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Discurso de recepção

Discurso de recepção por Olegário Mariano

RESPOSTA DO SR. OLEGÁRIO MARIANO

SENHOR Guilherme de Almeida,

Quis o destino, – caprichoso pastor de almas –, que se cumprisse, vinte anos decorridos, o vaticínio de um poeta que vos augurou um dia, num surto de entusiasmo, um lugar aparte na história da literatura brasileira. É que os poetas, nos dias que correm, representam o mesmo papel dos profetas do judaísmo.
São Paulo atravessava por essa época um período de extrema crise literária. Poucos nomes nas ciências, nas artes e nas letras conseguiam impor-se à indiferença do meio hostil. Remanescentes de várias escolas debatiam-se na mais árdua e dolorosa das incertezas, tentando a escalada da glória prematura. Outros, mais descuidados e menos precavidos, contentavam-se com esbanjar às mancheias pelos grupos, na redação da Cigarra, ou nos cafés boêmios do Triângulo, a pilhéria embuçada no anonimato que, como uma seta ervada de ironia, voava de boca em boca, ferindo a este ou àquele pseudo-homem de letras. Era o abrolhar da semente que Emílio de Meneses deixara cair no solo fértil de algumas inteligências de São Paulo, preparadas, sem dúvida, para mais altos torneios de galanteria intelectual. Ele que fizera da cidade tranqüila um palco de exibições desopilantes, criara no ânimo da geração inexperiente a volúpia inédita do humour manipulado a seu jeito, torcendo destarte o destino de todos aqueles que se deixaram levar pelos seus encantos de humorista de gênio. Daí por diante, no terreno literário, terçar as armas consistia em molhar a pena no veneno mais cruel e ferir com ela o adversário indefeso, que aparava o golpe sorrindo, como a bendizer a fonte de onde provinha a inteligência da perfídia. De qualquer modo, nunca amaldiçoarei a irreverência do grande poeta dos “Três olhares de Maria”, nem o ambiente por ele criado, porque lhe devo o primeiro contacto convosco e com a vossa arte, Sr. Guilherme de Almeida.

Éreis, se me não engano, uma das poucas ovelhas tresmalhadas, daquele armento agitado.
De índole diversa, amando acima de tudo a beleza da vida pura, representáveis, sem louvor, o único romântico que vinha, no momento, realizando a obra que se me afigurava um evangelho de lirismo em meio à descoordenada balbúrdia ambiente. Fazíeis ressurgir diante da displicência dos homens a poesia lírica que encarnava o objeto da minha única preocupação na vida, essa poesia cujos motivos emergem da onda anônima, vindos não se sabe de onde e que entretanto representam ainda o patrimônio melhor que nos legou a nossa raça carcomida pela fatalidade étnica de três heranças mal aventuradas.

Começou então a agitar-se em torno de vós, numa inquietação de abelhas ávidas, o bando alvoroçado dos críticos da terra, de rude aspecto e péssima catadura, de escalpelo em punho, esmiuçando, procurando, retalhando... Não acreditavam em vós, Sr. Guilherme de Almeida, porque não havíeis trazido para a vida monótona da cidade da garoa os cabelos verdes de Baudelaire, nem a orquídea cenográfica de Oscar Wilde. Pobre de vós, que viestes sutilmente, com pés de lã, atravessando a filigrana da chuva paulista à feição dos que passam pela vida sem se aperceberem do que vai por ela. E a cidade que vos deu no sentimento da garoa a meia-tinta dos crepúsculos humanos, mal demorou os olhos sobre a vossa cabeça sonhadora, mal sorriu à vossa passagem, porque éreis apenas, na vossa adolescência tropical, um transeunte a mais na vida citadina.

Cidade tentacular, convulsionada pela ânsia trepidante de milhares e milhares de autômatos do trabalho, poucos momentos dispunha para dedicar à sombra passante de um poeta. Amastes, sem embargo, esta cidade e dela fizestes a moldura íntima onde se agitaram os aspectos panorâmicos da vossa vida. Dentro dela, criastes, à maneira de Murger, longe dos homens, numa atmosfera de mundos altos, a vossa boemia silenciosa e egoísta. Reter a mocidade como retivestes a vossa, é o segredo dos milagres divinos. Ensinastes o amor a uma geração inteira, mas como vos não habituastes a sacrificar a beleza da idéia pela tortura da forma, só muitos anos depois vistes celebrada a glória que vos acenava e sorria. Acreditai que esse laissez-aller meu e vosso criou para nós ambos a lenda de poetas de vôo curto e vida efêmera. Não poderíamos, na opinião desses senhores truculentos, ter as honras de poetas à altura, por não havermos ainda descoberto os enigmas da ciência ou da filosofia. Mal sabiam eles que a restrição, as mais das vezes, adorna o aplauso.

A demonstração de que aquelas críticas mal humoradas vos não desnortearam o rumo artístico, é que continuastes a criar os mesmos poemas ungidos dessa sensibilidade que se comunica às almas e nelas se infiltra, abrindo claridades na imaginação e despertando reminiscências consoladoras. Éreis, repito, o único romântico que, conduzido pelo coração, continuava a obra dos seus irmãos mais velhos, sonhadores que viam na arte, como Vincent d’Indy, “o único meio de vida para a alma”. Se por um lado os eternos mutiladores de ídolos descobriam deslizes e restrições na vossa obra, tivestes por outro lado o elogio unânime das multidões embaladas pela música enternecedora da vossa poesia – espécie de espelho de mil faces onde as almas sensíveis encontravam, a cada passo, ampliados pela força de uma imaginação criadora, os suspiros magoados, as vigílias intermináveis, as queixas sem remédio, as renúncias redentoras, os arrependimentos que chegam tarde e os desvarios que chegam cedo, toda essa escala cromática de sensações que vem alimentando através de séculos e séculos a história amorosa da humanidade.

Devemos a essa primeira floração do vosso espírito as páginas comovidas do pequeno poema “Nós”, breviário de sofrimento sobre o qual, numa displicência de nababo, derramastes, em torrentes de lirismo, o sangue novo que hoje circula nas veias de todos os trovadores líricos do Brasil, desses que enfrentaram de peito aberto a avalanche parnasiana e conseguiram fazer com que predominasse como finalidade lógica de todas as escolas, – o eterno lirismo brasileiro. O lirismo que teve a sua origem na poesia imaginativa do nosso folk-lore, que criou raízes supersticiosas na crendice do povo, que floriu de lenda em lenda e frutificou de alma em alma, que pela boca ingênua de Casimiro chorou a saudade de uma raça espoliada, que pela voz das fontes humanizou as árvores, que pela magia das noites brasileiras ensinou às criaturas de Deus o sofrimento extático que vem das coisas resignadas da terra, esse lirismo não podia desaparecer sem que com ele ruísse num fragor de frondes desmoronadas, de galhos retorcidos e ninhos estilhaçados, a estrutura da árvore a que aludistes no vosso formoso discurso, brotada em terras de além-mar, há dez séculos, entre oliveiras, laranjeiras e amoreiras.

Mercê desse lirismo, sentindo na vossa profissão de fé o mesmo ideal novelesco que tumultuava na minha imaginação febril, nunca mais deixei que vos afastásseis do meu caminho, procurando encurtar distâncias para acompanhar os passos que vos conduziam rumo da glória.

Tocados pela flama do mesmo idealismo, momentos houve em que me parecia sermos uma só personalidade desdobrada em duas, levando ambas pela vida a desgraçada missão imposta pelo destino de cantar como as cigarras para comover a impassibilidade das formigas. E as formigas acordaram envergonhadas de haverem passado tanto tempo adormecidas. Acordaram para sentir a vida nos seus aspectos inéditos e desconhecidos.

A ton ideal, ouvre ton âme,
Mets dans ton cœur beaucoup de ciel!

Todas as almas se escancararam para que entrasse a chuva de estrelas que os vossos poemas espargiam.
Com o correr dos dias, identificado com a alma do povo que vos acompanhava de mais perto, começastes a desfiar vosso rosário de contas de ouro: A Dança das Horas, Messidor, Era uma Vez, Livro de Horas de Soror Dolorosa, Natalika, A Frauta que Eu Perdi, Encantamento, A Flor que Foi um Homem, e Simplicidade.

Antes de iniciar a minha peregrinação romântica pelas páginas de alguns desses poemas, permiti que diga de vós o que de Verlaine disse Rodenbach: “Ele escreveu como se rezasse...” Era bem uma oração dita em voz de confidência aquilo que de vossa boca saía.

Compulsemos primeiro o breviário inicial da vossa vida, onde espalhastes, em sonetos líricos admiráveis, toda a seiva da vossa alma apenas desabrochada:
Eu não fui mais que um cético suicida
que passou pelo mundo indiferente,
a passos leves, esbanjando a vida,
prodigamente, perdulariamente,

– É um pobre moço! Um doido! Nem duvida
dessa mulher! – dizia toda a gente.
Mas eu passava de cabeça erguida
e te levava a vida de presente.

Dei-te quanto pediste. Ingênua e nua
minha alma toda ficou sendo outrora,
tua, só tua, unicamente tua.

Quis dar-te mais; tu nada mais quiseste!
Pelo bem que te fiz, padeço agora
a saudade do mal que me fizeste.
                                 ___________

Mas não passou sem nuvem de tristeza
esse amor que era toda a tua vida,
em que eu tinha a existência resumida
e a viva chama de minh’alma, acesa.

Nem lemos sem vislumbre de incerteza
a página do amor lida e relida,
mas pouquíssimas vezes entendida,
sempre cheia de engano e de surpresa.

Não. Quantas vezes ocultei a minha
dor num sorriso! Quanta vez sentiste
parar, medroso, o coração de gelo!

– É que nossa alma às vezes adivinha
que perder um amor não é tão triste
como pensar que havemos de perdê-lo.
Estes dois sonetos bastariam para caracterizar um poeta. São verdadeiros retratos psicológicos. Mas continuemos a nossa jornada através da “dança das horas”.

Frêmito de asas, vibração ligeira
de pés alvos e nus,
que dançam, tontos, como dança a poeira
numa réstia de luz...

São as horas que descem por um fio
de cabelo do sol,
e vivem num contínuo corrupio,
mais obedientes do que o girassol.

Dançando, as doze bailarinas tecem
a vida; e embora irmãs,
não se vêem, não se dão, não se parecem
  as doze tecelãs.

E de mãos dadas, confundidas quase
no invisível sabbat,
elas são silenciosas como a gaze
ou farfalhantes como o tafetá.

Frágeis: têm a estrutura inconsistente
da teia imaterial,
que uma aranha teceu pacientemente
nos teares de um rosal.

E entre tules volantes, noite e dia,
o alado torvelim
vertiginosamente rodopia
numa elasticidade de Arlequim!
Vêm coroadas de rosas, num remoinho
cambiante de ouro em pó:
cada rosa que esconde o seu espinho,
dura um minuto só.

Sessenta rosas vivas como brasas,
traz cada uma: e, ao bater
da talagarça diáfana das asas,
põem-se as coroas a resplandecer...

À proporção que gira à minha frente
o bailado fugaz,
cada grinalda, vagarosamente,
aos poucos se desfaz.

E quando as doze bailarinas, feitas
de plumas, vão recuar,
levam as frontes claras e perfeitas,
circundadas de espinhos, a sangrar...

Assim, depois que a estranha sarabanda
na sombra se dilui,
penso, vendo o outro bando que circunda
em torno do que fui,

que há uma alma em cada gesto e em cada passo
das horas que se vão:
pois fica a sombra do seu véu no espaço,
fica o silêncio dos seus pés no chão!...

Não, não é o silêncio que fica da dança das horas, – o que perdura é a ressonância que os versos deixam à flor das almas.
Ouçamos agora o “Momento do Amor”:
O relógio de mogno, antigo, grave, enorme,
dorme
na angústia silenciosa
dos imensos salões abandonados,
na alma dos Gobelins, na vida misteriosa
dos espelhos fanados...

Dorme parado e marca
uma hora do passado, uma hora velha, uma hora
de outrora...
E lembra-se da mão que abriu um dia, uma arca
de pau santo e tirara a peruca, os pantufos
e o vestido de tufos,
para o minuete
sobre a volúpia do tapete...

E recorda-se então da marquezinha empoada
afogada em cetins, espartilhada:
uma estatueta de faiança...

E do cravo de Holanda que rompera
os compassos de uma dança
que era um sonho de sons na tarde cor de cera...

E do galante fidalgo
que, apoiado ao bastão de porcelana,
num passo airoso de galgo,
leve como uma renda valenciana,
tomara docemente a mão medrosa e pura
da Marquesinha toda século XVIII,
e numa velha mesura,
com muito de cortês e algum tanto de afoito,
como se todos os sentidos,
aflorassem-lhe à boca num momento,
beijou-lhe os lábios distraídos
num beijo esplêndido e violento.

O relógio viu tudo...

E no velho silêncio de veludo
que a música rascante desse beijo
bruscamente eriçou,
tremeu, ciumento e mudo, à frente do cortejo
das horas: e parou.

Parou... E agora imóvel mas radiante,
vive marcando com saudade
o instante desse beijo, aquele instante
que ficou sendo uma serena eternidade.

Há corações que param no passado...
No seu silêncio sagrado
eles repetem agora
um silêncio de outrora...

É o silêncio que existe na furtiva,
na saudosa atitude
da boca que se entrega ou que se esquiva,
da mão que diz adeus ou que atira uma flor.
Porque há uma eternidade, há um céu que não ilude
no momento do amor.

Quantas vezes eu disse a mim mesmo a história galante deste poemeto que tanto me encantava! Ele faz pensar. Ele recorda ao poeta palaciano e fidalgo uma porção de pequenas cousas que não ocorrem a todos. Mas é preciso continuar a divina colheita no Messidor, do qual destaco o soneto alexandrino do pórtico que é, por exemplo, de uma perfeição de obra-prima:

Sob um signo propício e um céu de bom agouro
semeei. A messe aí está. Pensa agora um segundo
que não valem os grãos que há nesse campo de ouro
o que um só me custou das dores deste mundo!

Para amadurecer o Messidor vindouro,
quanta vez vi sangrar o chão rude e profundo;
e o céu chorar a chuva; e o sol paciente e louro
suando a vida, subir seu calvário fecundo!

Colhe agora! E se houver papoulas na áurea trama
dos feixes, pensa então nalguma primavera
que passou como passa uma mulher que se ama...

E leva-as em sinal dessa desconhecida
por quem o semeador semeia o grão que opera
dentro da terra morta, o milagre da vida!

E o milagre da vida se opera na vossa “Saudade”, que é sem louvor a página mais sentida do pequeno escrínio que guarda os “últimos românticos” do Messidor:

Só –
para além da janela,
nem uma nuvem, nem uma folha amarela
manchando o dia de ouro em pó...
Mas aqui dentro quanta bruma,
quanta folha caindo, uma por uma,
dentro da vida de quem vive só!

Só – palavra fingida,
palavra inútil, pois quem sente
saudade nunca está sozinho, e a gente
tem saudade de tudo nesta vida...
De tudo! De uma espera
por uma tarde azul de Primavera;
de um silêncio, da música de um pé
cantando pela escada;
de um véu erguido, de uma boca abandonada,
de um divã, de um adeus, de uma lágrima até!

No entanto, no momento,
tudo isso passa
na asa do vento,
como um simples novelo de fumaça...

E é só depois de velho, uma tarde esquecida,
que a gente se surpreende a resmungar:
“Foi tudo o que vivi de toda a minha vida!”
E começa a chorar.

Como poderei conter agora a onda de emoção que cresce na minh’alma ao tomar nas mãos trêmulas a vossa “ânfora de argila” que Sóror Dolorosa me estende num gesto de boa Samaritana?

Está cheia demais minha ânfora de argila.
Transborda a essência: és pobre e eu posso reparti-la
contigo, ó tu que vens de tão longe e tão perto
passas de mim! É longo, e estéril o deserto...
Meu vinho é puro e toca os bordos do meu vaso:
antes que o beba o chão, peregrino do acaso,
chega-te e vem matar no bocal generoso
a eterna sede do teu cântaro poroso!
Enche-o e parte! Depois, olha atrás... e recorda!
Todo amor não é mais do que um “eu” que transborda.

Deveis compreender que o meu desejo seria ir desfiando, noite adentro, o vosso interminável colar de estrelas. Estou certo que daria aos que me ouvem um encantamento quase voluptuoso; mas o tempo alvoroçado não espera. Se ele parasse, como parou no mostrador cansado daquele relógio de mogno, teríamos nesta sala, perpetuada em êxtase, a eternidade da vossa glória.

*  *  *

Um dia, desencadeado de norte a sul, um temporal violento como um bando de centauros desbocados, quebrou a tranqüilidade da vida mental dos povos. Vindo não se sabe de que paragens remotas, ameaçava arrastar na fúria a solidez secular de todas as cidadelas acadêmicas, de todos os monumentos arquitetônicos, de todos os templos e de todas as galerias de arte a que chamavam passadista. Reminiscências históricas, tradições de pátria e de família, velhas casas solarengas de antepassados, tudo seria arrastado no torvelinho diabólico para a destruição e para a morte, afim de que se alevantasse das ruínas sagradas dos templos, das academias, das casas solarengas, – a grande cidade, a cidade fabulosa do futuro.

O temporal, entretanto, não era tão feio como parecia. Operado o milagre do dilúvio, as águas desceram, as bátegas da chuva transformaram-se em estalactites cintilantes, abriu-se um grande arco-de-aliança no céu sem raias, e as nuvens que se contorciam agitadas, se transmudaram em bandeiras brancas como asas de pombas em revoada, sob as quais a alegria dos homens veio comungar com a alegria da terra farta de tanta flor e de tanto fruto. E como as chuvas fecundantes preparam as searas para melhores colheitas, irrompeu destarte num sopro de brasilidade, a floração magnífica de poetas que por aí andam aos pares, aos bandos, – apóstolos da escola creacionista, é verdade, – mas sempre poetas, semeando as suas idéias e acordando de qualquer modo o marasmo em que a vida de muitos deslizava.

Aflorando dessas correntes agitadas ao impulso de novos ritmos era pois natural que, a exemplo de alguns, atirásseis dos ombros a velha túnica de preconceitos que vínheis arrastando. Para quem não acredita em teorias estéticas predeterminadas, a arte de renovar-se é sempre digna de aplausos, principalmente quando se consegue, como vós, manter, através dela, o equilíbrio mental, a destreza elegante, a elevação de pensamento e a pureza de conceito. Poeta de raça, não traístes jamais a vossa profissão de fé. A vossa arte, malgrado o movimento que se operou nos meios intelectuais do país, parece não haver sofrido nenhuma solução de continuidade. Que poderão, portanto, dizer de vós os negativistas sistemáticos, se os vossos poemas ágeis, flexíveis, elásticos, musicais, continuam a manter na corrente moderna as mesmas qualidades que sempre os singularizaram na antiga? Isto vem provar que o entrechoque das escolas não conseguiu contaminar a vossa fibra virginal de poeta autêntico. Aí estão, como exemplo, o “Meu” e a “Raça”, poemas modernos de uma rara opulência de ritmos, onde um colorista admirável conseguiu fixar aspectos de uma realidade tão flagrante que temos, às vezes, a impressão de ver a natureza palpitar fisicamente dentro deles.

Vejamos a formosura desta alvorada do poema “Meu”:

Imobilidade alva da alvorada branca
toda enfeitada de miçanga.
As folhas estão paradas nos ramos quietos
para refletir ainda as últimas estrelas;
na grama as gotas de água são olhos abertos
para elas porque a terra ainda quer vê-las.
E esse fio teso prateado
que de um galho uma aranha deixou escapar
parece um fio de chuva paralisado
no ar.

Que pintor impressionista conseguiria realizar, em pinceladas breves, um quadro tão perfeito?
E a hora propícia? Que dizer do bucolismo penetrante, da fina sensibilidade que ressalta dessa pequena “impressão” colorida como a asa de um inseto?

Hora de se pensar em voz alta
no terraço das trepadeiras.
A claridade quase morta
esmalta
os vidros da janela e borda
de fios de ouro o leque das palmeiras.
Hora em que não há mais distâncias; hora
em que a primeira estrela vem ouvir na sombra
o canto verde da primeira rã;
em que cada palavra tomba
e se desenrola
silenciosa como um novelo de lã.

Parece que a feitura desses poemas modernos já não deflue naquele laissez-aller de que falei em começo. Agora é o artista lapidário que trabalha os diamantes para que saiam de suas mãos cuidadosamente perfeitos. Não sei, entretanto, se serão mais lindos que os primeiros:

Nós. Donatários? Caciques?
Zumbis? – Qual! Poetas e poetas
e poetas e poetas!

Ritmo do sangue, ritmo da terra,
ritmo da vida: do sangue que corre
nos corpos tostados e sãos;

dos rios que correm na carne da terra; da
vida que corre abrindo caminhos – vergões
na prole do chão...

Ritmos brancos, ritmos verdes, ritmos pretos
– soluço de galés
estertor nas golilhas
arquejos sob cangas...

Ritmos de vozes longínquas
– fados namorados
borés ferozes
umbigadas bambas...
Ritmos de cores
– nas naves brazonadas
nas armas emprumadas
nas listas das tangas...

Ritmos de danças suadas
em torno do engenho
em torno da maloca
em torno do tronco...

Ritmos de linhas torturadas
– mastaréus espigados
tatuagens selvagens 
ângulos broncos...

Ritmos frouxos de luzes
– tochas de procissão
fosforescência na lagoa
fogueiras sob morcegos...

Ritmos curvos de tristeza
– saudade dos brancos
nostalgia dos verdes
banzo dos negros...

Ritmos de coração batendo
– corações navegadores
corações idólatras
corações feiticeiros...

Ritmos amazônicos de águas caudalosas  
com caravelas
pirogas
navios-negreiros...
Ritmos de ventos livres
que estufaram velas
balançaram redes
chicotearam lombos...

Ritmos paralíticos do silêncio imóvel
estendido sobre
– capitanias
tabas
quilombos...

Ritmos de sombras longas
– ajoelhadas nas proas 
trepadas nas árvores
acocoradas nas trevas desertas...

Donatários? Caciques? Zambis?  
– Qual!

Poetas e poetas e poetas e poetas!

Diante do vosso ativo literário tão pobremente por mim evocado, compreendeis o motivo por que os vossos companheiros de hoje, atendendo ao apelo da vossa inteligência, vos acolheram de braços abertos, logo à primeira investida. É que sentimos que uma figura de rara projeção nas letras, como a vossa, precisava repousar numa moldura digna dela nesta Casa, nesta casa dos nossos maiores, tão asseteada por uns, tão caluniada por outros e tão desejada por todos.

*  *  *

A poltrona que vindes ocupar na Academia Brasileira – bem o sabeis – tem uma luminosa significação em meio às outras. Assistiram-na três expressões eternas da poesia no Brasil, três individualidades diferentes, tendo cada qual o destino dos rios históricos da nossa terra, que sob a bênção do Cruzeiro caminham, ora tranqüilos, ora inquietos, ora obscuros, ora decantados, levando para destinos remotos a esperança de uma terra dadivosa que oferece o ventre fecundo à lâmina das charruas e das enxadas, com a mesma ternura com que desdobra as noites floridas de estrelas sobre as cabeças dos seus poetas, semeadores que são da beleza que tanto a dignifica e exalta.

Gonçalves Dias era o Amazonas tumultuário e violento que ao mesmo passo que levava de roldão troncos de árvores seculares e solapava barreiras intransponíveis, embalava os berços verdes onde dormem, na solidão palustre dos igarapés, as vitórias-régias. Este rio cintado de florestas virgens, fugido ao cativeiro das margens, no ímpeto da voragem, abriu na terra virgem do Brasil, entre muitos dois afluentes harmoniosos – Olavo Bilac e Amadeu Amaral. O primeiro, escaldado pelo sol dos trópicos, arremeteu em contorções de potro bravio e ganhou carreira mata adentro, desvirginando florestas, movendo engenhos, semeando lavouras, enquanto fixava no espelho móvel das águas as pirogas tapuias, o sorriso das iaras “de cabeleira de ouro e corpo frio”, as amazonas “na cavalgada esplendida da glória”, as estrelas que são “a força e a afirmação da vida”, e o eco das lendas maravilhosas que ouviu em noites batidas de lua, contadas na narrativa lírica de algum tuxaua remanescente. A todos esses fenômenos de caráter sentimental devemos o seu grande, o seu arraigado amor, o seu amor quase carnal à terra do Brasil. O que nele se afigura êxtase e deslumbramento é apenas febre de sensualismo latente. Se uma árvore se debruça pensativa sobre o espelho das águas do grande rio, a refração transfigura-o, porque a árvore refletida deixa de ser árvore para ser mulher ao primeiro frêmito do seu contacto. E com que emoliente volúpia a água envolve a sombra da árvore! e com que saudade desce, depois, cantando, a corrente, na evocação daquela que lhe deu, a despeito de ser sombra, a falaciosa ilusão de ser humana. Foi sobre as águas desse rio miraculoso que gerações e gerações sucessivas se debruçaram, procurando beber no segredo das correntes agitadas a melodia desconhecida que tão fundo penetrou a alma humana. E a voz das águas contou, numa devoção enternecida, às gerações que se debruçaram, a epopéia bandeirante de Fernão Dias Paes Leme, ora fazendo-a reboar no “tropel dos índios e das feras”, ora estimulando-a a “cantar na voz dos sinos, nas charruas, no esto da multidão, no tumultuar das ruas, no clamor do trabalho e nos hinos da paz”.
E as gerações atônitas e maravilhadas aprenderam na voz das águas a amar acima de tudo nesta vida – a terra que lhes deu o orgulho de viver!

O segundo era um arroio humilde quando lhe acordaram no seio ânsias de independência e liberdade. Tributário do grande rio de onde lhe veio a volúpia consciente da beleza das cousas, reteve pouco tempo o seu filete de água, até que um dia, integrado na força propulsora das suas correntezas, antevendo nos horizontes largos a alvorada do Brasil que dealbava para o mundo, engrossou o dorso em espreguiçamentos de espumas, quebrou as algemas das margens, alargou o volume d’água e fez-se um rio.

É que uma voz profética vinda lá do recanto mais íntimo do seu seio, lhe despertava num eterno refrão, a promessa da glória:

Hás de inundar enorme o amplo vale, a planície...
Quando os astros no céu vierem à superfície,
Dormirás a sonhar todo coalhado de astros.

Vede-o agora. É um grande rio de águas translúcidas, que serpenteia, ora remansoso aos afagos da sombra, ora lépido e intranqüilo ao sol que o agita, abrindo leques de ouro na renda das espumas.
Mas o jugo da vida, a indiferença dos homens, ainda perseguem desgraçadamente o curso da água que se fez rio, envolvendo-o nessa névoa de melancolia que não há sol que desfaça. Basta-lhe, entretanto, o consolo da beleza, da beleza que é sempre triste.

Lançai os olhos sobre o lençol da água que se desenrola e na embriaguez do seu encantamento, guardando os aspectos simples que ela reflete, vereis humanizada a nossa terra em paisagens ondulantes, na perspectiva macia das aldeias brasileiras: os muros esborcinados de uma tapera debruçada sobre a recordação pungente de si mesma, uma cruz simbólica na encruzilhada dos caminhos; o penacho verde de um bambual pensativo como o último índio humilhado diante do advento da civilização; uma paineira salpicada de luz à sombra da qual os tropeiros descansam vergados pelo peso de léguas e léguas de áspera caminhada. A paisagem toda descansa de fadiga. Só o rio caminha, caminha, caminha, até que a noite desce, noite bonita, noite domingueira, toda paramentada de estrelas, para ir à festa do arraial pontear a viola dos violeiros e emprestar a sua cumplicidade àqueles que ainda acreditam no amor...

Rio escuro da minha terra! Eu te bendigo, porque ouço na tua cantiga de embalo a voz desalentada que um nordestino fatigado deixou cair um dia nos meus ouvidos numa frase profunda para que eu sempre a repetisse, pensando nele:
– O Brasil, o nosso Brasil é tão grande que desanima...

Da árvore brotada na Provença aludistes aos poetas reis, aos poetas barões, aos poetas senhores, aos poetas cavaleiros que dela tiraram o ai langoroso das suas aubades. Da árvore transplantada fizestes de Gonçalves Dias – o tronco, de Bilac – a flor, de Amadeu – o fruto, deixando para mim a missão venturosa de cantar o pássaro que vai ser nos dias vindouros a sentinela vigilante da árvore sonora, o nosso pássaro, o Uirapuru – de canto mágico que, na opinião de um de nossos irmãos, era o “Orfeu do seringal tranqüilo”.

Conta a lenda, entretanto, que ele foi um príncipe transmudado em pássaro depois de haver perdido em renhida batalha o seu reinado, o seu castelo, e os seus vassalos. Os vassalos por sua vez transformados em formigas não o abandonaram e levam agora a vida de escravos pacientes a defender a árvore onde ele, boêmio e descuidado, faz o ninho. Ao cair das tardes no alto Amazonas, quando o seringueiro volta ao pouso, depois de um dia de canseiras, pára em meio do caminho e põe-se embevecido a escutá-lo, porque vê na vida do pássaro desterrado o símbolo do seu próprio isolamento e sente naquela voz a angustiada saudade, a evocação de todas as vozes que vivem cantando pelas estradas solitárias da sua vida.

Confiamos, crede, na magia do vosso canto, Sr. Guilherme de Almeida! Ele servirá para chamar a atenção dos homens despercebidos que passarem ao fim das jornadas, – para o esplendor maravilhoso da grande árvore acolhedora que pende para o “chão guloso a copa rendosa e pesada de frutos”, “tanto mais bela quanto mais antiga, vencedora do tempo e das procelas”.

*  *  *

Vejo neste momento desdobrado diante da surpresa dos meus olhos, traço a traço, linha a linha, o quadro colorido de um poema de Schiller: Júpiter, num momento de enfaro, oferece o mundo aos homens, recomendando-lhes, de mão espalmada sobre as suas cabeças, que façam irmãmente a partilha. Moços e velhos assenhoreiam-se de tudo, delimitando honestamente seus teres e haveres.
A partilha da terra está quase a terminar quando chega, retardatário e despreocupado como sempre, o poeta. Vem sonhando. Pára de súbito surpreendido pelo espetáculo e, não acreditando no que vê, prostra-se consternado aos pés de Júpiter:

– E não há nada mais para mim? Então eu, o mais amado dos teus filhos, nada tenho na partilha da terra?
– Mas onde andavas? – pergunta-lhe Júpiter.
– Mais perto de ti do que os outros – responde-lhe o poeta.
Os meus olhos mortais fitavam-te o divino semblante. Os meus ouvidos humanos ouviam-te a celeste harmonia!
– Que fazer agora? – torna-lhe Júpiter, se os rios, os bosques, os mares e as montanhas já me não pertencem?! Dei tudo aos homens. Mas tu, poeta, queres gozar comigo as grandezas do céu? O céu te estará sempre aberto...

Sr. Guilherme de Almeida:

Os deuses falam pela voz dos poetas. – Aqui tendes, na Casa espiritual de Machado de Assis –, um verdadeiro céu aberto. É vosso. Vinde e habitai-o!