de que o leiam os coros de anjos voejando sobre a policromia dos pergaminhos floridos...

É do padre Manuel Bernardes uma evocação da insólita grandeza do imperador da China, tão respeitado dos reis seus vizinhos que, vez houve, uma carta sua para o imperador do Japão (isto em 1596!) foi recebida na ilha dos sessenta e seis reinos como se fora, em pessoa, o próprio filho do Céu. Esperou a epístola fora da cidade a mesma liteira do Mikado, lavrada de oiro e púrpura que quatro cavalos puxavam, e daimiôs e samurais escamados e encarapaçados como grandes besouros de aço escoltaram gravemente o excelso papel de arroz...

Sabemos nós de colecionadores de inéditos que, se tivessem o aparato do neto do Sol, emprestariam carruagem, séqüito e pompa, para arrecadar e passear um mísero caderno escrevinhado, ao lume do seu candeio, pelo pobre frade d’Alcobaça das eras priscas! E mais dariam...

Félix Pacheco era o sibarita da livraria como poucos ousam, ou conseguem possuí-la. Mas não o interessava o alfarrábio só por si; prezava-o pelo que de nós dissesse. Era a “brasiliana” o seu sonho dileto. A ambição de ampliá-la guardando tudo, media-se pela extrema curiosidade, de tudo decifrar, na obscuridade da primitiva bibliografia nacional. Para ele, os problemas da nossa cultura ainda eram enigmas de arquivo, segredo de cartapácios puídos sepultados entre o lixo dos alfarrabistas. Recolhia-os com séria perseverança do artista de marchetaria que, aos fragmentos, tauxia lentamente um painel de mosaico. Reconstruía, peça por peça, a “vera efígie” do Brasil!

Volta à poesia

O casamento ambientara-lhe o destino construtivo. Completara-o. Fizera-o estável e ditoso, no seu círculo definitivo de poesia: o amor. Objetivou-se-lhe aí o Simbolismo. Os seus versos de beleza mais pura cantam as emoções simples dessa vida de integração e interiorismo, que a esposa amada, e afinal, meninas dos seus olhos, as duas filhas de peregrina inteligência e candura, Inês e Marta, lhe adornaram de todas as graças.

Os poetas são ao mesmo tempo enigmáticos e sinceros autobiógrafos, tanto por imaterializarem em devaneio o sentimento, até à mentira, como por no-lo publicarem, quente e exato, até à confissão.
Félix Pacheco, jornalista, político, administrador, na soleira do século se despedira do jovem discípulo de Cruz e Sousa que sonhava com Baudelaire, e a sua endemoninhada tortura.

Um tinha muito que fazer, e o outro, muito que cismar.

Decerto, por vezes, furtivamente, se viram, o trovador sem coragem de acercar-se do poderoso irmão homem do mundo, que o recebia, quando muito, em horas caladas dalguma noite insone, para lhe ralhar a fantasia e a inconstância. Até que um dia, a neve do primeiro inverno lhe alvejou a cabeça altiva, uns tons de ocaso pintaram o seu céu interior, e desceu a montanha enternecidamente, à procura dele. Por onde andara, trinta anos a fio? E que de substancial, de verdadeiro, de eterno, houvera no seu primitivo tormento de poeta dos símbolos?

Passa-se com ele um estranho fenômeno de reincorporacão.

Conta-se que o beato Pafnúcio, entre os cenobitas perfeitos o mais ilustre, indagara uma vez do Senhor, com quem se parecia, na simplicidade infantil de sua alma. Esperava ouvir do céu uma lisonja meiga. Parecer-se-ia com os príncipes da corte divina, com os serafins que entre eles tatalam as asas tenras, com a canônica população dos eleitos... Mas Jesus disse ao discípulo de São Macário: “És semelhante, ó presunçosa criatura, ao pobre músico que tange a sua flauta numa aldeia de Heracléia...”

Pois tinha ao pé o seu pobre músico, que desprezara tanto tempo!

Encontraram-se chorando. E não se separaram mais.

Reabilitou Félix Pacheco a musa juvenil, dando-lhe correta e primorosa edição; e ao culto do seu Baudelaire das exaltações literárias da primeira idade, ofereceu a mais copiosa e fervente homenagem que ainda se prestou, no Brasil, a poeta extinto e forasteiro... Poesias, publicadas em 1932, são o rosário de suas preces moças, outra vez repassado nos dedos trêmulos. Revelam-lhe um pouco a intimidade antiga, quando antes de resolver o seu problema sentimental com o casamento venturoso, admirou ao acaso, céptico, enervado, fatalista, uma nebulosa teoria de fantasmas femininos, que eram Rosa Inominada, a deusa Palas, a amante irreal, a namorada fluida, ou – para ser igual aos mestres tontos de absinto, ópio e pessimismo – a própria morte, Mors-Amor, supremo símbolo da escola, desde Edgar Poe e Baudelaire até Rimbaud e Valéry –, ou, esmagadora maioria, As Mentirosas...  

Essas lindas mulheres que eu cantava
Eram quimeras vãs do paganismo,
Simples feixes de luz que o simbolismo
Ia arrancar dos céus, e modelava.

Agitação indefinida, ânsia imprecisa...

Tudo que em ti fulgura afundarei no abismo,
Vencendo as tentações funestas de tua alma,
E arrastando-te o corpo aos ermos que transponho!

De heptacórdio nas mãos, sorrindo ao cataclismo,
Novo arcanjo revel, descreverei com calma
A morte vitoriosa eternizando o sonho!

Fora a sua fase de inquietação criadora e vaga, o seu drama entre tangível e absurdo, o determinismo da corrente poética a magoar-lhe a grande dúvida, a insatisfação pungente...

Na alvura sideral do meu amor de monge,
Plácido e austero amor apertado entre algemas,
Passo a vida a mentir, contemplando-a de longe.

“Ermitão mascarado” é o título de um soneto – grito d’alma, a confissão da dupla personalidade que o fará vencedor de si mesmo, mas perenemente condoído do seu heroísmo; petrificado de espanto no “jardim fanado”...

Deus meu! Que rude sol queimou sem pena assim
As flores do meu horto encantado e risonho?
Que rajada cruel, que vendaval medonho
Roubou desta maneira a vida ao meu jardim?
Pobre de ti, meu horto azul! Pobre de mim!
Sucumbiram de vez os símbolos do sonho...

Por isso a sensação do incorpóreo, a angústia do inviolável, a idéia da distância que se não vence, arroxeiam-lhe as estrofes de um triste delicado, que é a nota preferida de sua lira...

Musa, conserva sempre a doce calma!
Poeta só é quem sabe que a beleza
É um brando luar de amor cantando n’alma.

Assim achara Cruz e Sousa a sua Núbia, num cemitério, a mocidade namorando a morte...

Trêmula e só de um túmulo surgindo,
Aparição dos ermos desolados,
Trazes na face os frios tons magoados
De quem anda por túmulos dormindo...

A revolução estética do fim do século fora aquilo. A transição do Parnasianismo e do Naturalismo para o Simbolismo consistira na substituição da beleza sensível, exterior e falsa, pela alucinante realidade mental onde a luz, que se vê de olhos fechados, chamejava de encontro aos basaltos inverossímeis. “A glória do Simbolismo – definira Félix Pacheco – está em haver aberto caminho para outra visão mais sábia e mais comovente dos velhos espetáculos do mundo físico, em íntima conexão com as forças morais do homem...”

Passara a época da frase sonora e plástica. Fatigara-se a poesia de fitar os mármores clássicos; e dera de explorar os fundos segredos espirituais. Os marinheiros descobridores dos raros panoramas da arte se transformaram em sombrios térmitas de uma arquitetura interior. Entranharam-se, esses mineiros da alma, pelas cavernas onde as paixões ressoam, agrilhoadas... E voltaram, trazendo mãos cheias de diamantes!

A literatura é assim mesmo.

Hoje rebeldes, serão um dia conservadores e antigos os que injuriaram os modelos consagrados. A história, a cada passo, se repete. Todos os decênios, os que chegam trucidam figuradamente os que partem, e celebram, na sua festa triunfante, o bárbaro rito da morte dos deuses. A beleza – ilusão eterna! – é o que surge, e traz as tintas frescas da conquista. Voltas que o mundo dá – os deicidas de agora tombarão adiante enlaçados aos seus ídolos decrépitos ou, penitentes, deixarão lá fora, à porta do templo, as sandálias caminheiras, para arrastar a contrição tardia pelos recintos santos da arte perene! Há para tudo uma idade ajustada. Pensando nisto, pontificou Gabriel Hanotaux: Chaque génération a droit à son histoire de France...

Boileau afugenta os gongóricos, domina e dirige; mas Charles Perrault cedo o abate, com o argumento das formas modernas da inspiração. Os românticos expulsam os arcaicos dos teatros de Paris a apupos e cacete; mas os naturalistas os esperam, na encruzilhada do século, para destroçá-los – às aves noturnas do sentimentalismo – com o sol alto da realidade. O conflito rolava desde o limiar das eras. Não tem fim. Nem há de parar aqui. Confirma, porém, a razão decisiva das cousas: que por força de morrer como as rosas, a beleza é imortal como os rosais.

Foi uma vez no Congresso de Viena... Os diplomatas das autocracias partilhavam a Europa ao som das orquestras: e dançava-se... Perguntou o Barão Humboldt a Talleyrand, irônico e coxo como um diabo inválido: “E existirá o direito público?” Respondeu o francês: “Tanto existe, que é ele que nos reúne aqui!”

É a arte. Em seu nome, e por ela, negada e traída embora, a guerra dos estilos, parecendo a revolta do bom senso contra o artifício ou o gosto contra a convenção, é ainda culto e voto – nos altares do belo, imperecível!

Gatos de Baudelaire

A tribo simbolista tivera por totens os gatos de Charles Baudelaire, de pupilas e pêlo elétrico, em cuja cisma voluptuosa ondulavam indolências e mistérios que o poeta adivinhou... Cada época, cada estirpe de forte gente, cada um dos clãs históricos tem o seu animal predileto, um totem inconsciente... Hamilcar não largava um leão, o condestável de Montmorency o seu lobo, o duque de Vendôme um urso. O corvo de Edgar Poe é a invocação totêmica do pessimismo; o sedoso angorá de Baudelaire é o emblema do subjetivismo enigmático da nova estética. Nisso havia um pouco do sublimado interiorismo hindu dos sagrados vedas; do Chorus mysticus de Goethe; da solene antinomia da intuição ariana e do materialismo semita, resumiria talvez Stewart Chamberlain... Necessitava-se de um vidro mágico, que reproduzisse a misteriosa imagem da sensibilidade... Emprestou-o ao embruxado autor de As Flores do Mal o seu gato caricioso e heráldico: eram-lhe os olhos luminosos e doces...

Que lhe dizia o translúcido abismo? A festa dos sentimentos, a catástrofe das paixões, a glória da idéia e a tragédia da dúvida... Revelava-lhe as razões remotas, descortinava-lhe as perspectivas imaginárias, alumiava-as com um incerto clarão de sonho, paisagem fabulosa onde o conflito das almas rolava as altas flamas meteóricas...

Concordara Rollinat:

Je comprends que le chat ait frappé Baudelaire.
Par son être magique où s’incarne le sphinx...

Que os chineses viam a hora nos olhos dos gatos! O desvairado Charles quisera ser como eles... “Et si quelque importun venait me déranger pendant que mon regard repose sur ce délicieux cadran, si quelque Génie malhonnête et intolérant, quelque Démon du contretemps venait me dire: ‘Que regardes-tu là avec tant de soin? Que cherches-tu dans les yeux de cet être? Y vois-tu l’heure, mortel, prodigue et fainéant?’ Je repondrais sans hésiter: ‘Oui, je vois l’heure; il est l’Eternité!””

Justifique-se como for possível esse meigo terror sagrado do bichano turco que o fitava com a diabólica fixidez do seu olho hipnótico...

Chateaubriand habituara-se aos gatos, e a sua estéril familiaridade, para bem sofrer a ingratidão dos homens, segundo o ínclito exemplo do nosso D. João de Castro, que no seu jardim cultivava as árvores que não dão fruto, por se acostumar, na sombra da figueira maldita, à vulgaridade do benefício sem recompensa... Assim mesmo, Paul de Saint-Victor lhes miniaturara a carta de nobreza, acentuando o perfil acadêmico dos gatos, desde que Paradis de Moncrif, um árabe de alma chinesa, escrevera a história da espécie...

Qu’on m’aille soutenir, après un tel récit,
Que les bêtes n’ont point d’esprit!

De intelectuais, sim, de feiticeiras, de sortilégios, de hierofantes e mágicos alquimistas, dizem que o animal só uma vez se aproximou do céu: protegido de Santo Ivo, padroeiro dos advogados e – não sabemos por que afinidade entre estes e eles – único santo da corte celeste que o tolera! Mas as suas pupilas irisadas eram lâmpadas acesas na noite de Torquato Tasso, e a sua digna alegria fazia pensar a Montaigne que, em vez de brincarmos com os felinos, são eles, ai de nós! que brincam conosco... Petrarca, Hugo, Sainte-Beuve, Gautier lembravam-se, supersticiosos, que tinham sido eles deuses no Egito: e acariciando a minúscula cabeça de tigre de Tanagra que um misterioso e vago sono derrubava sobre as patas de veludo, julgavam – poetas! – aplacar os espíritos do vale dos mortos e das catacumbas faraônicas, as sagradas influências das eras egrégias e o longínquo assombro que vinha rolando, pela escala dos séculos, desde que os homens ímpios tinham deixado de crer nesses macios descendentes da Esfinge...

De tanto procurar entendê-los, Baudelaire se confessou um pouco de sua tenebrosa linhagem!

Dans ma cervelle se promène,
Ainsi qu’en son appartament,
Un beau chat, fort, doux et charmant.

Companheiro da solidão amaldiçoada do poeta, parceiro dos seus silêncios apavorados, ternura muda junto de sua febre histérica, tomou-lhe na vida o espaço dos afetos obsessivos.

Félix Pacheco traduziu, anotou, elucidou, com uma curiosidade infatigável, a estranha lírica do mestre. Por devoção dele esqueceu os astros menores da escola, desmaiados na irradiação do mistério baudelairiano. Queimou-lhe um incenso permanente e odorante. Consagrou-lhe um humanismo universal e aparatoso. Remontou, com a tenacidade do seu culto, às próprias fontes da inspiração menineira, ao tempo longe da sua idolatria de Cruz e Sousa, ao encetar a carreira, nas tardes de indignação literária, quando os novos anjos caídos da Poesia vaiavam o Parnaso dos soberbos Propileos e dos vocábulos doirados. De resto, concluía o seu ciclo. Poderia repetir a palavra de São Paulo: “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé...”

Madrugara poeta. Vivera foragido de beleza ideal para algum dia a tratar, com os vagares prósperos de quem não compreendia mais a arte como um lento veneno que inebria e mata, porém como antevisão milagrosa do que a natureza tem de harmonioso e santo. Ao termo do seu dia cheio, novamente dedilhava a lira para cantar o crepúsculo, a melancolia da claridade que se vai e, lucilando na treva, a estrela vesperal da crença...

Espiritualidade

Admirável lição de espiritualidade foi essa, o testamento intelectual de um homem de Estado em época aflitiva do universo e de sua pátria!

Não temos de ler-lhe apenas as estrofes: compõem a ornamentação acadêmica de uma grande vida que se extingue.

Precisamos sentir-lhe as razões.

Tardia porventura, a poesia é em Félix Pacheco – perto do fim, o seu protesto de fé, o guião que o levanta, o compromisso que renova, de fidelidade à inteligência na hora materialista, de veneração do espírito e do amor quando, por toda parte, o pragmatismo rude separa o pensamento do coração.

Político de nascença, ainda nisso morreu político; fez, ousada e larga, a política da sua arte. A reação da beleza contra os que a ignoram. A oposição da crença à iconoclastia, à barbárie. A guerra da harmonia contra as dissonâncias mentais. A luta do sentimento contra a desumanização do homem. Se pretendem despojar os altares, arrasar os mármores imortais, queimar a floresta das emoções, por que não haja mais ramo verde onde pousem – andorinhas da estação feliz – as asas do verso, o momento é chegado de bater-se à porta da mansarda onde se fitam, estuporados, Baudelaire e seu gato...

Pois a crise é moral, regenere-se a alma, pela sublimação da realidade. Substituam-se os sentidos da existência para que esta se prolongue, fecunda e digna. Recuperem-se os valores dissipados e restaurem-se os impulsos exaustos. Se os lumes da costa agonizam no cimo das torres, renovemos o fanal da navegação, por que os que andam pelo mar se orientem, na treva e na procela. Vacilou no frio clima do negativismo a luz do espírito? A morte da poesia coincidiria com a morte da sociedade. Não é a estrutura dela que se acha em perigo, é, mais nobre que os direitos do homem – o seu humanismo, o privilégio de ser feliz, e cantar a sua felicidade debaixo da curva azul de um céu compassivo... A sua capacidade de idealizar a natureza, a faculdade de integrá-la na sua sensibilidade pelo milagre do subjetivismo poético, a maravilha de participar o artista da substância e do drama das cousas pelo sagrado mistério da intuição lírica. Que venha depois a geração anã dos sub-homens, a liliputiana fauna dos atrofiados, pela máquina que os produziu em série... Le petit Augias veut le petit Hercule... Força será oferecer-lhes – para que se salve o patrimônio espiritual dos dois milênios – o contraste das passadas gerações de super-homens, ébrios do dionisismo da vontade e da audácia, de que falou Nietzsche. Os titãs ensinarão aos pigmeus, como ensinava o Messias: “As cousas que eu vos falo, não as digo de mim mesmo...” Ou, pelo menos, serão como essas catedrais seculares, cuja profusa e mística beleza derrama sobre as multidões que lhes admiram o bordado de pedra, o pavor e a bênção das obras bafejadas pelos fôlegos divinos!

Orquestra de Prelos

Uma das grandes páginas de Bourladoue é a em que celebra a espantosa profecia de Ezequiel, lançada sobre o povo incrédulo e rebelde, impertinente na dúvida e insolente na infidelidade, que tantas vezes ouviu como desdenhou o verbo sagrado, na obstinação de um cepticismo sem consolo.

Então lhe disse o celeste mensageiro: Não desataria o Senhor sobre as suas cidades empapadas de pecado os flagelos, que corrigiam, acabrunhando, aterrorizando, convertendo populações suscetíveis de emenda. Fora o castigo dos preferidos e amigos de seu Deus. A Nação, desgraçada entre todas, sofreria a pena suprema do silêncio. Deixaria que a sua cólera repousasse nela, e por ela: Requiescat indignatio mea in te. Que significava isto? Que a punição que estrondeava em trovões, e amedrontava, e consternava, era a cólera do perdão; mas a que parecia acalmar-se e apaziguar, seria, muda como os túmulos, a cólera de danação! Nem a exprobração que pune e regenera, nem a penitência dos erros redimidos, nem a expiação das culpas relevadas: mas – sentença para os crimes incomparáveis – o ilimitado vazio do remorso...

Assim acontece no mundo do espírito e nos países livres.

A imprensa, que se acalora nos grandes tumultos, que agita e alenta os fogos do céu, que traduz os gemidos e clamores da alma social na borrasca flagelante que está no destino e na dignidade da evolução humana, imita, na terra, a cólera do perdão. Permite-a o Senhor de Ezequiel, para os povos amigos e preferidos de Sua ilimitada magnanimidade!

Mas onde ela silencia na estupefação da grande atonia, a voz estrangulada, o pensamento ocioso, a atitude paralítica, as cavernas da consciência respirando o contágio dos pauis letais, no ar em volta a tristeza pasmada da vida sem sentido, repousando sobre a Natureza enjeitada o abandono da justiça, que se cansou de castigar, aí repete na terra a cólera de danação!

Foi a palavra do profeta; também – do mais fundo dos tempos – a advertência da história.

Veja-se a Índia. É o Éden e o inferno da espécie, na ferocidade fecunda e monstruosa da Natureza: moram acolá, entretanto, fustigados por todos os flagícios e mimados por todos os tons do céu, centenas de milhões de criaturas comovidas e apavoradas, amantes da terra tecida de catástrofe e idílio, de cataclismo e volúpia, de perdição e felicidade, na trama dos climas e dos imprevistos!

Mas a paz do Saara, a calma infinda do desertão, cuja toalha de areia resplandece, imaculada, debaixo de um firmamento tão mudo e tão luminoso; a serenidade do mar morto, pelas suas águas rebalsadas e densas boiando a desolação bíblica do povo condenado; as calcinantes planícies jamais puderam juntar a coragem, a alegria, a esperança e o amor, materiais de que se constrói, peça por peça, a alma social...

Que sacudam, pois, as nações, os temporais complacentes. Que lhes incinerem a vegetação daninha e torva as labaredas do céu; que a luta do pensamento lhes emborrasque e aqueça os horizontes, nas convulsões aéreas que limpam os espaços e deixam na paisagem terrificada um divino alento de criação; que se processe a fatalidade da cultura, segundo as leis do universo, que alternam a noite com a alvorada, a hecatombe com a renovação, a morte com a vida. Que pulsem as forças mentais; que seja livre a inteligência, amanhã como outrora, na compostura e no estoicismo socráticos de sua dialética sem mentira, e assim dirija e governe o mundo; que o espírito sobreponha aos rasos interesses que passam os seus eternos direitos!

Disse Aristóteles que era preciso escolher, e ser planta ou homem.

Os que preferiram vegetar, no seu tranqüilo ciclo biológico, cumpriram o vocativo do Evangelho: Deixareis que os mortos enterrem os mortos. Porque uns aos outros se sepultarão, “no silêncio dos espaços infinitos”, que tanto medo fazia a Pascal...

É esse orientalismo que horroriza o inquieto homem novo!

Embriaga-se a civilização, que valoriza e aperfeiçoa o homem, na protofonia dos prelos.

Epílogo

Foi a bárbara música que, desde a infância em Teresina, até os dias finais, ouviu Félix Pacheco, maestro predestinado dessa orquestra de máquinas, que trituram e panificam o santo pão da idéia.

Feriu-o a moléstia, quase fulminante, que no-lo arrebatou ao nosso convívio e ao apreço do Brasil, em plena, esplêndida animação dos seus talentos, ressentidos apenas da idade naquela ascensão gradual, para as claras esferas da arte pura.

Mas, do seu leito de agonia, dirigia ainda o Jornal do Commercio, general tombado no fragor da batalha e que daí não se arreda, acenando o seu gesto de comando até o momento extremo.

O poeta morreu como Schiller: “Sempre mais tranqüilo...”

Morreu o jornalista como Bayard: de encontro ao coração a cruz da espada, no campo da luta, e para ela voltada a face arrogante e leal!

Exaltação

Foi tudo o que quis, porque pouco mais do que jornalista quisera ser.

No arfar das rotativas, no fragor dos linotipos, na frenética ebulição de sua oficina, na harmoniosa colméia do seu trabalho, não ouvia apenas os estridores da indústria entoando a melodia do progresso. Escutava o ritmo forte e sereno do coração do seu país!

Não é piedade, senhores, não é só homenagem e respeito, a obrigação que comete a Academia Brasileira aos que lhe entram os umbrais, de modular a nênia e declamar o elogio em honra do grande morto que ela transporta do olvido e do limbo do mundo para o Pantheon dos seus espíritos tutelares. É um rito cívico, é a sua nobre religião doméstica, é a fé que professa, nos ilustres exemplos de que se ataviam, ad immortalitatem, a sua reputação e a sua glória.

Enlaça com isso de flores uma cruz, a mais recente do pequeno campo-santo onde lhe verdejam os loireiros egrégios, e faz amavelmente da morte a estética e o exemplo das vidas que não morrem.

Prêmio delas, orgulho nosso, louvor comum, a comemoração que lhes tributamos é também juramento.

Que na pira sagrada não esmoreça a chama que ilumina, para além da terra, as fontes inexauríveis da beleza generosa e perene, e unidos junto do clarão celeste continuemos a confiar na arte que redime a inteligência, na bendita ilusão de suas promessas, nas suas miragens que enfeitam e corrigem o infinito deserto da alma... E no esplendor da idéia, no tormento do estilo, na alegoria das abstrações que recamam de rosas este “vale de lágrimas”, a ronda dos sonhos tranqüilize, nas suas noites prateadas de luar, o Brasil que canta e que ama!