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Sessão Saudade

Presidente Tarcísio Padilha


Vamos dar início à sessão de saudade in memoriam do acadêmico Barbosa Lima Sobrinho. É uma cerimônia tradicional desta Casa, ocasião em que os acadêmicos externam o seu sentir, o seu pensar, sobre um longo percurso do decano da Casa de Machado de Assis, e o procedimento tradicional é que falam os acadêmicos por ordem de antigüidade na Casa.


Quero, em primeiro lugar, expressar à família enlutada os sentimentos da Academia Brasileira de Letras, ao mesmo tempo em que esse sentimento se estende também aos seus companheiros da Associação Brasileira de Imprensa. Concedo, inicialmente, a palavra ao decano da Academia, acadêmico Josué Montello.


Acadêmico Josué Montello


Senhor presidente; minhas senhoras; meus senhores; meus confrades da Academia Brasileira.

Senhor presidente, iniciando estas breves palavras sobre o nosso companheiro Barbosa Lima Sobrinho, devo acentuar que Barbosa Lima Sobrinho foi meu companheiro nesta Casa durante quarenta e seis anos. Trago comigo, portanto, uma soma de recordações pessoais que, por um lado, me dão saudade de mim mesmo, por ter sido testemunha deste companheirismo realmente exemplar, e por outro lado, me levam a buscar realizar, neste momento, um breve retrato de Barbosa Lima Sobrinho.


Devo dizer a Vossa Excelência e aos meus companheiros que esta amizade começou de uma maneira realmente singular, com uma carta que Barbosa Lima Sobrinho havia providenciado junto ao presidente Antônio Carlos, numa época em que eu, ainda nos meus 18 anos, recém-chegado da minha província, buscava o meu espaço aqui no Rio de Janeiro para poder começar a minha nova vida.


Por essa ocasião, senhor presidente, tive a oportunidade de, com esta carta, ir à presença de uma pessoa de que a Academia não mais se recorda, mas, que ao tempo acadêmico também, era uma figura representativa, porque, por um lado, ele dirigia o Jornal do Commercio, e por outro lado, era o coordenador de um novo tipo de ensino que se estava implantando no Brasil: era o ensino para a formação de empregados no plano das realizações comerciais. Isto fez com que eu, de posse desta carta, tentasse falar com Victor Viana.


Victor Viana, para que eu tivesse conhecimento dele, por esse tempo, era além do fato de ter o Jornal do Commercio em suas mãos, ele tinha também este fato que justificava a sua presença intelectual nesta Casa. Ele se havia especializado nos estudos sobre as diversas Constituições então vigentes, desde a Constituição inglesa, Constituição americana, francesa; todas elas, ele as dominava. E eu tive então o cuidado de ler aqueles livros, para poder manter um diálogo natural com Victor Viana.


Esse é o ponto de partida de um relacionamento que me iria levar a Barbosa Lima Sobrinho, porque foi precisamente em virtude desse relacionamento que estabeleci contato com ele. Por outro lado, havia também um fator importante, um companheiro de antiga pensão de estudantes aqui no Rio, que era o Horácio, cunhado de Barbosa Lima Sobrinho. Horácio, meu companheiro, se fez meu amigo fraterno, e daí partiu a amizade que se implantou em mim e Barbosa Lima Sobrinho, em virtude da qual Barbosa Lima Sobrinho, na hora inaugural da minha vida, soube ser aquela figura realmente decisiva, tão decisiva que pude, mais adiante, ter nele uma dessas figuras fundamentais, sem as quais não realizamos a nossa vida em plenitude.


Ora, Barbosa Lima Sobrinho pouco depois chegava a esta Academia, e me recordo precisamente do que foi a noite da sua posse nesta instituição. Ele trazia ao seu lado o seu amigo fraterno, aquele que, na época de juventude, o levou a deslocar-se do Recife para cidades distantes, a pé, para que ambos, ele e Múcio Leão conhecessem o Brasil na sua autenticidade, naquilo que era a naturalidade genuinamente brasileira.


Barbosa Lima Sobrinho, por esse tempo, já ia firmando o seu grande nome, e ele que era escritor no plano da realização literária, porque também era um criador literário, Barbosa Lima Sobrinho tinha ainda em seu favor o fato de que ele se multiplicava por vários caminhos. E nesses caminhos, ele soube ser esplendidamente uma figura exponencial daquele tempo. Daí a sua eleição para sucessor de Goulart de Andrade. Goulart de Andrade era um nome desta Casa, controvertido, mas tendo sido recebido aqui por Alberto de Oliveira, que lhe fez um louvor de tal natureza, a imagem que dele nos ficou foi precisamente essa, de que era realmente uma figura representativa da poesia brasileira de então.


Com essas relações, estabeleci um contato estreito com Barbosa Lima Sobrinho, de tal modo que, quando me candidatei a esta Casa, já tinha em meu favor, graças a Barbosa Lima Sobrinho, alguns fatos fundamentais da minha existência. Exemplo: fui eu que, na minha geração, aos vinte anos, subi à tribuna desta Casa (que era, ao tempo, aqui ao fundo do salão) e proferi uma conferência, nessa idade, sobre Machado de Assis, que a Academia Brasileira fez o obséquio de distinguir-me, publicando-a e registrando-a nos seus livros daquele momento.


Isto tudo me levou a presenciar aqui a posse de Barbosa Lima Sobrinho. O que guardei comigo, as coisas que comigo ficaram ao longo de quarenta e seis anos de convívio, isto me dá particularmente a convicção, a idéia, a boa lembrança de que consegui conviver com um homem na sua plenitude, e que, só mais adiante, se realizaria em plenitude também para o Brasil. Barbosa Lima Sobrinho era o historiador, era o comentarista político, era o escritor capaz de exercer esplendidamente a crítica literária, mas este homem, com esse destino, com aquilo que constituía a força fundamental do seu espírito, este homem trouxe para nossa instituição, além do mais, aquilo que constituiria realmente o traço dominante da sua personalidade.


Ele foi aquilo que ele próprio, mais de uma vez, chamava a minha atenção. Dizia assim: - Eu sou um brasileiro profissional -, quer dizer, um brasileiro que tem por opção a defesa da sua pátria, identificar-se com ela e sentir, a cada instante, que aquilo que está sendo realizado corresponde às aspirações nacionais.


Senhor presidente, eu poderia prolongar, quase que indefinidamente, estas recordações de Barbosa Lima Sobrinho, sobretudo, hoje, considerando que passo a assumir nesta Casa o papel de decano da instituição. Serei aqui a memória da Casa, aquele companheiro capaz de recordar-se daqueles atos fundamentais, em virtude dos quais esta instituição caminha orientando-se para a frente, mas guardando sempre a memória das suas realizações essenciais.


É isto que gostaria de dizer, abrindo como decano da Casa estas homenagens a Barbosa Lima Sobrinho, de quem nos recordaremos para sempre. Todos aqueles que com ele conviveram devem, realmente, fixar no seu espírito a idéia de que isto constituiu um privilégio, porque este privilégio é que nos levará pelo tempo adiante, com a imagem exata de um dos maiores homens que existiram neste país.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Sergio Corrêa da Costa.


Acadêmico Sergio Corrêa da Costa


Senhor presidente; minhas senhoras; meus senhores.


Sem ter tido o privilégio de outros companheiros desta Casa no trato, na convivência, com Barbosa Lima Sobrinho, desejo, tão somente, evocar duas coincidências. Recordo que a entrada de Barbosa Lima Sobrinho para esta Casa coincidiu com a época do Golpe de Estado de novembro de 1937, que lhe cassou a tribuna parlamentar que ocupava com extrema lucidez e combatividade.


Após o hiato do Estado Novo, nosso pranteado companheiro ressurgiu no cenário político como deputado à Assembléia Constituinte de 1946 - cenário de que nunca mais se afastaria, e que teve entre os pontos mais altos a postulação da vice-presidência da República na chapa de Ulysses Guimarães em 1973, em momento tão sombrio para o nosso país.


Desejo ainda evocar a beleza do simbolismo que decorre da circunstância de o derradeiro artigo de Barbosa Lima Sobrinho ter sido estampado no próprio dia de sua morte. Como que para significar que o velho lutador não descansara da sua pena, um dia sequer da sua vida. Vida que foi uma lição para todos nós. Lição de coerência e de amor - não de amor passivo e complacente, mas amor militante ao nosso país. O que o Brasil acaba de perder - antes de tudo e sobretudo - foi um padrão de referência moral, paradigma, de que o país é tão carente nos nossos dias.


Pai de todos nós - foi dito e redito - pai da nação, não será esquecido.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Arnaldo Niskier.


Acadêmico Arnaldo Niskier


Senhor presidente Tarcísio Padilha; senhores acadêmicos; senhoras e senhores; familiares de Barbosa Lima Sobrinho; membros da diretoria da ABL.


Muito sobre Barbosa Lima, os meus antecessores, sobretudo Josué Montello, já se pronunciaram. Tenho uma experiência muito grande de convívio com Barbosa porque ele apreciava a minha condição dupla de jornalista e professor. Sócio-remido da ABI, tive o privilégio, numa dada ocasião, de ser membro do seu Conselho, e lá conviver mais ainda com essa figura extraordinária de ser humano, de brasileiro, seguramente, na minha opinião, o maior deste século.


Visita-o sempre que podia, não queria criar nenhum estorvo para o seu descanso, mas a última vez que lá fui, ele perguntou pela Academia, perguntou como iam as coisas, eu já não era o presidente, e perguntei pela dona Maria José. - Cadê a dona Maria José, sua companheira de tantos anos?- Ele respondeu: - Ela foi à farmácia e eu já estou com saudades dela.


É importante para nós todos que cultuamos valores e que estamos empenhados em mostrar que a família é a base da formação - acho que até da própria nacionalidade -, lembrar um amor de sessenta e oito anos, uma fidelidade de sessenta e oito anos de casamento, ele que quase precisou brigar com o pai dela para conseguir o privilégio de ter a sua mão, e conviver de uma forma harmoniosa durante tanto tempo e de forma tão bonita.


Barbosa escreveu perto de 5 mil artigos. Desde 1927, no Jornal do Brasil, ocupando o seu espaço, como lembrou muito bem nosso confrade Sergio Corrêa da Costa, até o último dia em que ele lidava com a lucidez que o caracterizou até o fim - 103 anos. Ele se preocupava com a exclusão da classe média, hoje uma terrível realidade desse projeto econômico altamente discutível do qual estamos sendo vítimas. Mas ele dizia, nesses 5 mil artigos, sempre a respeito dos interesses nacionais. É dele uma frase clássica: "Eu escrevi tantos artigos e desafio quem quer que seja a provar que, em um deles, eu tenha fraquejado em relação à coerência do meu amor pelo Brasil".


E é verdade, porque fomos fiscais, nós todos, porque leitores permanentes de Barbosa Lima Sobrinho, desse projeto de caráter de nacionalismo, de cidadão do século, o homem que mais orgulho deixou no espírito de cada um de nós, e no nosso caso, um orgulho redobrado pelo fato de pertencermos às mesmas instituições a que ele pertencia.


Perguntou-nos um repórter, no dia do velório, o que mais faria falta na ausência de Barbosa Lima Sobrinho? E eu só encontrei uma palavra para expressar o meu sentimento: o exemplo de amor ao nosso país, o exemplo de retidão, o exemplo do jornalista, sem medo, do homem que foi fundamental na campanha das Diretas Já, como foi fundamental no impedimento do ex-presidente Fernando Collor.


Nós aqui, particularmente, sentiremos falta dos seus conselhos, do homem que, já aos cento e tantos anos, vinha para cá para dizer: por que vocês não publicam um livro sobre o barão de Jaceguai, tão importante na História do Brasil? E nós publicamos, Antonio Olinto tomou as providências e o livro veio. Sentiremos falta do homem que, enfim, lembrava coisas bonitas sobre a nossa História.


E encerro falando a respeito da defesa da língua portuguesa. Barbosa pode ser inserido entre os filólogos raros, mas existentes, que pensam o tempo todo na defesa do nosso idioma, na preservação dos nossos valores contra, inclusive, o excesso de estrangeirismos. Ele escreveu sobre isso, escreveu um livro, escrevia artigos, falava nos seus discursos, nas suas orações, sempre tão doces, sempre tão amoráveis, porque essa era uma característica dele também.


Sentiremos a sua falta. Que fique, naturalmente, o seu exemplo.


Presidente Tarcísio Padilha


Para trazer ao nosso conhecimento a mensagem do acadêmico Evaristo de Moraes Filho, concedo a palavra ao acadêmico Alberto Venancio Filho.


Acadêmico Evaristo de Moraes Filho - Lida pelo acadêmico Alberto Venancio Filho


"Toda a verdade é um lugar-comum", escreveu Chesterton em The Flying Inn (1914). Podemos então dizer que, a 16 último, o Brasil perdeu um varão de Plutarco. Toda a sua vida foi uma linha reta de patriotismo, de nacionalismo, de dignidade, de seriedade e de conduta irrepreensível. Era, sem dúvida, um homem de marca, excepcional, que, por mais de um século, ocupou um lugar de honra na sociedade brasileira.


Com sua morte, empobreceu-se a própria humanidade, e não só esta Academia nem este país. Jornalista por mais de setenta e cinco anos, era sempre encontrado na mesma luta, em prol dos mesmos ideais. A sua ideologia não era política nem partidária, estava acima desse radicalismo, sempre coerente com a sua pregação de uma pátria independente e soberana.


Mas não se limitava a essa luta, era também escritor, historiador, ensaísta, jurista. Deixou uma bibliografia de dezenas de livros, que, por si sós, justificariam seu ingresso nesta Academia, eleito em 28 de abril de 1937 e recebido em 31 de janeiro do ano seguinte. O melhor ensaio que lemos sobre o conto como gênero literário é de sua autoria, na conferencia pronunciada nesta Academia, num curso, em 1950.


Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho era o exemplo de todos nós: como dignidade e como amor ao Brasil. Viveu muito, e cada ano que passava entre nós só fazia aumentar a admiração e o respeito que todos os seus confrades tinham por ele. Devemos agora aprender a viver sem ele, sem a sua impecável referência de decano, mas permanecerá para sempre na memória e na saudade de cada um de nós.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Lêdo Ivo.


Acadêmico Lêdo Ivo


Senhores acadêmicos; representantes da família Barbosa Lima Sobrinho; representantes da Associação Brasileira de Imprensa; minhas senhoras; meus senhores.


Em 1893, no prefácio ao livro Festas Nacionais, de Rodrigo Octavio, que seria um dos fundadores desta Casa, dizia Raul Pompéia, o grande artista literário, que foi também uma das vozes mais vibrantes e indignadas a serviço do nosso nacionalismo: "Os grandes centros censórios do nosso organismo de interesses estão em Londres e Lisboa".


Em sua atuação jornalística, a mais longa de nossa História, Barbosa Lima Sobrinho seguiu esse caminho ideológico, de uma forma que chegou a ser obsessiva.


É esse nacionalismo intransigente que desejo ressaltar, nesta hora de louvor e saudade à sua figura retilínea de jornalista, escritor e homem público de mãos limpas, como as águas que descem das montanhas.


Desde o ano em que Raul Pompéia escreveu a sua Carta ao autor de Festas Nacionais até esta tarde, o Brasil, tendo mudado tanto, pouco mudou ou não mudou nada. "Os grandes centros censórios do nosso organismo de interesses" - para repetir a frase de Raul Pompéia - continuam longe de nós, nas agências e balcões internacionais vorazmente aparelhados para consolidar a nossa dependência, e talvez até a nossa servidão.


Não precisamos, nesta hora de luto e não de polêmica, invocar os nossos erros e anomalias, que vão desde a exclusão social que insula e esmaga dois terços dos brasileiros à ruidosa erosão moral que hoje, mais do que em tempo algum de nossa História, atinge homens e instituições, produzindo sazonais e sucessivos mares de lama.


Nesse panorama desolador, e que enxota a esperança de um futuro melhor, Barbosa Lima Sobrinho nos deixou um legado que reclama ser recebido como um compromisso inarredável.


Dispersa e ao mesmo tempo reunida em 5 mil artigos de jornal e em livros que testemunham a sua atuação crítica e pedagógica, eleva-se uma voz de incomparável ressonância ética e cívica. Uma voz que deve continuar a ser ouvida.


Barbosa Lima Sobrinho morreu na idade dos patriarcas bíblicos. E, na verdade, ele era o patriarca que sonhava os sonhos do povo brasileiro.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra o secretário-geral da Academia, acadêmico Carlos Nejar.


Acadêmico Carlos Nejar


Senhor presidente; eminentes acadêmicos; familiares de Barbosa Lima Sobrinho; prezado público.


Há pessoas que morrem cedo. Dessas já se disse que são amadas pelos deuses, mas, na verdade, não conseguem no curto tempo de sua vida realizar a plenitude daquilo que poderiam. Há outros raros, como Barbosa Lima Sobrinho, que viveu intensamente os 103 anos de sua vida, porque esse tempo era indispensável a ele para realizar a sua obra, porque não era a obra apenas de um homem, mas de um tempo inteiro.


Recordo dele, entre tantos gestos, dois: um individual, outro coletivo. O individual, quando me candidatei à esta Casa, e senti sua fraternidade comigo, ao dizer-me:: - Estou ligado ao Rio Grande. O segundo gesto, quando estive também candidato e representei várias entidades junto ao Ministério da Cultura, quando o então ministro da Cultura era nosso companheiro Sergio Paulo Rouanet, e ele me apoiou inteiramente para representar, entre as entidades na Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, a Associação Brasileira de Imprensa.


A sua palavra era de uma só cor, uma só luz, uma só estrela. Era um homem antigo, bíblico, raro, uma espécie de novo Jacob, o que lutou com o anjo, o que enfrentou as potestades e abominações políticas e econômicas do nosso tempo. Um homem-tempo, cuja coragem só pode ser medida pelo caráter, e o caráter, pela visão do estadista. Não existe orfandade maior que a do coração, nem mais solitária que a de um tempo em que rareiam os heróis morais, os guerreiros da ética embatível, da generosidade coletiva.


Diz Kierkegaard que, ao poeta, cabe cantar o herói. Ao poeta cabe cantar o herói, mas o herói que Barbosa Lima Sobrinho foi, um herói moral, cívico, deste tempo, também só pode ser cantado pelo seu povo. Recordo-me também de Abraão, pai da fé, na sua fé viva no futuro do país, com uma fé maior que a mediocridade ou a corrupção deste século, fé invencível de cavaleiro andante, visceral como Dom Quixote que o aproximava de uma espécie de santidade, este amor à sua terra e à sua gente.


As gerações guardarão o seu nome, porque não perdemos aprenas um grande homem, perdemos um homem que tinha uma saudade imensa do futuro.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Oscar Dias Corrêa.


Acadêmico Oscar Dias Corrêa


Senhor presidente; senhores membros da mesa; excelentíssimas senhoras; senhora acadêmica; senhores acadêmicos; senhores familiares de Barbosa Lima Sobrinho; meus caros amigos.


Não é fácil expressar o que significa, para nós, como para o país, a ausência de Barbosa Lima Sobrinho.


Sua presença marcou o século pela coerência, correção, dignidade, lucidez, denodo e trabalho, e sua partida, com o exemplo de sua vida, toda dedicada ao Brasil, na defesa dos ideais que abraçou, comove-nos a todos, profundamente, nesta Casa de convivência e companheirismo.


Mais ainda, leva-nos a relembrar-lhe o exemplo, autorizando-nos dizer aos mais jovens que o Brasil autêntico é o dos que, como ele, sempre enfrentaram a luta democrática como desafio de lealdade, sacrificio de interesses e olvido de ambições.


As convicções legitimas não admitem a triste mercancia dos valores éticos, pois só eles construíram nossas instituições e só eles lhes darão fundamento e perenidade.


Conheci Barbosa Lima na Câmara dos Deputados, e o ameno convívio me fez admirá-lo ainda mais. Se nem sempre comungamos das mesmas teses, sabia eu da honestidade com que ele se batia pelas suas, e sabia ele - e o disse - da mesma dignidade com que eu as minhas defendia.


Há onze anos, senhor presidente, exatamente há onze anos, em 20 de julho de 1989, dele recebi, neste Plenário, o espadim que me armou cavalheiro das letras.


Nada mais justo, pois, que dê o meu testemunho de que sua vida se voltou exclusivamente para o futuro do Brasil, sua permanente preocupação, e que, para felicidade de nossa terra, e em sua homenagem, possamos repetir, como compromisso indefectível, que este futuro é e será sempre o nosso único anseio, nossa vocação, nossa missão, sem descanso e sem fadiga.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, a acadêmica Nélida Piñon.


Acadêmica Nélida Piñon


Senhor presidente; senhores acadêmicos; prezados familiares de Barbosa Lima Sobrinho; companheiros da Associação Brasileira de Imprensa; senhoras e senhores.


Anos atrás, impressionou-me muito uma declaração feita, relativa a um famoso político espanhol. Dizia-se que ele tinha no seu cérebro, nos seus escaninhos, todos os meandros, os mistérios do Estado espanhol. Evidentemente, poderia fazer agora um cotejo entre essa declaração e o Barbosa Lima Sobrinho - acho que o Barbosa Lima Sobrinho tinha no seu cérebro não só o Brasil, nas suas relevâncias, na sua geografia, na sua História, mas ele dominava a psique brasileira, a nossa gênese, a nossa genealogia, e além do mais, acima de ter esse país em seu cérebro, em suas demandas interiores, ele tinha o Brasil no seu coração. Isso é que é fundamental, porque muitas das suas atitudes foram pautadas por uma extraordinária misericórdia ética.


Daí poderíamos dizer que a sua ética nacionalista era permeada por esse sentimento de redenção, de redimir o Brasil, tentar resgatar alguns valores - não digo só valores morais -, os valores que realmente compõem um perfil humanístico. Esse homem, de algum modo - eu vi nele sempre, não é agora neste momento em que estamos louvando-o, com justa razão - ele tinha traços quixotescos, e quando digo traços quixotescos, dando combate aos moinhos de vento, é que, justamente, encanava-se nele aquele sonhador que tem um compromisso com o real, porque os grandes sonhadores, quando digo grandes, são os persistentes, os consistentes, eles têm uma visão pragmática da vida, porque, se persistem com o sonho, é porque o sonho obedece à exigência da realidade.


Então, este homem que assumiu sempre ao longo da nossa História, que é a nossa História, um compromisso tão profundo com o Brasil, ele nos mostrou que é possível fazer tudo isso sem imposturas, e olhem que vivemos numa época cheia de impostores. Tenho a impressão de que essa é a grande marca do momento brasileiro: o oportunismo, a impostura. E ele não, ele não ganhava senão o amor do país, o amor dos seus cidadãos.


Ele era um homem de vida modesta. Tive a honra de freqüentar a sua casa, duas, três vezes, comi do seu feijão generoso, que me foi oferecido por dona Maria José, que aliás tomei a liberdade de tuteá-la, e ela gostava muito, chamava-a Maria José. Uma vez, fomos ali com Dom Lucas num almoço carinhoso, um almoço afetuoso, todos nós em torno dessa mesa farta, essa mesa generosa, essa mesa cheia de acolhidas e hospitalidade.


Portanto, esse homem nos deixa sobretudo, a meu juízo, um legado extraordinário, um legado que já é memória, é memória pura, e além do mais, esse legado indica uma herança, porque o legado é uma herança, o legado se converte num bem transmissível. Cabe a nós sobreviventes, viventes, tomar desse bastão e assumir um compromisso com a sua memória: o compromisso da decência, o compromisso da resistência a esses tempos que convocam à desistência.


Acho que essa sobrevivência, essa capacidade de fazer dele já, a partir deste momento, uma criatura lendária na memória brasileira é a nossa grande herança.


Muito obrigada, senhor presidente.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Geraldo França de Lima.


Acadêmico Geraldo França de Lima


Senhor presidente; senhores membros da Academia Brasileira de Letras; ilustres visitantes da Associação Brasileira de Imprensa; ilustres membros da família de Barbosa Lima Sobrinho; minhas senhoras; meus senhores; meus colegas de Academia.


Emil Ludwig, na magnifica biografia de Napoleão publicada em 1929 ou 1930, se não me engano, diz que os grandes homens são como as estrelas: brilham de noite e brilham de dia. Brilhar foi o destino de Barbosa Lima Sobrinho, brilhar para os seus conterrâneos, indicando-lhes as grandezas do Brasil, indicando-lhes, sobretudo, quanto este país poderia ser e não é. Barbosa Lima Sobrinho foi nacionalista, nacionalista dos mais ferrenhos - e nasci e fui educado numa casa nacionalista, porque meu pai era um bernardista ferrenho.


Me lembro, como se fosse hoje, do magnífico discurso de Barbosa Lima defendendo a Petrobras, como me lembro do magnífico discurso também de Arthur Bernardes, combatendo a patifaria da Hiléia Amazônica. Sinto-me feliz e sinto-me orgulhoso de ter pertencido às grandes bases do "petróleo é nosso", e sim, o petróleo é nosso. Eu sou desse tempo, sou de Barbosa Lima Sobrinho. Sinto-me triste, quando vejo que a falta de Barbosa Lima Sobrinho será impreenchível, porque mesmo com ele presente, lá se foram quantas riquezas nossas. A Vale do Rio Doce e todas essas outras. Esse rio corre que não pára mais, desde a Independência, sempre pendurado o Brasil aos bancos estrangeiros.


E a tese de Barbosa Lima Sobrinho, magnifica tese, excepcional tese de que o capital se faz em casa, citando sempre, citando diariamente o Japão. Ora meus amigos, estamos, como todos aqui disseram, órfãos ¾ órfãos de uma estrela que nasceu para brilhar de noite e de dia, como Barbosa Lima Sobrinho. Lembro-me de uma frase de Eça de Queiroz, descrevendo a morte imaginária de seu herói imaginário, o Fradique Mendes; quando ele morreu de pneumonia em Paris, Eça diz: "Não termina mais belo o dia de verão, não terminará nunca o verão", que foi a mensagem de calor humano e de calor cívico espalhada por Barbosa Lima Sobrinho.


Presidente Tarcísio Padilha


A mensagem do acadêmico Candido Mendes de Almeida será lida pelo acadêmico Sergio Paulo Rouanet.


Acadêmico Candido Mendes de Almeida - Lida pelo Acadêmico Sergio Paulo Rouanet


A morte, aos 103 anos, de Barbosa Lima, já desengasta a figura tutelar entre nós, para se transformar num canon de desempenho da modernidade, da quase irrepetível presença nos nossos dias destes 103 anos de um pensamento ativo e vigilante, dedicado ao projeto brasileiro e à defesa da erupção nacionalista para o nosso vir a ser. Não temos êmulo possível, tanto mais que Barbosa Lima juntava, à idade única, a representação múltipla de decano da nossa Casa, e num dia-a-dia, até o último semestre, de presidente da sua ABI, da manutenção lá do esplendido fórum das liberdades, que confrontou o Brasil do advento do regime militar, da corrupção do Governo Collor e das indecisões da Ação Social Democrática reclamada nesta virada de milênio.


E a conseqüência de Barbosa Lima mais se afirmou, a cada dia, porque mais se nutriu da nossa prospectiva. O recado da data da sua morte no Jornal do Brasil evidencia como, setenta e duas horas antes, debruçava-se sobre o artigo de Delfim Neto para repetir a sua condenação "do liberalismo, como do Estado fraco, da globalização, da mão invisível". Foi a presença e o símbolo dos momentos críticos da defesa de um Brasil para si; anti-candidato, num enfrentamento militar na volta às eleições, como vice de Ulysses Guimarães; primeiro autor das medidas judiciais pelo impeachment de Collor; vigia dos rumos das privatizações e crítico contundente e pedagógico da mobilização contra a venda da Vale do Rio Doce.


Foi nosso decano, já entrado nos cem anos, que conseguiu dar face ao último movimento da sociedade civil brasileira após a restauração democrática. Primeiro impeachment da nossa História. O deste movimento Tiradentes em favor da identidade nacional, ameaçado no universo global, que recua ao proto-mártir para encontrar este símbolo agregador e indiscutível da identidade brasileira. Um movimento Barbosa Lima, neste final de século que marcou com seu testamento e desassombro, perpassa desde já o melhor de nossas reservas cívicas. A vida derramada ao máximo de lucidez, em mais de um século, nos repta e incita.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Ivo Pitanguy.


Acadêmico Ivo Pitanguy


Senhor presidente; senhores membros da mesa; queridos acadêmicos; dignos representantes da família Barbosa Lima e da ABI; meus senhores; minhas senhoras.


O tempo de uma vida nunca é longo o suficiente para alcançarmos tudo o que almejamos. Transformá-la em obra de arte é o sonho de todos nós e Barbosa Lima Sobrinho soube realizá-lo. Ele representou e continuará representando, para várias gerações de brasileiros, o farol que guia o viajante em sua travessia. Tocou nossos corações pela fidelidade às suas idéias, por seus princípios sólidos, pela constante disciplina no exercício do ofício de jornalista, de homem público, de escritor, e sobretudo, pela sua capacidade de se indignar no momento certo. Seu espírito dominava o corpo como um Kiai permanente, somente possível àqueles que sabem o valor de cada minuto, dando à vida uma dimensão maior.


Lembro que, quando o visitei na sede da ABI, cheguei um pouco tímido, pois iria encontrar-me com um símbolo nacional. Seu sorriso de boas- vindas cativou-me. Conversamos um pouco. Disse-me, então, com muita graça, que daria seu voto sob uma condição irrevogável. Preocupei-me, para logo rir, ao ouvir qual a condição imposta: de nunca operar com a espada da Academia. O humor não poderia fazer falta a quem a natureza brindou com tantas qualidades.


À sua queridíssima esposa e companheira, Maria José, seus filhos, Fernando, Carlos Eduardo e Lúcia Maria, abençoados com um marido e um pai tão maravilhoso, e que souberam dividi-lo com uma nação inteira, sem que a relação familiar ficasse de longe fragmentada, deixo o meu abraço fraterno e amigo.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Alberto Venancio Filho.


Acadêmico Alberto Venancio Filho


Senhor presidente; senhor doutor Fernando Sigismundo e demais companheiros da Associação Brasileira de Imprensa; familiares de Barbosa Lima Sobrinho; minhas senhoras; meus senhores; meus caros confrades.


Nesses dias que mediaram da morte de Barbosa Lima Sobrinho até hoje, uma idéia me veio que talvez signifique a figura extraordinária desse homem. É aquela pronunciada diante do túmulo do duque de Guise: "Il est plus grand mort que vivant". O futuro vai realmente nos revelar o seu enorme valor e a sua enorme contribuição para a vida brasileira.


Os acadêmicos que me precederam já analisaram vários pontos de sua vida, e estou certo que o confrade Evandro Lins e Silva destacará o seu papel no impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Quero, portanto, rapidamente assinalar os pontos que não foram analisados, que compõem o perfil completo da vida de Barbosa Lima Sobrinho. A figura do historiador, a figura do advogado e do jurista.


No início de sua vida universitária, Barbosa Lima Sobrinho teve ocasião de conviver com Oliveira Lima, aquele grande historiador temporariamente exilado em Pernambuco, e daí me parece deve ter vindo o interesse pela História: os vários livros que escreveu sobre Pernambuco, rebatendo as acusações de Pedro Calmon a respeito da região do São Francisco, Pedro II, Pernambuco, e depois, o prefácio admirável que ele escreveu para a obra Seletas de Oliveira Lima, em 1971, que era praticamente um estudo completo, quase um livro. Relembraria também um grande livro que ele publicou sobre Alberto Torres, Presença de Alberto Torres, escritor, sociólogo, com tantos pontos comuns com ele e irmanados nos mesmos ideais nacionalistas brasileiros.


Quanto ao advogado, lembraria que, formado em Direito como aluno laureado, escreveu em Pernambuco ainda dois trabalhos O direito de guerra e O regime dos bens dos súditos inimigos, estudos novos e renovadores das ciências jurídicas. O jornalismo, a política, tudo mais o afastou. Mas, em 1934, como deputado à Assembléia Constituinte, ele fez um trabalho novamente num projeto, um estudo que é um verdadeiro livro sobre a criação do Instituto de Resseguros do Brasil, que muito deve à sua iniciativa. E depois, como presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool, novamente um grande diploma legal que foi o Estatuto da Lavoura Canavieira, além dos trabalhos realizados na gestão desse Instituto, através da criação da Junta, conciliando os interesses dos usineiros e fornecedores de cana, e o trabalho pioneiro naquela época sobre a Reforma Agrária.


Aluno laureado da Faculdade de Direito do Recife, ele ainda foi nomeado, depois, procurador da prefeitura do Distrito Federal, e teve um trabalho extraordinário, combativo no seu estilo, na discussão do problema nas concessionárias do serviço público. Faria, afinal, uma referência ao papel de Barbosa Lima como professor. Ele formado em Direito, o seu sonho era passar a integrar o corpo docente da Faculdade do Recife, e se preparava para fazer um concurso, quando houve a nomeação, sem concurso, de um protegido do governador. Foi esta razão que o levou para o Rio, para a carreira luminosa que o acompanhou.


Eu gostaria de pensar um pouco sobre o que seria de Barbosa Lima, se tivesse feito esse concurso e tivesse o resto da vida ficado como um grande professor de província, como foram Soriano Neto, Conde Filho, e nos dias de hoje, Lourival de Onofre. Mas ele seguiu o caminho de seu mestre Anibal Freyre, de Assis Chateaubriand, também professor de Faculdade, e veio para o Rio realizar o seu grande trabalho como professor.


Acho que a idéia que sei dele é muito própria a respeito de Barbosa Lima, com uma definição, como tantas outras, como poderemos imaginar: é a figura que realmente Barbosa Lima Sobrinho foi um professor de brasilidade.


Presidente Tarcísio Padilha


O acadêmico Antonio Olinto procederá à leitura da mensagem do acadêmico João de Scantimburgo.


Acadêmico João de Scantimburgo - Lida pelo Acadêmico Antonio Olinto


Conheci Barbosa Lima Sobrinho, apresentado por Austregésilo de Athayde, nos velhos tempos dos Diários Associados, e ele, num extremo de gentileza, elogiou os meus artigos cotidianos nos jornais de Assis Chateaubriand, dos quais eu era diretor em São Paulo. Tenho, ainda, na memória a figura desempenada, alta, revelando o tipo atlético que ele fora, quando remava no Recife ou no Rio de Janeiro, para manter a forma, que lhe deu a longevidade maior do Brasil.


Guardei sempre de Barbosa Lima Sobrinho a impressão de um homem de opiniões severas e firmes, de convicções inabaláveis, de uma formação cultural adquirida com leituras ininterruptas, durante a vida inteira, e transpostas para os artigos de jornal e para os livros que saíam de sua pena privilegiada, que beneficiou, como poucos escritores brasileiros, o patrimônio literário e estilístico da língua portuguesa, à qual ele dedicou um livro, há pouco reeditado.


O douto Barbosa Lima Sobrinho conhecia, perfeitamente, as minhas opiniões, que não coincidiam com as suas, mas foi sempre, invariavelmente, cortês comigo e, quando conversávamos, cada qual ficava com sua opinião, sem se manifestar com qualquer queixume do adversário e, finalmente, confrade, desde que ingressei na Academia Brasileira de Letras, com o seu voto.


Barbosa Lima Sobrinho teve dois grandes amores: a senhora Maria José, paulista, e o Brasil, afora, evidentemente, sua família, seus filhos e netos, mas, principalmente, a dedicada esposa e o nosso país. Toda a sua vida foi consagrada à família, em primeiro lugar à dona Maria José, e ao Brasil, que lhe retribuiu com o apreço, a estima, a admiração de seus contemporâneos. Seus ideais foram mudados. É a função do tempo mudar tudo. Mas ele levou para o túmulo a imagem mais cara, a do Brasil.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Sergio Paulo Rouanet.


Acadêmico Sergio Paulo Rouanet


Senhor presidente; senhores acadêmicos; senhores representantes da ABI; senhores membros da família de Barbosa Lima Sobrinho; minhas senhoras e meus senhores.


Um dos riscos mais graves da velhice extrema é sermos elogiados por sermos velhos e não por nossas realizações. Evidentemente, os elogios feitos a Barbosa Lima Sobrinho, falecido como sabemos aos 103 anos de idade, escaparam a esse risco. Em geral, as pessoas mencionam a sua velhice apenas para destacar a sua longa coerência no fio das décadas. Mas o risco existe. Eu me lembro que o Roland Barthes, nos anos 50, escreveu um ensaio em que falava do mito da criança poeta, da infância naturalmente poética. Acho que o correlato desse mito é o mito da velhice lúcida. As pessoas, por sua velhice, por sua senectude, seriam de alguma maneira dotadas de algum dom profético, de uma inspiração quase divina.


Confesso que quando observo pessoas idosas, excepcionalmente marcantes por uma ou outra razão, é nas realizações dessas pessoas que penso, quando me lembro dessa alma-irmã, também quixotesca, de Barbosa Lima Sobrinho, que foi Sobral Pinto, nas palavras que este pronunciou no Comício das Diretas, com aquela voz trêmula, em que citava a Declaração Universal dos Direitos do Homem, começando com o artigo primeiro: "Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido". Não era um ancião de 100 anos ou de 101 anos que falava na ocasião, era simplesmente um homem que, durante toda a vida, defendeu ideais democráticos semelhantes.


Quando escrevi um artigo sobre a dona Laura Rodrigo Octavio, por exemplo, como sabem, ela faleceu aos 101 anos de idade, escrevi um artigo destacando não o que ela própria, com seu amor peculiar, chamou o "mito da velhinha prodígio", mas a autora admirável de um livro importante chamado Elos de uma corrente, que é uma obra extremamente bem escrita, e que vai ficar como exemplo de memorialística brasileira, retratando toda uma fase da História do Brasil.


Então, se deixamos de lado a questão da longevidade em si, é porque acreditamos que a velhice é um fato biológico e não um critério de avaliação. Nessa perspectiva, qual seria, a meu ver, o mérito importante dessa figura absolutamente impar, extraordinária, que foi Barbosa Lima Sobrinho? Tudo que foi dito está correto, concordo absolutamente com todos os comentários feitos sobre essa figura extraordinária de homem público, de intelectual, de jornalista, de patriota que foi Barbosa Lima Sobrinho.


Para não repetir o que foi dito, a meu ver, o caráter único da trajetória intelectual e política de Barbosa Lima Sobrinho está numa coisa importante. Ele foi a síntese de duas correntes que nem sempre andam unidas, ele foi nacionalista, sim, mas foi democrata, também. Sabemos perfeitamente que a História do Brasil é atravessada por pessoas que são apenas uma dessas duas coisas. O Brasil teve inúmeros nacionalistas, civis e militares, que não foram democratas; teve inúmeros democratas, que não foram nacionalistas. Acho que o mérito extraordinário de Barbosa Lima Sobrinho é ter sido as duas coisas.


Ele escrevia artigos contra a desnacionalização do Brasil, contra a presença crescente e excessiva, a seu ver, das companhias transnacionais, dos monopólios internacionais, por um lado, mas, por outro lado, foi presidente da ABI, em momento especialmente conturbado da vida brasileira. Ele foi um defensor intransigente da liberdade de imprensa, ele foi um nacionalista que amava o Brasil por ser democrata, e era democrata por ser patriota.


Acho que são essas duas metades, que nem sempre estão unidas, que ficaram juntas em Barbosa Lima Sobrinho, e fizeram dele essa personalidade absolutamente extraordinária que estamos reverenciando neste momento.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Marcos Almir Madeira.


Acadêmico Marcos Almir Madeira


Senhor presidente; família de Barbosa Lima Sobrinho; amigos da Associação Brasileira de Imprensa; senhores acadêmicos; senhora acadêmica; minhas senhoras; meus senhores.


Já me acudiu, senhor presidente, dizer que, se me pedissem um conceito como definição, em suma, de cidadania, eu pediria alguns momentos para refletir. Mas, se me pedissem um exemplo de perfeito cidadão, a resposta seria instantânea: Barbosa Lima Sobrinho. Por que digo isso? Porque ele foi um cidadão, não contemplativo, longe do Brasil ufanista ou do ufanismo propriamente dito. Ele foi um cidadão excelente, porque foi exatamente um cidadão combativo, não foi contemplativo, ele foi combativo, e no combate, ele nunca se desmandou.


Vou além, senhor presidente. Ele não foi, de nenhuma forma, um demagogo, ele foi o anti-demagogo, creio até que quando ele foi o anti-candidato, ele foi anti-demagogo também. O que ele queria era firmar uma posição compatível com aquilo a que poderíamos chamar o seu brio cívico. O nacionalismo dele, o patriotismo dele era uma expressão do seu brio cívico, da sua consciência moral, ele foi antes de tudo um ser moral. Então, o patriotismo dele não era um patriotismo de compêndio, muito menos um patriotismo de convenção, mas um patriotismo vivido em função da sua própria formação, do seu próprio caráter, e isso é que imprime uma substância perfeita ao seu nível de patriotismo.


Creio até que, por uma questão de disciplina literária, porque ele foi escritor e bebeu em boas fontes sempre, por uma questão de disciplina literária, ele evitou e fugiu à demagogia, porque era um homem medido, era um homem sóbrio. Mesmo quando atacava, mesmo quando verberava, mesmo quando condenava, ele guardava a sobriedade, ele guardava a medida. Foi, portanto, o autêntico cidadão, o autêntico patriota, não demagogo, mas vendo apenas a dignidade da nação brasileira.


Presidente Tarcísio Padilha


Cabe-me dizer algumas palavras, uma vez que o meu sentir, o meu pensar sobre o grande homem público e o grande acadêmico, o grande jornalista Barbosa Lima Sobrinho, já o disse no discurso ao ensejo do velório, significando, estou seguro, o pensamento da Casa de Machado de Assis.


Permito-me apenas adicionar ao discurso que será depois publicado nos Anais, algumas poucas observações. Tenho aqui diante dos olhos a seguinte frase sobre Barbosa Lima Sobrinho: "Esse jornalista, esse historiador, esse homem de letras, tem sido, em todos os passos de sua vida, uma voz sempre pronta, na defesa de sua terra e de sua gente". Não li isso em nenhum elogio fúnebre, em nenhuma reportagem post mortem. Esta frase integra o discurso de Múcio Leão, neste salão, em janeiro de 1938, quando ele recepcionou Barbosa Lima Sobrinho.


A frase guarda a mais absoluta atualidade, decorridos sessenta e dois anos. É todo um percurso sem fratura, sem fissura, sem interrupção. Devo dizer que em matéria de fratura, sim, houve uma, de que ele nos dá a notícia, quando na primeira década do século, fraturou um braço e os seus pais zelosos o obrigaram a ficar um mês em casa. Ele então entrou na biblioteca do pai e aprendeu a gostar de ler. E o que ele leu? Diz ele: - Eu li tudo, a começar por Dom Quixote.- Tem muita razão a acadêmica Nélida Piñon em falar desse saudável quixotismo, se é que o quixotismo em si mesmo não é sempre saudável.


E ele então, a partir daí, iniciou essa trajetória de homem de letras, ou seja, viveu uma profícua experiência estética que se haveria de consolidar, se corporificar, através da densidade ética, cívico-ética, se quisermos, para afinal, já bem entrado nos anos, encontrarmos o seu aceno, a sua resposta a um apelo maior da transcendência. Em outras palavras, ele subiu os três degraus de Kierkegaard: o estético, o ético e o religioso. Este foi Barbosa Lima Sobrinho.


Com a palavra, o acadêmico Antonio Olinto.


Acadêmico Antonio Olinto


Senhor presidente; meus confrades; jornalistas e representantes da Imprensa presentes.


Chamo atenção para esse aspecto de jornalismo, porque Barbosa Lima Sobrinho foi essencialmente um jornalista. O que é ser jornalista? Fazer jornalismo não é ser jornalista; fazer jornalismo é fazer jornalismo. Ser jornalista é uma coisa que está dentro de uma jornada, de um jornal, está dentro de um dia, e o dia é apenas uma medida mínima para se justificar o tempo. Não é à toa que, em todo o mundo, tantos jornais se chamam O Tempo, Time, Le Temsp, Tempo, porque é do tempo que falamos, e é da memória que falamos.


Barbosa Lima Sobrinho era o mestre da memória e um mestre do tempo, porque só tendo a continuidade da memória podemos defender as nossas grandes idéias, que ele defendeu sem parar, num combate que veio desde o espírito de Carlos de Laet, outro jornalista da nossa Academia, de Evaristo da Veiga, de todos esses jornalistas que fizeram o Brasil. Um derrubou Dom Pedro I, o outro insistiu numa tradição religiosa em que ele acreditava; e este que nós hoje comemoramos e celebramos manteve o Brasil de pé, defendendo-o.


Já Aristóteles dizia: "Fora da liberdade, não há saída", e nós dizemos também: "Com a liberdade, nós defendemos a casa, defendemos o jardim, defendemos o campo, a cidade e o país". Então, é preciso ter essa liberdade de defender a liberdade, e com ela, defender o país, defender aqueles que moram conosco e que vivem conosco, aqueles que sofrem conosco e têm o prazer conosco, principalmente em um país como este. Se há um país que merece ser defendido, minha gente, é este. E ele teve um grande defensor.


Durante todo o meu tempo de vida, já cheguei aos 81, portanto, estava bem próximo dele, não estava tão longe assim, mas, desde o começo, acompanhando aquele homem, nem sempre concordando com tudo que ele dissesse, porém concordando com toda a ética que prevalecia sobre o que ele dissesse. Sabemos hoje, que tudo é cultura, sabemos que livro é cultura, televisão é cultura, mas uma coisa não é cultura, conforme dizia o filósofo Emmanuel Lévinas: "Ética não é cultura, ética é uma coisa que vem de dentro, que não se cultiva".


E isso ele tinha, isso ele veio dar-nos, e com todas as dificuldades e a falta de ética que o Brasil tem hoje, nós somos salvos por ele e seremos salvos mantendo a sua memória.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Celso Furtado.


Acadêmico Celso Furtado


Senhor presidente; senhores acadêmicos; minhas senhoras; meus senhores.


Vou me limitar a uma referência ao que poderia chamar de minha dívida para com Barbosa Lima. Creio que é a mesma dívida que tem toda uma geração brasileira, particularmente aqueles que pretenderam lutar pelo Brasil. Me recordo de que, quando lancei a luta pela operação Nordeste, para trazer o Nordeste para o centro da política brasileira, a primeira pessoa que compreendeu isso e reconheceu o significado do que eu estava pretendendo fazer foi Barbosa Lima Sobrinho.


Ele me convidou para um programa de rádio e, pela primeira vez, me apresentava diante de uma estação de rádio, e ele me interrogou sobre o que vamos fazer do Nordeste? E ele, como pernambucano, sabia do que eu estava fazendo. O que vamos dar aos nordestinos? Como convencê-los de que isso é sério? E assim, tivemos o primeiro debate franco, diante do microfone, sobre a grande ambição de todos nós, nordestinos e brasileiros, que era transformar aquela região do Brasil, não digo numa Canaã, mas numa terra prometida a melhores futuros. E aprendi com Barbosa, nesse momento, que havia sempre alguma coisa a fazer, em qualquer posição que se estivesse, porque eu o via apenas como jornalista, que encontrava, pela primeira vez, diante do microfone. E aprendi com ele esse sentido de missão do que cabe a cada um de nós assumir.


O segundo ponto que gostaria de referir da minha experiência com ele foi a que virá anos depois. A partir daí, vieram muitas lutas e fui exilado por dez anos, fiquei fora do Brasil esse tempo todo, e quando volto ao Brasil, não sabia por onde começar. Mas Barbosa Lima Sobrinho me descobre, me convida para um ato cívico ou um seminário, não sei bem como era, lá na ABI, que ele queria realizar com o objetivo de chamar atenção para a importância do que era a reflexão e a ação em torno da situação da mulher no Brasil e no mundo. Eu disse: - Isso me escapa.- Ele respondeu: - Disso não escapa ninguém.- E eu disse, então: -Vou me esforçar para dizer o que penso e o que sinto.- E lá nesse dia, afirmei categoricamente, se bem que fosse um assunto novo para mim, que aprendi tanto com as mulheres, que estava convencido de que, se elas tivessem uma melhor posição, tivessem mais espaço para atuar, o mundo seria muito melhor.


Então, me recordo de que, pensando nesse assunto, escrevi sobre isso, cheguei à conclusão de que, em realidade, no século em que vivemos, que é o século XX, quiçá a mais importante transformação teria sido a modificação do papel das mulheres na direção da civilização, do fazer do homem. É interessante ver que as mulheres exercem um papel secundário no que diz respeito à estrutura de poder. Quando se trata do ético, como dizia aqui mais um colega, elas, às vezes, têm um papel fundamental. E na verdade, era essa a idéia de que o ético e a modificação do homem só poderão vir de uma transformação desse homem, e compreendi que isso dependeria muito do papel que as mulheres têm na nossa sociedade. Dediquei-me, então, um pouco a esse problema e ajudei, participei de várias organizações mundiais que estão voltadas para a revisão do nosso quadro histórico, abrindo mais espaço a essa parte sub-utilizada, ou digamos, subjugada, no nosso patriarcalismo, que tem sido a mulher na humanidade.


Devo ao Barbosa Lima, não só ter pensado muito no Brasil, mas ter pensado mais na condição humana, particularmente na condição feminina.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Fernando Bastos de Ávila.


Acadêmico Pe. Fernando Bastos de Ávila


Minhas senhoras; meus senhores.


Devo dizer que, realmente, tudo que tinha preparado já foi dito, de uma maneira brilhante, por aqueles que me antecederam. Permitam-me apenas fazer o que imagino ser uma síntese do que foi dito da figura de Barbosa Lima Sobrinho. O humanismo, o humanismo criativo que ele pensou no homem, em garantir a dignidade do homem, e garantir essa dignidade numa convivência sensata, numa visão de absoluta primazia da idéia democrática sobre todos os outros sistemas em outros regimes. Foi um humanismo cívico, preocupado com o homem, e uma vida digna para o homem, uma vida sensata numa comunidade democrática.


Me permito, na medida em que puder controlar minha emoção, fazer uma referência especialmente carinhosa a Maria José, porque ela morava ali na Rua Assunção, e todos os domingos, vinha pela rua Eduardo Guinle, e ia assistir à missa numa capelazinha da Congregação Mariana de Nossa Senhora das Vitórias, em Botafogo. Foi ali que se estabeleceu entre nós uma profunda amizade, uma profunda admiração, até o momento em que ela teve que usar uma bengalinha, então não apareceu mais. Mas fez questão de levar o Barbosa Lima Sobrinho, o marido dela, ao Colégio Santo Inácio para assistir à missa lá.


Eu conservo, de dona Maria José, está lembrança de uma extrema saudade. Aquela que se dedicou de tal maneira à vida dele, ao sentido total da vida dele, e que vinha, todos os domingos, ali participar dos mistérios sagrados, e lembrando certamente daquele imenso amor que foi o sentido de toda a sua vida.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Evandro Lins e Silva.


Acadêmico Evandro Lins e Silva


Senhor presidente; senhores acadêmicos; familiares de Barbosa Lima Sobrinho; representantes da Associação Brasileira de Imprensa; minhas senhoras; meus senhores.


Há bem pouco tempo, numa homenagem a Barbosa Lima Sobrinho prestada no PEN Club, tive oportunidade de dizer muitas coisas dele, mas vou dizer poucas coisas agora, reproduzindo aquilo que disse naquela solenidade.


De Barbosa Lima Sobrinho, se pode dizer que é hoje um homem símbolo no Brasil, por sua dignidade, por sua intrepidez, por sua cultura, por sua autonomia, por sua coerência. É uma figura emblemática, um padrão de honradez, escritor, decano da Academia Brasileira de Letras e do PEN Club, jurista eminente, jornalista que há setenta anos escreve um artigo no Jornal do Brasil aos domingos, sempre familiarizado com os problemas da atualidade. Presidente da Associação Brasileira de Imprensa, paladino defensor das riquezas nacionais, detentor da medalha Rui Barbosa, e da medalha Teixeira de Freitas do Instituto dos Advogados Brasileiros.


Cidadão vigilante na defesa do interesse público e da moralidade na administração, teve atuação muito importante e destacada neste final de sua vida, quando o Brasil precisou dele para reagir contra uma ditadura que tumultuava a nossa História. Ele, juntamente com Ulysses Guimarães, percorreu o Brasil todo, perseguido, ofendido, lutando para a redemocratização do país, e teve um desempenho já maduro, já idoso. Em seguida, além de ter sido governador de seu Estado, foi Constituinte, deputado federal, e depois de ter travado essa luta, veio no final da vida a desempenhar um papel muito importante no impeachment do presidente Fernando Collor de Mello.


Fui seu advogado nessa época, e então, nesses grandes momentos da nossa evolução política, estava sempre pronto a se entregar à luta e ao sacrifício pessoal, em defesa do interesse público. No caso do impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, esteve presente, juntamente com Marcelo Machado, que era o presidente da OAB, nos momentos mais graves e importantes daquele processo no Senado da República. A sua simples presença infundia respeito. Os conselhos e as observações de sua experiência eram um rumo seguro para os advogados enfrentarem e conseguirem desalojar da direção do país, com a ajuda do clamor do povo, um governante que se tornou indigno e sem decoro para o exercício do poder.


Depois disso, agora, neste momento, ele era uma das vozes isoladas contra esse famoso engodo da globalização do mundo, que a realidade está mostrando que é, realmente, um sistema em que não há desenvolvimento nenhum de ninguém, é certamente o atraso, é o retrocesso, hegemonia de uma potência única a dominar as riquezas do mundo inteiro. Então, ele se colocou em uma oposição bem nítida, e bem efetiva e bem enérgica, contra a alienação do patrimônio nacional.


Era por excelência o nacionalista, herança de Alberto Torres, de quem ele havia escrito uma biografia, A presença de Alberto Torres, e ainda no dia da sua morte, no dia em que foi enterrado, em um artigo seu no Jornal do Brasil, combatia este sistema. Essa globalização que o Celso Furtado tanto combateu, tem combatido também, porque não é possível admitir, como ele não admitia, que o país viva subordinado à direção econômica de outra potência.


Ele foi, realmente uma figura extraordinária no cenário brasileiro, no cenário da vida nacional. Nesses momentos mais graves e mais delicados, ele aparecia e se colocava à frente da luta, aos 103 anos de idade, com absoluta lucidez.


Portanto, perdemos realmente um cidadão brasileiro da maior significação no nosso desenvolvimento neste último século, século XX que ele viveu por inteiro, dando exemplos de probidade, de altivez, de bravura cívica e de amor ao país. Ele, realmente, aqui na Academia faz falta. O curioso é isso, um homem com 103 anos de idade faz falta, é um homem atual; ele estava lendo o que se publicava agora em matéria de economia, em matéria de política, sobretudo no mundo, nesse mundo globalizado. Ele se insurgiu contra isso e era uma das vozes únicas, e na Imprensa, todos os domingos, se batia em defesa do interesse brasileiro.


Barbosa Lima merece a nossa admiração, a nossa saudade, nesta solenidade que agora a Academia Brasileira de Letras faz ao seu decano. Vou terminar, porque fui amigo dele muito de perto e me emociono muito quando falo sobre Barbosa Lima Sobrinho. Peço a todos uma salva de palmas para Barbosa Lima Sobrinho.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Murilo Melo Filho.


Acadêmico Murilo Melo Filho


Senhor presidente Tarcísio Padilha; senhores acadêmicos; senhora acadêmica; senhores jornalistas e diretores da ABI; senhores familiares de Barbosa Lima, em especial Fernando e Carlos; minhas senhoras e meus senhores; meus amigos.


Tendo nascido em 1897, seis meses antes da Fundação da nossa Academia que, exatamente no dia de hoje, 20 de julho, está completando 103 anos de existência; tendo nascido no dia 21 de janeiro de 1897, Barbosa Lima Sobrinho viveu três anos no século XIX, viveu mais cem anos no século XX, e precisaria ter vivido cinco meses mais, para chegar ao século XXI e realizar a façanha, digna de figurar no Guinness Book, de ser um dos poucos homens na terra a viver em três séculos. Foi um homem centenário, portanto.


E eu pergunto agora, senhor presidente, com que coerência, dignidade e honradez viveu ele esses seus quase 104 anos de vida? Ele foi uma bandeira, uma âncora, uma unanimidade, um símbolo, um hino, um mito, um herói, um líder, um militante, um gigante, um modelo, um ícone, um sábio, um mestre, um paradigma, um varão, um patriarca, corajoso, tenaz e incansável; que nos transmitiu o orgulho de sermos brasileiros; que nos legou um azimute, uma Bíblia, uma bússola, um ideário e um norte, a balizar, a sinalizar e a vocalizar a nossa vida inteira; que sonhou com um Brasil mais livre, mais justo e menos desumano; e que deixa um vácuo enorme num país tão carente de líderes do seu porte e da sua estatura.


Agora, já estamos um pouco órfãos, mas também consolados com seu inimitável exemplo de vida, que os jovens brasileiros jamais deverão esquecer. Esses jovens, sobretudo os do próximo milênio, terão muito a lucrar com as suas vistas voltadas para o grande farol que, na semana passada, simplesmente não se apagou, porque, na certa, continuará luzindo e clareando a estrada pela qual todos eles, um dia, marcharão.


Senhor presidente, o Dr. Barbosa foi o único brasileiro que conseguiu, até agora, ser presidente e decano da ABI e da ABL, que, justamente por isto, fizeram questão de partilhar as suas despedidas. A Associação Brasileira de Imprensa foi, durante muitos anos, o Q.G. de suas lutas, desde as duas Constituintes (a de 1934 e a de 1946), o Governo de Pernambuco em 1947, (que ele conquistou com a escassa e disputada maioria de 350 votos), as campanhas do "Petróleo é nosso" e da remessa de lucros, em 1954; até a "anti-candidatura" em 1973, ao lado de Ulysses Guimarães, contra o candidato militar, quando, em Salvador, foram acossados por cachorros da polícia; passando pela campanha das Diretas Já, em 1983; pelo impedimento de Collor, em 1992; e a sua mais recente luta contra a globalização e a alienação das empresas brasileiras ao capital estrangeiro.


Segundo Barbosa Lima, o Brasil tem tido muitos Silvérios dos Reis e poucos Tiradentes. Esta Academia o elegeu no dia 28 de abril de 1937 para a Cadeira nº 6, de Casimiro de Abreu, que ele ocupou durante sessenta e três anos, como seu secretário-geral e seu presidente, mas, sobretudo, como o confrade cordial, atencioso e gentil, convivendo fraternalmente conosco, seus colegas "imortais", na sua inesgotável riqueza de ser humano, vocacionado para o carinho e o companheirismo.


Em seu enterro, aqui na Academia, na ABI e no nosso Mausoléu, os acadêmicos, os jornalistas, as autoridades, a família e o povo estiveram presentes, testemunhando nas lágrimas, no choro, nas pétalas de rosas, nas orações, nas faixas e nos hinos, todo o seu mais profundo sentimento.


Senhor presidente, Barbosa Lima Sobrinho viveu 103 anos e seis meses de uma vida coerente, digna e honrada, com sessenta e oito anos ao lado da sua grande e inesquecível Maria José. Mas ele foi, sobretudo, um admirável e incomparável jornalista na linha de Evaristo da Veiga, José do Patrocínio, Hipólito José da Costa, Alcindo Guanabara, José Bonifácio, Quintino Bocaiúva, Múcio Leão, Carlos de Laet, Felix Pacheco, Elmano Cardim, Austregésilo de Athayde, Antônio Callado, Otto Lara Resende e Carlos Castello Branco.


Ele foi também um jornalista profissional e participante do seu tempo, do seu povo e do seu país, muito honrando a Imprensa e o jornalismo brasileiros, que dele vão sentir saudades imensas.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco.


Acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco


Senhor presidente; senhora e senhores acadêmicos; minhas senhoras; meus senhores; representantes da ABI; família Barbosa Lima, Fernando e Carlos.


Esta Academia tem a idade de Barbosa Lima. Mas, em toda a sua história, poucas vezes aconteceu que ela perdesse, não um herói literário, como Machado, porém um autêntico herói nacional. Isso ocorreu com Nabuco, Rio Branco, Rui... Porém, raramente, um dos seus membros terá representado como Barbosa Lima, na própria imagem e conduta, as mais legítimas e profundas aspirações populares.


Quando as oposições começaram a levantar-se contra o obscurantismo, que as oprimia há uma década, ali estava ele, como anti-candidato à vice-presidência da República, a encarná-las numa pregação missionária em favor do restabelecimento dos direitos políticos no país, atitude tão mais nobre quanto consciente da impossibilidade de vencer, mas semeadora de sementes do inconformismo com o regime autoritário. Aquelas sementes geraram, anos mais tarde, a campanha pelas eleições diretas. Outra vez, Barbosa Lima lá se encontrava. Outra vez, a vontade do povo foi fraudada. Contudo, sua palavra voltou a cair em terreno fértil, fecundando, tempos depois, a restauração das liberdades políticas no Brasil.


Essa conquista seria ainda posta em risco pela corrupção mais desbragada, que se instalara na cúpula do Executivo. Mas a nova impostura teve ainda pela frente o jovem nonagenário, com o rosto pintado de verde e amarelo, para pôr abaixo, com outro acadêmico que honra esta Casa, Evandro Lins, uma presidência fraudulenta, restaurando a dignidade nacional. Em breve, o bom combate passaria para o terreno da defesa do patrimônio público, ameaçado de dilapidação sistemática justamente por aqueles incumbidos de preservá-lo. E, até o fim, a bandeira dessa luta desigual esteve entregue às mãos limpas de um Sísifo já centenário, empenhado em erguer, ladeira acima, a pesada mole da democracia, do patriotismo, da justiça, da verdade, da dedicação total ao bem comum.


Tenho plena consciência, senhor presidente, de que esta é uma Academia de Letras, não uma arena política. Todavia, o nosso espaço para escrever e publicar o que quisermos se ganha ou se perde nos embates públicos, pela pena, pela voz, ou mesmo, pelas armas. O grande batalhador desaparecido era um homem livre. Não tinha alma de escravo. Sua palavra, esgrimiu-a sempre em defesa da liberdade para todos nós. Foi advogado de uma só causa, o Brasil. Agora, Barbosa Lima partiu. No entanto, os ideais a que dedicou a vida permanecem. E ele os brandirá como lanças, qual Cid Campeador, o cavaleiro cristão, à frente das suas tropas, já morto como Cid, mas vencedor, pela força de um exemplo que não será esquecido.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Carlos Heitor Cony.


Acadêmico Carlos Heitor Cony


Senhor presidente; senhores acadêmicos. O padre Fernando Bastos de Ávila foi talvez o único que falou a palavra que, para mim, é chave para definir Barbosa Lima Sobrinho: o grande humanista que ele foi. O fato de ele ser nacionalista, o fato de ser jornalista e o fato de qualquer outro ista não podem, em absoluto, obscurecer aquele nexo comum que perpassa por toda a vida dele. Um homem que colocou o homem no centro das suas preocupações, e em nome dele, esteve disposto a morrer e lutou e soube ser grande.


Barbosa Lima foi sobretudo um grande humanista, não foi nacionalista, porque nacionalismo é uma bandeira meio prostituída por diversas facções da direita, da esquerda, ditadores, democratas. De maneira que tenho bastante repugnância de considerar um homem como Barbosa Lima apenas um nacionalista, prefiro classificar o grande humanista que foi, um homem que dedicou a vida a, como lhes falei, colocar o homem no centro das suas preocupações, no centro da sua luta.


Além disso, também não se pode deixar de reconhecer que Barbosa Lima foi um homem de letras, um homem que teve a vocação do belo. Os ensaios dele sobre a língua portuguesa, o trabalho dele sobre Alberto Torres, são obras que, realmente, situam Barbosa Lima não apenas como grande humanista, mas também como grande homem de espírito, um homem que poderia ter sido muito mais, se mais se dedicasse, um grande artista.


Quanto a Barbosa Lima Sobrinho, tenho uma recordação pessoal, pequena, mas muito importante. Quando eu era criança, freqüentava a redação do Jornal do Brasil, ainda a velha, na Avenida Rio Branco, 110, e foi meu primeiro contato com uma verdadeira constelação de astros, onde estavam ao lado do meu pai, que era um obscuro repórter, figuras como Anibal Freyre, Múcio Leão, Carneiro Leão, Manuel Bandeira, Nelson Carneiro, e evidentemente, Barbosa Lima Sobrinho. Talvez seja um dos últimos homens públicos que ainda me viu de calças curtas. De maneira que tenho essa ligação sentimental com Barbosa Lima Sobrinho.


Ele foi, digamos assim, além do humanista, uma frase que poderia defini-lo muito bem seria aquela do explevit tempora multa, "preencher um grande tempo". É uma frase com que, geralmente, se pode definir os santos e os heróis.


Presidente Tarcísio Padilha


Com a palavra, o acadêmico Ivan Junqueira.


Acadêmico Ivan Junqueira


Senhor presidente; senhores acadêmicos; senhora acadêmica; familiares de Barbosa Lima Sobrinho; ilustres membros da Associação Brasileira de Imprensa.


Jamais me passou pela cabeça que o destino me fizesse estrear no Plenário desta Casa, falando sobre a morte de um dos gigantes deste século, e como o mais recente membro da Casa, os senhores acadêmicos me reservaram uma tremenda impiedade, porque tudo o que teria a ser dito sobre Barbosa Lima Sobrinho já foi dito antes de mim. Quase não me resta nada a dizer, a não ser repetir umas tantas acepções, dentro das quais Barbosa Lima Sobrinho foi colocado ao longo dos discursos anteriores.


Gostaria de insistir aqui no fato de sua postura acima de tudo humanística, porque, evidentemente, não é à toa que alguém se disponha a defender os interesses do homem brasileiro, sem que não seja, acima de tudo, um grande humanista. Barbosa Lima Sobrinho foi, além disso, um extraordinário polígrafo, pois, além de jornalista, foi também escritor, foi político, foi historiador, foi sociólogo, e creio eu que, para entrar nesta Casa, bastaria que tivesse escrito Presença de Alberto Torres e A língua portuguesa e a Unidade do Brasil, onde coloca de uma maneira, vamos assim dizer, meridiana e clarividente, cerca de meio século atrás, essa questão que define a nossa língua como sendo a língua portuguesa.


Não há por que todas essas questões, todas essas pretensões de que possamos, um dia, ter uma língua brasileira. A nossa língua é a portuguesa, e se pensássemos bem, não conseguiríamos ver aqui no Brasil sequer a presença de dialetos, e simplesmente de alguns sotaques, conforme a região em que a língua é falada, como Barbosa Lima muito bem definiu em seu livro. Sempre me causou certa estranheza que esse livro ficasse esquecido durante quase meio século, e que só agora, cerca de um ano atrás, fosse republicado.


Mas a grande lição de Barbosa Lima, a meu ver, é a lição da defesa da democracia, mais ainda que do nacionalismo, e sobretudo, a sua posição contra essa concepção de neo-liberalismo e de globalização, que só faz enriquecer os mais ricos e empobrecer os mais pobres. Com a morte de Barbosa Lima Sobrinho, senhor presidente, passamos a ser um pouco menos brasileiros e o Brasil um pouco menos Brasil, o que é uma pena, mas vamos continuar nessa luta.


Presidente Tarcísio Padilha


Antes de encerrar esta sessão de saudades, cabe-me, nos termos regimentais, declarar vaga a Cadeira nº 6, que tem como patrono Casimiro de Abreu, como fundador Teixeira de Melo, como ocupantes Arthur Jaceguai, Goulart de Andrade e Barbosa Lima Sobrinho.


Senhores acadêmicos, senhores familiares, dirigentes da ABI, senhoras e senhores, como puderam ver, aqui desfilaram vinte e quatro pronunciamentos, vinte e quatro mensagens, cada uma das quais marcada pela emoção, mas também pela reflexão sobre o papel exponencial desempenhado pelo acadêmico desaparecido.


Ocorre que esse desaparecimento não se dá à semelhança do que ocorre com aqueles que são apenas dirigentes, são apenas chefes, eles desaparecem definitivamente. Já aqueles que são modelos e referenciais da sociedade, às vezes, se opulentam quando desaparecem, porque a morte permite que se faça de cada ser humano que desaparece um retrato irretocável, e aí, em toda sua grandeza límpida e meridiana, emerge a figura e o papel representado, no caso, por Barbosa Lima Sobrinho.


Fixemos o nosso olhar neste retrato definitivo, e o tenhamos como modelo para cada um de nós, porque ele já é modelo do Brasil inteiro.


Está encerrada a sessão. Muito obrigado.

Acadêmico relacionado : 
Barbosa Lima Sobrinho